A integração entre diferentes gerações impulsiona a inovação tecnológica nas empresas (gnepphoto/Shutterstock)
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Publicado em 4 de junho de 2026 às 15h00.
Por Mauro Wainstock*
Modelos generativos entregam respostas a partir da forma como são acionados, com uma literalidade proporcional à qualidade das perguntas formuladas. Quem escreve comandos padronizados em busca de respostas rápidas corre o risco de receber a mesmice em velocidade impressionante.
Ter profundidade no questionamento para alcançar soluções inovadoras exige repertório e vivências práticas. Isso não se baixa por aplicativo.
Colaboradores com mais de 50 anos possuem julgamento de contexto, conhecem atalhos para as melhores decisões e guardam na memória os erros já cometidos pelas organizações.
Quem vivenciou um projeto de transformação naufragar por resistência interna, leitura adequada das regras ou afronta à cultura corporativa reconhece os mesmos riscos quando eles aparecem sob a roupagem de mais uma novidade tecnológica.
Uma pesquisa realizada pela Cisco apontou o Brasil como o segundo maior usuário de IA generativa no mundo. O estudo indica que 51,6% dos entrevistados usam a tecnologia ativamente na rotina, atrás apenas da Índia.
A pesquisa "TIC Domicílios 2025", realizada pelo CGI.br, Comitê Gestor da Internet no Brasil, reforça esse quadro ao constatar que 32% dos internautas no país já utilizaram ferramentas desse tipo, o equivalente a cerca de 50 milhões de pessoas.
O uso chega a 69% na classe A e cai para 16% nas classes D e E. Entre os que possuem Ensino Superior, o índice é de 59%, enquanto na parcela com Ensino Fundamental o número fica em 17%.
Existem dois “Brasis” na adoção da tecnologia: um vibrante e acelerado e outro que ainda não iniciou essa jornada.
Dentro dessas estatísticas há um recorte de idade que as empresas brasileiras muitas vezes tratam como problema, quando deveriam enxergar como oportunidade.
Cada faixa etária utiliza os recursos com critérios distintos e tropeça em obstáculos diferentes. A Geração Z tende a explorar a velocidade, os Millennials buscam automação e a Geração X questiona a confiabilidade.
Essas visões complementares sobre a mesma ferramenta permitem mapear utilidades e riscos com profundidade muito superior à de uma equipe uniforme em termos geracionais.
O modelo mais produtivo para absorver os benefícios desta complementariedade é a mentoria bilateral. O jovem traz a fluência operacional e o ritmo de experimentação.
O sênior entra com o histórico, a leitura de cenários e o critério para decidir o que é minimamente viável. Juntos, geram resultados muito mais assertivos.
Conversei com Augusto Archer, Chief Operating Officer da Strategy Consulting, que destaca as vantagens dessa integração:
O especialista afirma que a convivência intergeracional é uma das mais valiosas vantagens estruturais de que as companhias dispõem para ampliar os resultados com a IA, mas ainda são raras as que aproveitam esse potencial.
Alguns movimentos louváveis já existem no mercado. O Assaí mantém o Programa 50+, com mais de 8 mil colaboradores nessa faixa etária.
A Magalu lançou o "Desenvolve 40+", com bolsas integrais para formação de programadores em parceria com a Let's Code.
A Sodexo opera o "Programa de Inclusão Geracional", que ampliou em 67% a representatividade do grupo sênior, com 39% desses contratados alocados em engenharia e tecnologia.
O consultor ressalta que essas iniciativas são relevantes, mas ainda tratam o tema como pauta isolada de diversidade e não como uma alavanca de negócios associada à evolução tecnológica. O salto virá quando as duas frentes se cruzarem.
Entre suas recomendações práticas, destacam-se:
Para Archer, ainda falta um ator importante nessa conversa, o Estado. O Brasil se orgulha da digitalização de centenas de serviços públicos por meio de plataformas governamentais.
A pergunta incômoda é se essas ferramentas também foram desenhadas para contemplar o cidadão idoso ou se estão sendo implementadas sob o falso pressuposto de que o nativismo digital é universal.
Na prática, essa barreira força o público sênior a delegar o acesso a terceiros e reforça a dependência, em vez de promover inclusão e autonomia. Com isso, contribui também para a sensação de inadequação e baixa autoestima.
As organizações ainda não perceberam a importância de colocar a diversidade etária e a transformação digital na mesma conversa.
O avanço tecnológico real não se consolida com o abandono da bagagem histórica, mas com a fusão entre o novo e o experiente.
Enquanto o mercado insistir em isolar os jovens na inovação e os colaboradores seniores na governança tradicional, perderá a oportunidade de criar soluções mais robustas, inclusivas e sustentáveis.
Bora fazer acontecer!
*Mauro Wainstock é jurado do Prêmio Ser Humano, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos, LinkedIn Top Voice, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing e coautor de 15 livros. Foi idealizador e realizador do “Hacka4All”, o primeiro Hackaton sobre diversidade e inclusão do Brasil.