Plantação de arroz no Rio Grande do Sul: estado concentra 70% da produção nacional do grão, com 8,7 milhões de toneladas, segundo o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) (Fernando Dias/Seapa/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 8 de julho de 2026 às 06h00.
O El Niño ainda nem começou, mas já entrou na conta do mercado. O fenômeno climático, associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, deve se consolidar entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 e deixou de ser um risco distante para se tornar o cenário-base das projeções de bancos e investidores.
A avaliação é do Santander, que vê o fenômeno climático como um fator capaz de pressionar a inflação de alimentos, afetar a produção agrícola e provocar uma redistribuição de ganhos e perdas entre empresas listadas na Bolsa brasileira (B3).
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estima 63% de probabilidade de um evento muito forte nesse período, segundo análise divulgada em junho, e há projeções que apontam para um fenômeno “superforte”.
Em relatório divulgado pela equipe de estratégia para ações da América Latina, liderada por Aline de Souza Cardoso, ao lado de Andres Soto e Ulises Argote, o banco afirma que o El Niño deve ser encarado como uma oportunidade de seleção de ações, e não como um evento negativo para todo o mercado.
"O El Niño 2026/27 agora é um cenário climático-base, e não mais um risco distante. O impacto deve ser visto como uma oportunidade regional, setorial e de dispersão entre ações, e não como um sinal amplo para os índices", dizem os analistas.
Segundo o Santander, o Brasil deve registrar um impacto macroeconômico relativamente limitado, mas com efeitos relevantes sobre alguns setores, especialmente o agronegócio.
Entre as companhias brasileiras analisadas, a SLC Agrícola, conhecida pela atuação em soja, milho e algodão no Cerrado, aparece como uma das mais expostas aos riscos do fenômeno.
Segundo o banco, temperaturas mais elevadas e alterações no regime de chuvas podem prejudicar o plantio, o desenvolvimento das lavouras e a produtividade.
"A SLC Agrícola é a empresa mais exposta. A variabilidade das chuvas pode reduzir a produção agrícola e pressionar os resultados", diz o relatório.
A Minerva, que produz carne, também aparece entre as empresas com viés negativo. O Santander aponta que condições mais secas em regiões pecuárias podem atrasar a recomposição dos rebanhos e manter elevados os custos do gado por mais tempo.
No setor de logística, Rumo e Hidrovias do Brasil também figuram entre as companhias mais sensíveis ao clima.
Segundo o banco, a redução do nível dos rios no Norte pode comprometer a navegação, enquanto problemas climáticos nas regiões produtoras podem reduzir o volume transportado de grãos.
"Fluxos menores de grãos e redução da navegabilidade dos rios podem afetar operações logísticas e receitas", afirmam os analistas.
No Brasil, os impactos variam de acordo com a região. Enquanto o Sul tende a registrar chuvas acima da média, áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. Essa combinação afeta o calendário agrícola e deve afetar as empresas, avalia o banco.
O último evento forte, entre 2023 e 2024, provocou secas severas na Amazônia e enchentes históricas no Sul, com reflexos sobre a agricultura e o abastecimento.
Para o Santander, o principal efeito econômico do El Niño no Brasil não deve ocorrer sobre o crescimento do PIB, mas sobre os preços dos alimentos.
O relatório estima que, em um cenário de El Niño forte, a inflação cheia pode receber um impacto adicional de 0,35 ponto percentual, enquanto a inflação de alimentos pode subir 2,4 pontos percentuais.
Já em um cenário severo, os efeitos seriam ainda maiores: alta de 0,5 ponto percentual no IPCA e de 3 pontos percentuais na inflação dos alimentos.
"Para o Brasil, o principal impacto macroeconômico é um efeito moderado sobre a inflação de alimentos, com impacto limitado sobre o PIB", afirma o banco.
Os economistas observam que o Sul tende a registrar excesso de chuvas, enquanto Norte e Nordeste ficam mais sujeitos à seca. Essa distribuição desigual dos efeitos torna a agricultura brasileira especialmente sensível ao fenômeno.