Armazenagem de grãos durante a colheita: falta de espaço desafia agricultores e cooperativas a cada safra no Matopiba (Germano Lüders/Exame)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
Na Cooperativa Agroindustrial de Tocantins (Coapa), uma das maiores produtoras de milho e soja do estado, a safra 2026/27, que começa em julho, enfrenta um desafio conhecido: não há espaço para armazenar toda a produção.
Das 280.000 toneladas que devem ser produzidas, grande parte precisa ser escoada rapidamente, deixando apenas uma fração segura nos armazéns. Na prática, o agricultor fica à mercê dos preços atuais, sem capacidade de negociação para o grão ou para o frete.
O caso da Coapa não é isolado. Reflete um problema que se espalha por todo o Brasil — em especial na região do Matopiba, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde a falta de infraestrutura de armazenagem desafia agricultores e cooperativas a cada safra, agora estimada em 42 milhões de toneladas.
Segundo estudo da Cogo Inteligência em Agronegócio, o déficit de armazenagem na região deve atingir 60% nesta safra, mais que o dobro da média nacional, de 28%.

“É um drama. A cada 100 toneladas de grãos, conseguimos armazenar apenas 40%, enquanto os 60% restantes precisam ser vendidos a toque de caixa, para que a logística consiga escoar a produção”, diz Ricardo Khouri, presidente da Coapa. Parte do gargalo é explicada pelo avanço acelerado da produção regional.
Entre 2013 e 2023, a produção de grãos do Matopiba cresceu 92%, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A projeção é que o volume alcance 48 milhões de toneladas até 2033.
“O déficit de armazenagem mostra que a infraestrutura pós-colheita precisa avançar no mesmo ritmo da produção agrícola”, afirma Jean Felizardo, diretor comercial da Kepler Weber. Nos últimos dois anos, a empresa participou de 48 obras de armazenagem na região para ampliar a capacidade local.
Sem espaço suficiente, muitos produtores recorrem aos silos-bolsa, grandes tubos de polietileno utilizados principalmente para armazenar milho. A alternativa ajuda no curto prazo, mas traz riscos.
“Chuva, rasgos no material e a presença de animais podem permitir a entrada de umidade e comprometer os volumes. Na soja, mais perecível, o armazenamento em silo-bolsa é ainda mais limitado”, diz Thadeu Teixeira Júnior, engenheiro agrícola da Secretaria de Agricultura e Pecuária do Tocantins (Seagro).
Esse tipo de improviso, tão brasileiro, custa caro e será ainda mais danoso em uma safra que terá a combinação de superprodução, preços baixos, insumos e fretes caros, além de margem apertadíssima.