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Como uma experiência de diversidade e inclusão deu origem a essa startup

Gerar valor compartilhado e criar oportunidades reais para os colaboradores transforma planos em ações e insere propósitos no DNA da companhia
 (Angelina Bambina/Getty Images)
(Angelina Bambina/Getty Images)
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Marcelo LoureiroPublicado em 09/06/2022 às 12:14.

Por Marcelo Loureiro

Quando fundamos a Dolado tínhamos, desde o dia 1, um objetivo muito claro: gerar impacto positivo para sociedade. E nos comprometemos a fazer isso, não só por meio do nosso próprio modelo de negócio, mas também focando em impactar, de forma eficaz e real, todas as pessoas que viessem a se relacionar de alguma forma com a empresa.

A diversidade foi um dos pilares que nos ajudaram desde o início a formar a base de sustentação de um propósito verdadeiro, que nos fortalece muito internamente e que nos gera diferenciais fundamentais na cultura do mercado de startups. Pelo menos em tese, em tempos em que a sigla ESG se tornou uma espécie de mantra universal do dia para a noite, todos nós sabemos o quanto a diversidade tem impacto positivo sobre os negócios.

Porém, um estudo apresentado no ano passado pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups), revelou que embora a grande maioria das startups respondentes (96,8%) afirmasse apoiar a diversidade, apenas 39,3% delas apresentaram iniciativas e ações efetivas sobre o tema.

Para não correr o risco de engrossar as tristes estatísticas das empresas que dizem apoiar uma causa, mas não a colocam de fato em prática, decidimos iniciar nossa startup formando desde a largada um time multifacetado, constituído por pessoas com diferentes origens, experiências, orientações, pontos de vista e realidades.

Pessoalmente, tive o privilégio de viver uma experiência profunda e efetiva de atuação junto ao chamado terceiro setor. No período de 2003 a 2008, trabalhei junto ao Instituto Rukha no desenvolvimento de um importante trabalho. Nossa missão era tirar cem famílias da situação de rua e de extrema pobreza, que incluía crianças atuando como pedintes em semáforos da capital paulista. Quase todas elas vinham da zona sul da cidade de São Paulo, mais especificamente de bairros marcados pela carência material, como Capão Redondo, Jardim Ângela e Parque Santo Antônio.

Essa vivência intensa de cinco anos me ensinou muito e, entre outras coisas extremamente gratificantes e inspiradoras, me proporcionou estabelecer e cultivar relacionamentos legítimos com algumas das principais lideranças locais de uma das regiões mais complexas do Brasil. Mas, por se tratar de um projeto 100% filantrópico, mesmo tendo conseguido melhoras efetivas nas vidas dos envolvidos, a iniciativa não se mostrou sustentável a longo prazo.

Em 2018, quando eu e meu parceiro e cofounder, Guilherme Freire, estávamos desenvolvendo nossa startup anterior, enxergamos a oportunidade perfeita para criar um modelo de geração de valor compartilhado, que, ao mesmo tempo nos ajudasse a atingir os objetivos do novo negócio, também gerasse oportunidades efetivas de mobilidade social para indivíduos em situação de pobreza extrema — agora sim, de forma sustentável. Focamos diretamente no público das periferias com o objetivo de gerar emprego para os jovens conhecidos como “nem-nem” (aqueles que nem trabalham nem estudam).

Muitos desses jovens se encaixavam no perfil que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica como "desalentados'' – aqueles que já desistiram de procurar trabalho em função da própria vulnerabilidade social.

Também trouxemos líderes comunitários para dentro da empresa para fazer a interface entre as diversas áreas internas. Dessa forma, garantimos, além da diversidade pura e simples, a integração dessas pessoas entre si e entre todas as áreas da empresa. Um desses líderes foi o escritor, empreendedor, rapper e criador da marca “1daSul”, Ferréz. A função que desenhamos sob medida para ele foi batizada de “Mentor Urbano”. Cabia a ele nos ajudar a encontrar os talentos periféricos que procurávamos e, principalmente, nos ajudar a criar e desenvolver as maneiras mais efetivas de garantir uma interface realmente amigável entre todos os públicos internos da empresa.

Foi uma experiência riquíssima e altamente impactante para nós e para todos que trabalharam conosco. Muitos desses jovens líderes que formamos naquele momento estão hoje desempenhando papéis importantes em outras empresas e continuam adotando as mesmas práticas de privilegiar a diversidade e de promover a inclusão real que desenvolvemos e testamos juntos.

O que aprendemos com essas experiências é que um time realmente diverso, com um propósito claro e legítimo, propaga motivação por toda a organização. Pessoas motivadas de verdade produzem uma espiral de engajamento com as crenças da marca, que desintoxica as relações de trabalho, aumentam a performance e, na tão cultuada última linha, se transforma em resultados tangíveis e altamente compensadores para a empresa.

Encerrado o ciclo da empresa anterior, nasceu a Dolado, totalmente vocacionada desde o berço a ajudar o pequeno e microempreendedor, na sua maioria periféricos.

Não por acaso, trouxemos o mesmo time que desenvolveu a área de comunidade da empresa anterior para fortalecer a nossa nova empreitada.

Tenho que ser sincero: tudo aconteceu de maneira tão natural que nem planejamos ou sequer pensamos em ser diversos. Simplesmente já nascemos assim, já faz parte do nosso DNA. Agora é cuidar para que isso não se perca conforme a companhia cresce. Já estamos com cem colaboradores, mas sempre muito perto do nosso time de pessoas para garantir que a empresa seja verdadeiramente diversa, acolhedora e, claro, uma plataforma de impulsionamento para todos Dolado de dentro e de fora!

*Marcelo Loureiro, é estrategista da Comunidade e cofundador da Dolado, plataforma que empodera pequenos lojistas na compra, venda e gestão de seus negócios

 

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