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Análise: Sob pressão eleitoral, Lula faz discurso de candidato na ONU ao citar bets e 6x1

Presidente também abordou o combate ao crime organizado em fala a 12 dias do primeiro turno

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante Abertura do Debate Geral de Alto Nível da 81ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas (Ricardo Stuckert)

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante Abertura do Debate Geral de Alto Nível da 81ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas (Ricardo Stuckert)

Ivan Martínez-Vargas
Ivan Martínez-Vargas

Repórter especial em Brasília

Publicado em 22 de setembro de 2026 às 13h26.

Última atualização em 22 de setembro de 2026 às 14h34.

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A 12 dias do primeiro turno das eleições brasileiras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou, em sua fala na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira, 22, um discurso de candidato, com claras sinalizações de bandeiras de campanha voltadas ao público brasileiro. A líderes de todos os continentes do planeta, Lula temperou suas já esperadas defesas do multilateralismo e de uma reforma das Nações Unidas com críticas a casas de apostas, à defesa do fim da escala 6x1 e do combate ao crime organizado, temas de sua agenda eleitoral.

A viagem representa para Lula uma oportunidade de pautar o debate público no Brasil após semanas em que a agenda política foi dominada pelos desdobramentos do caso Banco Master e por seus efeitos sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise na Corte ganhou dimensão eleitoral depois da divulgação de mensagens envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes e das disputas internas sobre como conduzir as investigações. Embora nada disso esteja relacionado a Lula, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a explorar o episódio para tentar conectá-lo politicamente ao ministro e ao desgaste do Supremo.

Na ONU, o conteúdo doméstico foi o protagonista do discurso de Lula. Mesmo nos recados que procurou dar ao governo dos Estados Unidos e ao presidente Donald Trump, ao criticar, por exemplo, tentativas de ingerência externa em eleições na região, Lula o fez reforçando o discurso de soberania nacional que já vem adotando em sua campanha. Lula disse que "voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais" e que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Também atacou o uso de tarifas como instrumento de "coerção e chantagem". Mesmo sem citações nominais aos Estados Unidos e a Trump, ficou claro a quem e a que o presidente se referia.

Em uma eleição em que a segurança pública figura como a maior preocupação dos eleitores, Lula também buscou mostrar que o governo combate o crime organizado, sem abrir mão do discurso de soberania. Afirmou que o Brasil não vai "terceirizar a responsabilidade" de defender suas fronteiras e dispensou, em outro recado aos EUA, "porta-aviões vigiando nossas águas". Em vez disso, cobrou cooperação para interromper os fluxos de armas e dinheiro que abastecem as organizações criminosas.

Bets e escala 6x1

Lula escolheu levar ao plenário da ONU a "indústria bilionária das bets". Afirmou que o Brasil não tolerará esse modelo de negócio e exaltou o Pix. Na sequência, incluiu entre os objetivos do país acabar com a escala 6x1, para assegurar dois dias de descanso por semana aos trabalhadores. Mais do que apresentar resultados de governo, Lula enumerou pautas que considera populares e que hoje fazem parte da disputa eleitoral.

No encerramento, ao lembrar que os brasileiros irão às urnas em 4 de outubro, Lula buscou se contrapor a Flávio Bolsonaro sem mencioná-lo diretamente. Afirmou que o eleitorado decidirá "entre democracia e negacionismo" e entre "um futuro de mais oportunidades" e "um passado de exclusão".

Em outra indireta ao seu principal rival nas urnas, Lula disse que há quem se associe a "interesses estrangeiros contrários ao país" e encerrou afirmando que a democracia brasileira "pertence aos brasileiros". A mensagem, embora proferida diante de chefes de Estado, é dirigida diretamente ao eleitor que acompanhará a campanha nas próximas duas semanas e busca reavivar a ideia de que a família Bolsonaro atua contra os interesses nacionais em um suposto conluio com o governo americano.

Escolha das reuniões bilaterais

A inflexão eleitoral já era evidente antes mesmo do discurso da ONU, quando Lula decidiu permanecer por menos de 48 horas em solo americano para voltar ao Brasil o mais rápido possível. A avaliação no entorno do presidente era de que o discurso seria, como foi, uma oportunidade para que Lula adotasse um tom crítico em relação a Trump — mas sem incitar uma reação do americano — e projetasse uma boa relação com líderes internacionais. A escolha de receber, em reuniões bilaterais, líderes de esquerda, como o jovem e progressista prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o veterano esquerdista Bernie Sanders, também serviu a esse propósito.

As escolhas de Lula sobre com quem se encontraria em sua breve passagem por Nova York contrastaram com a ausência de qualquer tratativa para conversar pessoalmente com Trump, ainda que por fugazes segundos nos bastidores da Assembleia. A decisão é consciente e decorre da avaliação de que Brasília e Washington já reconstruíram canais de diálogo sobre o tarifaço, mas que só darão algum resultado depois das eleições.

Em agosto, Lula tomou a iniciativa de telefonar para Trump, numa conversa de 1h20, na qual defendeu a retomada das negociações sobre o tarifaço. O contato levou as equipes dos dois países a voltarem à mesa a partir de 31 de agosto.

O contraste ajuda a definir a viagem. Lula usou a principal vitrine diplomática anual do Brasil não apenas para defender temas tradicionais de sua política externa, mas sobretudo para recolocar no debate brasileiro linhas centrais de sua campanha. Com uma passagem deliberadamente curta e sem aproximação pública com a Casa Branca, Nova York ofereceu ao presidente uma vitrine internacional para falar, sobretudo, ao eleitor brasileiro. A questão, na reta final, é quanto espaço essa agenda conseguirá conquistar numa campanha que, nas últimas semanas, passou a ser atravessada por uma crise institucional que a deixou na defensiva.

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