Gestão de liquidez e capital de giro tornam-se prioridades com Selic elevada e novas tarifas (Andrzej Rostek/Shutterstock)
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Publicado em 23 de julho de 2026 às 15h00.
Por Thamiris Abdala*
A combinação de uma taxa Selic a 14% ao ano com a imposição de um tarifaço de 25% no comércio internacional gera o cenário perfeito para o que chamo de efeito tesoura sobre as finanças corporativas.
De um lado, o juro elevado encarece drasticamente o crédito interno e eleva o custo de capital para patamares severos.
Do outro, a barreira tarifária de 25% comprime diretamente a margem das companhias que exportam para os Estados Unidos.
Ao ser espremida simultaneamente pela receita e pelas despesas financeiras, a empresa vê suas prioridades mudarem de patamar: o risco número um do ambiente de negócios deixou de ser o lucro e passou a ser a liquidez.
No desenho do planejamento estratégico, o primeiro desdobramento desse fenômeno é a transformação do capital de giro em um gargalo central.
Com o dinheiro custando 14% ao ano, cada dia de estoque parado e cada prazo adicional concedido aos clientes consome os recursos de caixa de maneira substancial.
O ciclo financeiro, frequentemente negligenciado ou tratado como mero detalhe operacional nos tempos de juros baixos, passa a se consolidar como uma questão vital de sobrevivência corporativa.
O segundo efeito dessa conjuntura atinge diretamente o exportador, que perde de forma imediata o seu poder de precificação.
Uma tarifa de 25% imposta no destino final obriga a liderança a tomar decisões difíceis: repassar o preço e arcar com a consequente perda de volume comercializado, ou absorver o impacto da tarifa e ver sua margem de lucro derreter.
Embora um câmbio operando próximo de R$ 5,20 traga um alívio parcial para as exportações, ele se mostra insuficiente para cobrir um choque de 25 pontos percentuais de tarifa.
É fundamental compreender que não estamos lidando com uma instabilidade passageira. O mercado já projeta uma taxa Selic ainda na casa dos 12% para 2027.
Diante deste novo patamar macroeconômico de longo prazo, qualquer planejamento estratégico desenhado sob a premissa de juros de um dígito precisa ser urgentemente refeito.
Para as lideranças, a resposta a esse cenário deve ser direta e inequívoca: é mandatório blindar a liquidez antes de perseguir metas ambiciosas de crescimento.
Para operacionalizar essa proteção, a atuação executiva precisa se organizar em quatro frentes táticas essenciais.
A primeira delas consiste na defesa imediata do caixa a partir do encurtamento do ciclo financeiro, que representa a alavanca de resposta mais rápida disponível.
Isso exige girar estoques com disciplina férrea — uma vez que carregar produtos parados com juros a 14% equivale a queimar dinheiro —, além de revisar criteriosamente as políticas de concessão de crédito e renegociar prazos com fornecedores.
Paralelamente, faz-se necessário substituir dívidas caras de curto prazo por linhas de financiamento mais longas, travando os custos antes de novos repiques nas taxas.
A segunda frente, e que permanece subutilizada pela maioria das empresas, reside na esfera tributária.
Antes de recorrer ao crédito bancário tradicional e se submeter aos 14% ao ano, a liderança precisa resgatar o caixa que já pertence legitimamente à companhia.
A recuperação de créditos acumulados de PIS, Cofins e ICMS configura uma injeção de liquidez pura, sem custos financeiros associados.
Para o exportador, o uso de regimes especiais torna-se decisivo. Destacam-se aqui o drawback, capaz de suspender ou isentar tributos sobre insumos importados voltados à exportação, e o Reintegra, que devolve parte do resíduo tributário da cadeia de produção.
Onde houver viabilidade jurídica, transações tributárias e parcelamentos estratégicos devem ser avaliados para desafogar o fluxo mensal.
Em um ambiente de dinheiro escasso, o crédito tributário recuperado adquire valor máximo ao substituir o capital bancário de alto custo.
A terceira vertente envolve a estruturação rigorosa da gestão de risco. A implementação de políticas de hedge cambial deixa de ser um mecanismo opcional de tesouraria e passa a ser uma exigência de governança.
O cenário exige a execução constante de testes de estresse envolvendo flutuações de câmbio, juros e volume, bem como a revisão proativa de covenants de dívidas antes que ocorra o descumprimento de cláusulas contratuais.
Acima de tudo, diversificar as geografias de destino das exportações desponta como a única defesa de longo prazo para reduzir a dependência estrutural em relação ao mercado norte-americano.
Por fim, a quarta frente exige uma repactuação comercial madura.
É o momento de renegociar contratos vigentes para a inclusão de cláusulas automáticas de repasse de custos tributários e cambiais, revisando as margens produto a produto.
A prioridade comercial deve migrar para canais e clientes que entreguem maior rentabilidade líquida, abandonando a busca cega por volumes que não sejam capazes de remunerar adequadamente o custo de capital.
Em ciclos econômicos de forte aperto, a vitória pertence às organizações que priorizam a defesa do caixa em detrimento do resultado contábil isolado.
A liderança corporativa precisa abandonar em definitivo a mentalidade de expansão acelerada para abraçar uma postura de resiliência e adaptabilidade.
O erro fatal do gestor contemporâneo é insistir em um planejamento desenhado sob a ilusão de que o dinheiro voltará a ser barato e de que o mercado externo continuará garantido, pois, no cenário atual, nenhuma dessas duas certezas existe mais.
*Thamiris Abdala é CEO da Holding SM - Negócios e Gestão - Com mais de nove anos de experiência na PETROBRAS como engenheira, Abdala já ocupou cargos de destaque na Outlier Advisory e atuou como CFO no Grupo Epicus. Seu sólido background acadêmico inclui Mestrado em Engenharia pela PUC e Mestrado em Contabilidade pela FUCAPE Business School, além de um Executive MBA em Finanças pelo Ibmec.