Ciência

Como um surto fez laboratório receber mais de 1.500 amostras de fezes por dia

Equipe precisou fazer horas extras para analisar milhares de amostras em busca da Cyclospora, parasita ligado a um surto que já infectou mais de 18 mil pessoas

Ciclosporíase: aumento dos casos fez laboratórios ampliarem a capacidade de análise de amostras (CDC/Reprodução)

Ciclosporíase: aumento dos casos fez laboratórios ampliarem a capacidade de análise de amostras (CDC/Reprodução)

Publicado em 5 de agosto de 2026 às 20h54.

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Um dos maiores laboratórios de diagnósticos dos Estados Unidos enfrentou uma rotina incomum por causa do surto de ciclosporíase. A Quest Diagnostics, que normalmente realiza entre 30 e 40 exames diários para detectar o parasita, passou a processar mais de 1.500 testes por dia, sobrecarregando equipes e aumentando o tempo de espera pelos resultados.

A situação foi retratada em uma reportagem publicada pelo The Wall Street Journal, que acompanhou a rotina do laboratório da empresa em Clifton, Nova Jersey. Com o aumento expressivo da demanda, técnicos e cientistas passaram a fazer horas extras e o setor de parasitologia passou a funcionar sete dias por semana.

Surto fez exames aumentarem quase 40 vezes

Segundo a Quest Diagnostics, antes do surto eram realizados entre 30 e 40 testes diários para detectar a Cyclospora cayetanensis, parasita responsável pela ciclosporíase. Atualmente, o volume ultrapassa 1.500 exames por dia.

O aumento ocorre enquanto o surto continua se espalhando pelos Estados Unidos. Segundo a reportagem, acredita-se que mais de 18 mil pessoas tenham sido infectadas e que duas mortes estejam associadas ao episódio.

Com isso, centenas de amostras de fezes se acumulam nos laboratórios aguardando análise. Em alguns casos, os materiais permanecem mais de uma semana na fila antes de serem examinados.

Exame depende de análise manual no microscópio

Um dos principais desafios é que o teste utilizado para identificar o parasita não pode ser facilmente automatizado.

Cada amostra precisa ser processada individualmente. Parte do material é colocada em uma centrífuga para concentrar possíveis parasitas e, depois, uma pequena quantidade é espalhada sobre uma lâmina de vidro para análise em microscópio.

Segundo os profissionais, cada lâmina pode levar entre 10 e 15 minutos para ser examinada com cuidado, reduzindo o risco de um resultado falso negativo.

Os especialistas explicam que localizar o parasita é uma tarefa difícil porque ele pode aparecer em quantidade muito pequena na amostra.

Equipes trabalham em jornadas prolongadas

Com a explosão da demanda, técnicos passaram a dedicar praticamente toda a rotina à análise de amostras de fezes. A técnica Anna Genis, por exemplo, contou que antes do surto também trabalhava com exames de sangue, urina e identificação de carrapatos. Agora, sua rotina é dedicada exclusivamente às análises relacionadas à ciclosporíase.

Já Sandra Molano, cientista da Quest Diagnostics, afirmou que o trabalho ganhou ainda mais importância diante da expectativa dos pacientes pelos resultados, que orientam o diagnóstico e o tratamento da infecção.

Sinais indicam desaceleração do surto

Apesar da pressão sobre os laboratórios, os primeiros indícios sugerem que o pico da onda de infecções pode estar passando.

Dados da empresa bioMérieux, fabricante de outro teste para ciclosporíase, mostram que a taxa de positividade atingiu 14,2% entre 12 e 18 de julho e caiu para cerca de 10% na última semana do mês.

Ainda assim, especialistas afirmam que dificuldades na cadeia de suprimentos, limitações de laboratórios públicos e atrasos no sequenciamento genético continuam dificultando o monitoramento completo do surto nos Estados Unidos.

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