Super El Niño: mudanças climáticas extremas comprometem cesta básica do brasileiro (milla1974/Thinkstock)
Colaboradora
Publicado em 8 de agosto de 2026 às 21h05.
O Brasil se prepara para conviver com um dos episódios mais fortes de El Niño já registrados.
Segundo boletins conjuntos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o fenômeno deve ganhar intensidade ao longo do segundo semestre de 2026 e atingir a categoria de muito forte entre a primavera e o início do verão.
Durante esse período, o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial deve superar 2°C. Por causa dessa força incomum, o episódio vem sendo chamado por parte dos meteorologistas de Super El Niño.
O fenômeno não age da mesma forma em todo o país. No Sul, a tendência histórica é de chuvas acima da média, com risco maior de temporais e cheias de rios.
Já no Norte e no Nordeste, o padrão costuma ser o oposto: períodos mais longos de estiagem e queda na disponibilidade de água para lavouras e pastagens.
Em boa parte do centro-norte do Brasil, as temperaturas também devem ficar acima da média, o que aumenta o risco de ondas de calor.
Essa combinação de chuva em excesso em uma região e seca em outra é o que preocupa o setor agrícola.
Lavouras sensíveis ao clima, como arroz, feijão, hortaliças, frutas, milho e a produção de leite, tendem a sofrer mais com as oscilações bruscas de temperatura e umidade.
O impacto sobre o bolso do consumidor, porém, não deve aparecer imediatamente, mas em 2027. A estimativa é que no próximo ano o impacto sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegue a 0,9 ponto percentual.
Para efeito de comparação, o Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com o mercado financeiro, projetava em 3 de agosto de 2026 uma inflação de 4,22% para o IPCA geral em 2027.
Ou seja, a pressão vinda dos alimentos, sozinha, pode responder por uma fatia relevante do índice de preços do próximo ano.
Arroz e feijão ocupam um lugar especial na alimentação do brasileiro. Além de formarem a base do prato típico do país, os dois produtos têm peso considerável no cálculo do IPCA de alimentos, o que faz qualquer oscilação nos preços desses itens repercutir com força no índice geral.
O problema é que as duas culturas já chegam fragilizadas a este novo ciclo climático.
Segundo levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de arroz 2025/26 recuou cerca de 13% na comparação com o ciclo anterior, resultado da redução da área plantada e de condições climáticas menos favoráveis em parte das lavouras. A produção de feijão também caiu, em torno de 5%, no mesmo período.
O Rio Grande do Sul concentra a maior parte desse problema.
O estado responde por cerca de 70% da produção nacional de arroz e ainda sente os efeitos das enchentes que atingiram lavouras e cidades em 2024.
Qualquer novo excesso de chuva provocado pelo Super El Niño encontra uma região que ainda está se recuperando, o que reduz a margem de segurança para eventuais perdas na próxima safra.
Com menos oferta e uma base de produção já reduzida, arroz e feijão ficam mais expostos a qualquer choque adicional de clima.
Como são itens de consumo praticamente obrigatório em todas as classes de renda, o repasse de preços tende a chegar rápido à mesa das famílias, especialmente às de renda mais baixa, para quem a alimentação pesa proporcionalmente mais no orçamento.
De modo geral, o calendário de impacto segue um padrão observado em episódios anteriores de El Niño. Historicamente, os maiores efeitos sobre os preços aparecem entre nove e dez meses depois do pico do fenômeno climático.
Isso significa que o primeiro grupo de alimentos a sentir pressão deve ser o dos hortifrutigranjeiros, já nos primeiros meses de 2027, principalmente nas regiões atingidas por chuvas mais intensas.
No segundo semestre de 2027, a pressão deve avançar para os grãos, incluindo arroz e feijão, e, em seguida, alcançar as proteínas animais, como a carne bovina, puxadas pelo encarecimento do milho usado na ração.