Bússola
Um conteúdo Bússola

A IA generativa pode facilitar a aquisição de crédito de PMEs

A combinação de inteligência artificial e duplicatas escriturais promete liberar trilhões em crédito represado para pequenas e médias empresas

Inteligência artificial aplicada à análise de dados e gestão de finanças (Phonlamai Photo/Shutterstock)

Inteligência artificial aplicada à análise de dados e gestão de finanças (Phonlamai Photo/Shutterstock)

Bússola
Bússola

Plataforma de conteúdo

Publicado em 15 de julho de 2026 às 10h00.

Priorizar nos meus resultados Google

Por Fernando Wosniak Steler*

Há um paradoxo no crédito para pequenas e médias empresas brasileiras. O sistema financeiro tem recursos para emprestar, mas ainda encontra dificuldade para distinguir, com precisão, quais empresas representam risco e quais apenas não conseguem demonstrar seu potencial.

O resultado é conhecido: cerca de R$ 2,5 trilhões em demanda por crédito permanecem sem atendimento.

O Banco Central chama esse fenômeno de assimetria de informação. Eu prefiro defini-lo como um problema de leitura. E a principal lição que a inteligência artificial generativa trouxe para o mercado de crédito é justamente essa: talvez estivéssemos tentando ler os sinais errados.

Quando uma empresa vende a prazo, ela emite uma duplicata mercantil. Com a chegada da duplicata escritural, prevista pela Lei 13.775/2018, esses títulos passam a ser registrados eletronicamente, ampliando a disponibilidade e a qualidade das informações sobre as operações comerciais.

Cada registro reúne valor, prazo, comprador, vendedor e, principalmente, seu desfecho: pagamento em dia, atraso ou inadimplência.

As duplicatas tem sua própria linguagem

O ponto mais interessante é que uma duplicata isolada diz pouco. Mas, observadas em sequência, elas revelam padrões de comportamento. Assim como palavras formam frases, transações constroem uma linguagem financeira, marcada por recorrência, sazonalidade e hábitos de pagamento.

Foi essa analogia que mudou a forma como passamos a enxergar a análise de crédito.

Os modelos de linguagem que popularizaram a IA generativa funcionam prevendo qual será a próxima palavra de uma sequência. Se uma sucessão de duplicatas também pode ser entendida como uma sequência estruturada, por que não aplicar a mesma lógica para antecipar o comportamento da próxima operação?

Essa abordagem permite substituir parte da lógica tradicional, baseada em pontuações estáticas e informações agregadas, por inferências construídas a partir do histórico transacional da própria empresa.

Em vez de perguntar quem aquela empresa é segundo bases externas, passa-se a observar como ela realmente se comporta ao longo do tempo. Entram os modelos hyper personalizados.

Treino é treino, jogo é jogo

A hipótese foi testada em um modelo fundacional de inteligência artificial treinado exatamente como o ChatGPT e Claude são treinados, e ao longo desse processo, três aprendizados chamaram a minha atenção e dos nossos cientistas de dados.

O primeiro é que, em crédito, errar para o lado da cautela pode ser uma virtude. O modelo apresentou uma tendência natural de superestimar atrasos. Em problemas estatísticos isso poderia ser interpretado como um viés.

Em operações financeiras, porém, o custo de aprovar um inadimplente costuma ser muito maior do que o de recusar uma operação saudável. A métrica de engenharia nem sempre coincide com a métrica do negócio.

Vale ressaltar: no crédito, o ganho limita-se à margem do spread; contudo, em caso de inadimplência, o prejuízo é total, abrangendo 100% do valor principal somado aos custos da operação.

O segundo é que modelos maiores nem sempre entregam resultados melhores. Ao ampliar significativamente o número de parâmetros, os ganhos esperados praticamente desapareceram.

Em aplicações especializadas, a inteligência de ponta depende menos do tamanho do modelo e mais da qualidade dos dados utilizados em seu treinamento.

O terceiro é que mesmo empresas sem histórico suficiente já apresentam sinais úteis para análise. Embora esses casos ainda exijam cautela e outras camadas de avaliação, os resultados mostram que dados transacionais básicos conseguem oferecer uma capacidade preditiva relevante.

À medida que novas operações acontecem, o próprio histórico fortalece a precisão das previsões.

A Inteligência Artificial transforma o mercado

Existe uma transformação mais ampla acontecendo. As fintechs mais inovadoras deixaram de tratar inteligência artificial como um recurso adicional e passaram a reconstruir sua arquitetura em torno dela.

A aquisição da Hyperplane pelo Nubank é um dos sinais desse movimento. Crédito deixa de ser apenas um produto financeiro e passa a ser, antes de tudo, um problema de inteligência.

Naturalmente, esses resultados ainda precisam ser acompanhados ao longo de diferentes ciclos econômicos e comparados continuamente com outras metodologias. Transparência sobre essas limitações é parte indispensável da construção de confiança em qualquer sistema de decisão baseado em IA.

Durante décadas, o mercado tratou a falta de informação como um problema inevitável. Talvez nunca tenha sido. As duplicatas sempre carregaram sinais sobre o comportamento financeiro das empresas; o que faltava era tecnologia capaz de interpretá-los, em tempo real.

Se a duplicata escritural inaugura uma nova infraestrutura para o crédito no Brasil, a inteligência artificial pode oferecer a camada de interpretação que faltava.

A combinação dessas duas transformações tem potencial para reduzir a assimetria de informação, ampliar a previsibilidade das operações e ajudar a destravar parte dos mais de R$ 2 trilhões em crédito que hoje continuam fora do alcance das pequenas e médias empresas.

*Fernando Wosniak Steler é co-Fundador e CEO da Delend, plataforma de infraestrutura de inteligência de crédito e cobrança impulsionada por Modelos e Agentes de IA. 

Acompanhe tudo sobre:Inteligência artificial

Mais de Bússola

‘Filmei 64 vezes’, diz creator que bateu 600 mil views no 1º post 

Mercado de games abre novas oportunidades para jovens das favelas

Além do lucro: como foco no valor da operação pode beneficiar o ambiente de trabalho

Bom caráter ou competência? O que avaliar antes de contratar um profissional