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Infraestrutura digital: Complexos de servidores de alta performance, como os da Meta, consomem volumes sem precedentes de eletricidade e acirram disputa regulatória (Freepik)
Redação Exame
Publicado em 4 de junho de 2026 às 16h01.
O apetite voraz das empresas de tecnologia por inteligência artificial está prestes a provocar uma mudança estrutural drástica na infraestrutura dos Estados Unidos.
Diante da incapacidade de acompanhar o ritmo de expansão dos novos complexos digitais, a PJM Interconnection — maior operadora de transmissão elétrica do país — entrou na mira de reguladores federais e pode ser desmembrada em partes menores.
A PJM gerencia o fornecimento de energia para 67 milhões de pessoas ao longo de 13 estados americanos. Essa vasta área geográfica abriga o "Data Center Alley", uma região estratégica no norte da Virgínia que concentra a maior densidade de servidores do planeta.
O problema é que, após duas décadas de estabilidade no consumo, a demanda disparou, provocando um efeito cascata nos custos operacionais. No primeiro trimestre deste ano, os preços da energia no mercado atacadista da PJM subiram 76%, enquanto os custos de segurança para evitar apagões em horários de pico saltaram quase 400%.
A lentidão da organização privada para aprovar novas usinas e conectar geradores gerou um clima de urgência em Washington. A Comissão Federal Reguladora de Energia (FERC) agendou uma reunião emergencial para 23 de julho com o objetivo de reestruturar a governança da PJM.
A presidente da agência, Laura Swett, declarou de forma contundente que o impasse operacional coloca em risco o pioneirismo dos Estados Unidos no desenvolvimento da inteligência artificial global.
"A PJM está na linha de frente, é o laboratório da segurança nacional e econômica sobre o qual nosso país pode prosperar ou fracassar. Agora enfrentamos uma demanda historicamente sem precedentes e a possibilidade de uma falha catastrófica também historicamente sem precedentes", advertiu Swett durante a reunião anual da entidade, em Baltimore.
A desconfiança é tão alta que um funcionário da Casa Branca confirmou, sob sigilo, que a divisão do operador já é vista como necessária. Além disso, grandes concessionárias filiadas, como a American Electric Power (AEP), ameaçam abandonar a associação para transferir suas linhas de transmissão para redes vizinhas, o que aceleraria o colapso interno da organização.
Com a proximidade das eleições legislativas nos Estados Unidos, a alta nas contas de luz inflamou o debate partidário. Líderes de diferentes espectros políticos acusam o conselho da PJM de omissão.
Por outro lado, o porta-voz da PJM, Jeffrey Shields, rebateu as acusações, argumentando que a associação emite alertas sobre o aperto na oferta de eletricidade há anos e permanece engajada em colaborar com os estados para equilibrar tarifas justas e estabilidade no serviço.
O modelo corporativo da PJM agrava a paralisia. Funcionando como uma associação de comitês, a empresa reúne mais de 500 membros votantes com interesses comerciais opostos. Enquanto companhias alinhadas à transição verde exigem pesados investimentos em fontes renováveis, investidores tradicionais lutam pela manutenção de plantas movidas a carvão.
O novo diretor-presidente da operadora, David Mills, assumiu a liderança em meio a esse fogo cruzado. Mills admitiu que a instituição sofre com uma "lacuna de credibilidade", pois segurar o preço das tarifas residenciais afasta o interesse de investidores privados em construir novas usinas de geração de energia.
Como reflexo da crise, a direção da PJM apresentou um documento com alternativas para o futuro próximo. Entre as medidas mais extremas em debate, estão a elaboração de contratos de fornecimento de longuíssimo prazo e até mesmo a possibilidade de racionamento de energia para determinados setores de consumo. A urgência por uma definição é máxima: especialistas alertam que a formatação da rede elétrica norte-americana para os próximos anos será definida pelas decisões regulatórias tomadas ao longo dos próximos dois meses.