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A queda de braço entre Apple e Micron sobre quem paga a crise dos chips

Fabricante de chips e dona do iPhone divergem sobre as causas da alta da memória, que já encareceu Macs, iPads e outros eletrônicos

 (Imagem gerada por IA/Exame)

(Imagem gerada por IA/Exame)

Publicado em 12 de julho de 2026 às 06h59.

A escassez global de chips de memória colocou frente a frente duas gigantes que sempre dependeram uma da outra — e a conta virou uma disputa pública. De um lado, a Micron, uma das principais fabricantes de memória do mundo. Do outro, a Apple, dona do iPhone e uma das maiores compradoras de chips do planeta.

Cada uma culpa a outra pela disparada de preços que já encareceu os produtos que chegam ao consumidor.

O pano de fundo é uma alta de preços que a própria Apple classificou como excepcional. Ao anunciar reajustes de US$ 100 a US$ 500 em Macs e iPads, o presidente-executivo da Apple, Tim Cook, atribuiu o aumento a uma "enchente que só acontece a cada 100 anos" nos preços de memória, apontando o custo repassado pelos fornecedores como a raiz do problema.

A acusação da Micron

A fabricante de chips devolveu a responsabilidade ao cliente. Em declarações ao Wall Street Journal, o diretor de negócios da Micron, Sumit Sadana, sugeriu — sem citar a Apple diretamente — que a negociação agressiva de alguns grandes compradores ajudou a criar as condições para a crise atual.

Segundo Sadana, a Micron não conseguiu financiar a expansão de sua capacidade durante a retração do setor, um período em que suas margens ficaram negativas em parte porque alguns clientes pressionaram sem trégua por preços mais baixos.

"Muitos investimentos do setor foram interrompidos em 2023 por causa de preços e margens muito ruins", afirmou o executivo. A escassez de agora, na leitura da empresa, seria a fatura atrasada daquele aperto.

A defesa da Apple

A Apple sustenta que é vítima, não causadora. Para Cook, a companhia apenas repassa um custo que explodiu na cadeia de fornecimento, e não teria como absorver sozinha uma alta dessa magnitude sem comprometer suas margens.

A empresa usou por anos seu poder de compra para garantir grandes volumes e travar preços antes dos rivais — um modelo tratado como força, não como falha.

O momento da fabricante ajuda a explicar a troca de farpas.

A Micron reportou receita de US$ 41,4 bilhões no terceiro trimestre de seu ano fiscal de 2026, alta de 345% em um ano, com a margem bruta saltando para 84,6%.

Com a demanda por memória disparando por causa da inteligência artificial (IA), a companhia passou a defender contratos de longo prazo que garantam preços mais estáveis e transfiram ao comprador parte do risco que antes recaía sobre o fabricante.

A margem que virou o dobro do preço

No centro da briga está a distribuição da margem ao longo da cadeia. Em sua versão, a Micron aponta que a Apple historicamente comprava um chip por US$ 5 e o embutia em produtos vendidos por valores muito maiores.

Com o reajuste da memória para cerca de US$ 50, a fabricante argumenta que o repasse ao consumidor final foi proporcionalmente ainda maior.

Analistas, porém, pedem cautela com a narrativa da Micron.

Segundo o analista Tim Culpan, a Apple seria, no máximo, a quarta ou quinta maior compradora de memória do mundo — o que enfraquece a tese de que a pressão da empresa, sozinha, teria moldado o mercado.

Para esses especialistas, a escassez tem causas estruturais: a demanda por IA cresceu mais rápido do que qualquer previsão, e construir novas fábricas de memória é lento, caro e tecnicamente complexo.

O cliente que ameaça trocar de fornecedor

A disputa tem também um desdobramento geopolítico.

Pressionada pelos custos, a Apple teria pedido autorização ao governo dos Estados Unidos para usar chips de memória da chinesa CXMT, fabricante que pratica preços mais baixos e está sob restrições americanas. O movimento, ainda dependente de aval regulatório, atingiria justamente o segmento mais exposto da Micron ao consumidor.

Há ainda um flanco jurídico que ronda as duas. Micron, Samsung e SK Hynix foram alvo de uma ação que alega coordenação para cortar a produção e elevar os preços de memória — acusação que a Micron negou e afirmou que vai contestar.

A Apple não é acusada de irregularidade no processo, mas a disputa expõe o quanto o preço de um componente invisível pode moldar o valor final de um iPhone.

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