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Aviação aposta em dados e biometria para dobrar passageiros até 2050

Pedro Alves, VP Sênior da SITA, explica por que o Brasil pode pular etapas na corrida por eficiência aeroportuária

Tecnologia, biometria e inteligência artificial são apontadas como caminhos para ampliar a aviação sem depender apenas de mais infraestrutura (Teacher Photo/Bússola)

Tecnologia, biometria e inteligência artificial são apontadas como caminhos para ampliar a aviação sem depender apenas de mais infraestrutura (Teacher Photo/Bússola)

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Publicado em 22 de setembro de 2026 às 07h00.

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A aviação civil se prepara para o que pode ser o maior salto de demanda da história. Segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA):

O setor deve transportar 8 bilhões de passageiros por ano dentro de 25 anos

O resultado será de 10 bilhões até 2050.

O setor passou a se perguntar, a partir destes dados, como ele poderia dobrar o transporte aéreo desta maneira sem dobrar aeroportos, frotas e postos de fronteira.

Dois relatórios recentes da SITA, fornecedora global de tecnologia para aéreas e aeroportos, ajudam a responder essa pergunta. 

  • O Relatório de Impacto SITA 2025 mostra que, em Aruba, passageiros já concluem o desembarque em 8 segundos. 
  • O Baggage IT Insights 2026 aponta queda de 23% na taxa de extravio de bagagens no mundo, com a América do Sul operando com custo por mala abaixo da média global.

As evidências fornecidas pela empresa apontam para a tecnologia como motor do desenvolvimento do setor nas próximas décadas. 

No Brasil, esse debate ganhou um capítulo concreto: o Ministério de Portos e Aeroportos, com apoio do Serpro, e a ANAC conduzem a construção da Política Nacional de Identificação Biométrica para aeroportos. 

Para falar sobre essas mudanças, conversamos com Pedro Alves, Vice-Presidente Sênior da SITA. Confira a entrevista:

Qual será o papel da tecnologia nessa jornada de crescimento?

A indústria não vai conseguir chegar a 10 bilhões de passageiros só construindo mais infraestrutura. Ela precisa antecipar a demanda e se adaptar em tempo real. Uma analogia que gosto é a da Netflix, Spotify ou Amazon. 

Essas empresas não só coletam dados. Elas usam dados para antecipar o que você precisa e fazer a experiência parecer simples. A área de viagens está chegando a um momento parecido. 

Aéreas, aeroportos e órgãos de fronteira já têm uma quantidade enorme de informação. A oportunidade agora é usar esses dados para enxergar o que vem pela frente.

O Brasil bateu recorde histórico em 2026, com 54,9 milhões de passageiros nos cinco primeiros meses do ano e voos internacionais crescendo quase o dobro dos domésticos. O Brasil acompanhará o cenário global?

Sim, o Brasil tem a oportunidade de traçar o próprio caminho. O que me deixa animado é que o Brasil pode construir conexões mais fortes dentro da aviação enquanto cresce. 

Em mercados maduros, companhias, aeroportos e governos estão agora tentando integrar processos que foram criados ao longo de décadas. O Brasil tem a chance de tornar essa integração parte do seu crescimento desde o início.

Como as peculiaridades da aviação brasileira podem influenciar positiva ou negativamente os resultados dentro da projeção global?

A maior vantagem do Brasil também é o seu maior desafio: a escala. O país tem uma população grande, forte apelo turístico e centros econômicos espalhados. Isso faz da aviação algo essencial para conectar pessoas e regiões. Mas ela também cria complexidade.

As distâncias são enormes, a conectividade regional ainda é desigual e os aeroportos precisam crescer em mercados diferentes. O Brasil precisa ampliar o acesso, garantindo, ao mesmo tempo, que a jornada continue simples e confiável. 

A boa notícia é que o Brasil não precisa copiar outros mercados. Ele pode incorporar tecnologias já desde agora.

Segundo o Relatório de Impacto SITA 2025, o desembarque em Aruba é realizado em 8 segundos, e a companhia também registrou triagem de mais de 271 milhões de viajantes por ano. Enxergamos aqui um foco na experiência do passageiro. O quanto tem sido investido nesse aspecto e o que está por trás dessa estratégia?

Vivemos numa economia da experiência. Os passageiros agora comparam a viagem aérea com as experiências mais fáceis da vida deles. 

Aruba mostra o que se torna possível quando a indústria redesenha a jornada pensando no usuário. O retorno vai muito além de uma fila mais curta. 

Agentes de fronteira conseguem concentrar a atenção onde ela é mais necessária. Aeroportos conseguem lidar com as chegadas de forma mais tranquila. E passageiros começam a viagem mais cedo.

O novo estudo de bagagens da SITA mostra que a taxa de extravio caiu 23% globalmente, e a América do Sul já opera com custo por mala abaixo da média mundial. O que esse resultado diz sobre a maturidade da operação aeroportuária na região?

Companhias e aeroportos estão cada vez melhores em identificar e resolver problemas. Para a América do Sul, operar com um custo por bagagem extraviada abaixo da média global é mais um sinal animador. O próximo passo é ajudar aéreas, aeroportos e equipes de bagagem a prever e prevenir problemas.

O relatório também aponta que três em cada quatro companhias aéreas planejam investir em IA para gestão de bagagens nos próximos dois anos, com a meta de conformidade total à Resolução 753 da IATA prevista para 2027. Para onde você vê essa curva de eficiência caminhando?

Saber onde uma mala está continua sendo essencial. Mas o próximo ganho vai ser identificar quando uma mala está em risco e agir antes que ela perca a conexão.

Ao comparar as operações atuais com padrões do passado, a IA consegue sinalizar uma mala que pode estar em risco e ajudar as equipes a escolher a melhor resposta. Um rastreamento confiável é a base de tudo.

O Brasil está prestes a lançar sua Política Nacional de Identificação Biométrica, com o Ministério de Portos e Aeroportos e a ANAC à frente do processo. Não há gargalos consideráveis a serem corrigidos, mas sim um desejo de potencializar a experiência dos passageiros. Esse movimento se equipara ao cenário global?

Sem dúvida. Os países estão usando biometria de formas diferentes. Alguns nas fronteiras para ajudar viajantes elegíveis a passar pela imigração mais rápido. Outros usam credenciais digitais de viagem para que a verificação de identidade comece antes do passageiro chegar ao aeroporto.

 A ideia comum é simples: confirmar quem é o viajante uma única vez e deixar que essa identidade confiável sustente o restante da jornada. E o Brasil tem a oportunidade de construir essa experiência desde o início.

Por aqui, teremos um período de transição e ainda será decidido se a biometria será obrigatória ou opcional. Lá fora, quais foram ou são os maiores desafios para a implementação da biometria facial em aeroportos?

A parte mais difícil raramente é reconhecer um rosto. É conquistar confiança. Os passageiros precisam de respostas claras. As organizações envolvidas também precisam ter responsabilidades bem definidas. 

E a experiência precisa se manter consistente conforme o viajante passa de um para outro. E o mais importante: a biometria precisa tornar a jornada realmente mais fácil.

Como governo e agências podem equilibrar a busca por segurança e otimização à necessidade de conservação da privacidade dos usuários?

A privacidade não pode ser uma verificação de última hora. Ela precisa moldar a jornada desde o início. Os passageiros precisam entender que informação está sendo usada e por quê. 

Eles também precisam ter confiança de que o acesso é controlado. Privacidade, segurança e praticidade não precisam competir entre si. Uma identidade digital confiável pode dificultar o uso de uma identidade falsa e, ao mesmo tempo, permitir que viajantes se movimentem com menos interrupções.

O que será necessário para garantir um período transitório descomplicado e uma implementação completa?

Todo mundo precisa concordar com as regras e a jornada precisa funcionar como um todo único. Primeiro, passageiros e organizações envolvidas precisam ter clareza sobre as responsabilidades e sobre como a informação será usada. 

Segundo, a verificação de identidade precisa funcionar de forma integrada. Terceiro, a implementação precisa acontecer em conjunto. A tecnologia está pronta. O sucesso vai depender de fazê-la funcionar ao longo de toda a jornada.

 

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