O segredo para marcas não se tornarem invisíveis na era da IA (AYDINOZON/Getty Images)
Colunista Bússola
Publicado em 14 de abril de 2026 às 10h00.
Lembro perfeitamente de quando comecei. Não existia Inteligência Artificial para escrever legenda, não tinha algoritmo mastigando tendência e, muito menos, essa facilidade de terceirizar a própria voz.
O que existia era suor, intuição e uma vontade absurda de fazer dar certo. Eu era uma empreendedora raiz, daquelas que construía a marca no corpo a corpo, entendendo a dor e o desejo de cada cliente que sentava na minha cadeira.
Hoje, olhando para o mercado, vejo um cenário que me preocupa e, ao mesmo tempo, me instiga: estamos vivendo a “harmonização facial” do marketing.
Há alguns anos, acompanhamos um movimento estético que tomou conta das clínicas e das redes sociais. De repente, todo mundo começou a ficar com o mesmo rosto.
Era o queixo quadrado, a mandíbula marcadíssima, a boca grande. Um padrão de beleza copiado e colado que apagava a individualidade em nome de uma suposta perfeição.
A ironia é que, ao tentar se destacar, as pessoas acabaram ficando invisíveis na multidão dos rostos idênticos.
Agora, a história se repete, mas no mundo dos negócios. Com a popularização da Inteligência Artificial, o marketing está sofrendo do mesmo mal.
Textos padronizados, estratégias genéricas, discursos que parecem ter saído da mesma fôrma. As pessoas estão fazendo tudo meio parecido, terceirizando o pensamento crítico e deixando de treinar habilidades verdadeiras.
Em vez de usar a IA para potencializar a própria essência, estão usando a ferramenta para se esconder atrás de uma máscara de eficiência artificial.
Philip Kotler, o mestre que nos ensinou quase tudo sobre o assunto, acaba de lançar o Marketing 7.0 e o recado dele é claro: a era da IA exige um marketing centrado na mente, no comportamento e na cognição humana.
Kotler alerta que a obsessão por desempenho e a padronização impulsionada por algoritmos estão destruindo a autenticidade, ou seja, a tecnologia evoluiu absurdamente, mas o diferencial competitivo voltou a ser o que nos torna humanos.
O desafio que temos pela frente é gigantesco. Se a IA consegue produzir conteúdo infinito, responder clientes e analisar dados em segundos, o que sobra para nós?
Sobra a verdade, sobra a capacidade de construir comunidades reais, de promover eventos e ativações presenciais que gerem pertencimento.
O digital aproxima, mas é o olho no olho que fideliza, é o abraço, a experiência palpável, a energia que nenhuma máquina consegue replicar.
Daqui para frente, quem continuar apostando na “harmonização” do marketing, entregando mais do mesmo, vai desaparecer. A IA vai exigir de nós uma genuinidade quase radical.
Precisamos voltar a ser empreendedores raízes, mesmo com toda a tecnologia à disposição.
Use a Inteligência Artificial para otimizar processos, mas nunca para substituir a sua alma. Afinal, no mercado ou na vida, a verdadeira beleza sempre esteve naquilo que nos faz únicos.