Kylie Jenner: tuite da empresária apagou bilhões em valor de mercado do Snapchat (Snapchat/Fundo gerado por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 10h11.
Em 2016, além do Pokémon Go, o Snapchat era outra febre da internet. Entre filtros de cachorro e mensagens que sumiam em dez segundos, o aplicativo tinha construído algo que nenhum concorrente conseguia copiar: a atenção dos jovens adultos.
Dez anos depois, o Snapchat tem 493 milhões de usuários ativos diários no mundo, alta de 5% em um ano. O número parece saudável — mas esconde um problema que começou há quase uma década.
Isso porque o crescimento vem de fora dos mercados que pagam. Nos Estados Unidos, a base caiu 7% em um ano, para 92 milhões, segundo o balanço divulgado na segunda-feira, 3. Na Europa, o recuo foi de cerca de 2%.
E é lá que o dinheiro está. A receita média por usuário na América do Norte é de US$ 10,26, mais de três vezes a média mundial, de US$ 3,25.
Entre a febre de 2016 e o encolhimento atual, houve dois episódios que o mercado tratou como causa — e que foram, na verdade, apenas o sintoma mais visível.
Há oito anos, Kylie Jenner publicou uma pergunta no X (antigo Twitter): "mais alguém parou de abrir o Snapchat, ou sou só eu?".
Horas depois, a ação da Snap caiu até 7%, apagando cerca de US$ 1,3 bilhão em valor de mercado e levando a companhia a uma avaliação de cerca de US$ 22 bilhões.
A empresária tinha 20 anos e era, ao menos até 2016, a pessoa mais vista da plataforma. Em seguida, publicou uma segunda mensagem, quase carinhosa, chamando o aplicativo de seu primeiro amor.
"Influências de celebridades como Kylie são um ingrediente-chave na receita de sucesso da companhia", disse Daniel Ives, então analista da GBH Insights, à revista Fortune.
O detalhe que quase toda cobertura ignorou é que doze dias antes, Jenner já havia criticado a reformulação do aplicativo. E, na terça-feira daquela semana, o Citi havia rebaixado a recomendação do papel justamente pela reação dos usuários ao novo desenho.
Um mês depois veio o segundo golpe, e este a Snap causou sozinha.
A plataforma veiculou um anúncio do jogo "o que você prefere?" que perguntava aos usuários se eles prefeririam dar um tapa em Rihanna ou um soco em Chris Brown — referência à agressão que a cantora sofreu do rapper em 2009.
Rihanna respondeu nos stories do Instagram. Escreveu que não se tratava de sentimento pessoal, e sim de todas as mulheres, crianças e homens que foram vítimas de violência doméstica. E sugeriu aos seguidores que deletassem o aplicativo.
A ação caiu novamente. A modelo Chrissy Teigen anunciou a saída da plataforma dias depois, citando a atualização, a dificuldade dos fãs em encontrá-la e o anúncio sobre Rihanna. Chelsea Clinton também condenou a peça publicamente.
A empresa pediu desculpas.
Os dois episódios renderam manchetes, mas nenhum deles explica o que aconteceu com o Snapchat. O caminho para a queda começou cinco anos antes, em uma reunião.
Em novembro de 2013, com o aplicativo em pleno crescimento entre adolescentes, Mark Zuckerberg ofereceu US$ 3 bilhões pela empresa. Evan Spiegel tinha 23 anos e recusou. Ele e o cofundador Bobby Murphy acreditavam que vender naquele momento limitaria o que poderiam construir.
O Facebook tentou de novo em 2016. Segundo o Wall Street Journal, Zuckerberg e Sheryl Sandberg fizeram sondagens informais, sem chegar a especificar valor. Foram dispensados outra vez.
Impedido de comprar o concorrente, o Facebook decidiu construí-lo — e o fez dentro do Instagram, adquirido em 2012 por US$ 1 bilhão.
Em agosto de 2016, o Instagram lançou o Stories, formato quase idêntico ao do rival, com melhorias que o original não tinha ao permitir subir fotos salvas na galeria e incluir links.
Na época, o Snapchat tinha ultrapassado 150 milhões de usuários diários.
A cópia se multiplicou dentro da própria casa. Facebook, Messenger e WhatsApp ganharam versões da função. Em janeiro de 2019, o Instagram Stories somava 500 milhões de usuários por dia — mais do que o Snapchat inteiro. O status do WhatsApp registrava 450 milhões, e Facebook e Messenger, 300 milhões combinados.
Um formato inventado por uma empresa passou a ser usado por bilhões de pessoas em produtos de outra.
Quando Kylie Jenner publicou o tuíte, em 2018, essa disputa já estava decidida havia dois anos. A Snap ainda tentou reagir com uma reformulação do aplicativo — que os próprios usuários rejeitaram, e que o Citi citou ao rebaixar a recomendação do papel dias antes da publicação.
Oito anos depois, o padrão se mantém. A empresa ganha usuários onde o anunciante paga pouco e perde onde paga muito.
A ação da Snap estreou na bolsa em março de 2017 a US$ 17 e chegou a US$ 4,85 no fim de 2018. Nesta semana, opera perto de US$ 5 — abaixo do preço de estreia quase uma década depois.
A resposta que a companhia encontrou não passa por reconquistar o adolescente americano, mas por cobrar assinatura de quem ficou. A receita com Snapchat+ e serviços correlatos cresceu 85% no último trimestre, nove vezes mais rápido que a publicidade.
Na teleconferência de resultados, Spiegel disse acompanhar de perto o ambiente regulatório, incluindo exigências de verificação de idade e segurança online, que podem afetar produtos e engajamento ao longo do tempo.
A Snap projeta lucro líquido sustentado a partir de 2027. Seria o primeiro ano no azul desde a fundação, em 2011.