Ato de campanha de Abelardo de la Espriella, na Colômbia: equipe do candidato aposta em “entretenimento” para cativar eleitores e molda futuras campanhas na América Latina (Manuel Pedraza/AFP/Getty Images)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
Última atualização em 25 de junho de 2026 às 12h06.
Bogotá. Um tigre vestido de policial dirige uma viatura que persegue criminosos pelas ruas de uma cidade.
O vídeo, feito com animação 3D de alta qualidade, é colorido e ágil, como um videogame ou um filme. A batalha se resolve em menos de 1 minuto, e termina com os bandidos presos. Em seguida, o tigre bate continência ao som de uma marcha militar e um lema: “Firme por la patria”.
Estamos na Colômbia, e esse é um dos vídeos de propaganda de Abelardo de la Espriella, candidato à Presidência que mostrou como as novas tecnologias e a IA estão mudando o jeito de fazer campanhas políticas na América Latina e no mundo.
“Não se trata mais apenas de apostar na emoção, mas de oferecer entretenimento”, disse um dos estrategistas de Espriella à EXAME, de forma reservada. Uma parte importante da tática de campanha é vincular o candidato à figura de um tigre, animal que representa no país a imagem de coragem.
Apoiadores de Keiko Fujimori, no Peru: no país, 66% dos eleitores apontam a segurança, tema da campanha de Fujimori, como um dos principais problemas nacionais (Nino de Guzman/AFP/Getty Images)
Para gerar mais entretenimento, a inteligência artificial é parte fundamental do processo. A campanha de Espriella conseguiu produzir cinco vezes mais vídeos do que a outra candidata de direita, Paloma Valencia, pois boa parte do conteúdo é gerada do zero com IA, ou editada mais rápido e de forma mais barata do que na campanha passada, quatro anos atrás.
A facilidade para gerar volume permite fazer materiais cada vez mais segmentados. Assim, enquanto jovens urbanos recebem vídeos com estética gamer, senhores nas áreas rurais são impactados com clipes de uma banda de violeiros tocando uma melodia tradicional que enaltece o poder do candidato de combater o crime.
O objetivo é que a mesma mensagem seja passada de várias formas, em uma tática que também ajuda a driblar os algoritmos das redes sociais. “Postar o mesmo vídeo em várias plataformas ou com o mesmo estilo muitas vezes não funciona.
O algoritmo esconde. A variedade ajuda na distribuição”, afirma o estrategista. A IA também é usada para analisar o desempenho da campanha em tempo real. Se um vídeo ou tema funciona bem, seu estilo é replicado mais vezes. Caso não engaje, o modelo é abandonado.
Equipes de análise trabalham em turnos, ao longo de 24 horas, com apoio de ferramentas de IA, para tirar conclusões rápidas sobre os dados e reorientar rapidamente os rumos. Assim, se surgir alguma polêmica durante a noite que agite as redes sociais, por exemplo, já haverá uma estratégia para lidar com ela na manhã seguinte.
Operação de apreensão de drogas na Bolívia: combate ao crime se tornou tema central nas campanhas políticas da América Latina (Anthony Nino de Guzman/AFP/Getty Images)
A campanha de Espriella traz elementos novos a um modelo que marca a política global desde 2016, chamada por alguns de nova direita.
O movimento começou com a aprovação do Brexit no Reino Unido e a eleição de Donald Trump, cujas campanhas apostaram em muitos dados, redes sociais e promessas de melhorar a vida do cidadão comum que queria ter mais dinheiro e se sentia ameaçado pelas mudanças sociais, como o avanço dos direitos para minorias.
Para resolver problemas que pareciam insolúveis, a proposta costuma ser estridente: trazer alguém de fora da política capaz de refazer o sistema atual. Ao mesmo tempo, repete-se a tática antiga de achar um culpado externo a ser combatido, como os imigrantes, a União Europeia ou o comunismo.
Na América Latina, o principal inimigo tem um nome: o crime. O combate aos bandidos tem se tornado tema central das campanhas políticas na América, por ser uma das questões que mais preocupam. No Peru, 66% das pessoas consideram a segurança pública como um dos principais problemas a resolver, segundo pesquisa do instituto Ipsos.
O percentual alto se repete no Chile (56%), no Brasil (48%) e na Colômbia (42%). Em todos esses países, candidatos de direita estão com propostas fortes na área, como a de construir megaprisões, endurecer leis e aumentar a cooperação com os EUA .
“A insegurança tem sido sentida de forma forte, especialmente nas cidades. Houve reativação de alguns grupos armados em zonas rurais, especialmente grupos associados a economias ilegais e dissidências das Farc”, diz Patricia Muñoz Yi, diretora da pós-graduação em ciência política na Pontifícia Universidade Javeriana.
Do outro lado, candidatos de esquerda enfrentam dificuldades na área. Eles geralmente defendem uma abordagem mais focada em investigações e inteligência, como tentar conter a lavagem de dinheiro do crime — medidas que levam tempo para dar resultados. Na Colômbia, a alta na violência aumentou a rejeição sobre o governo de Gustavo Petro, de esquerda, que não deu respostas para a crise, em um fenômeno que se repete em outros países da região: a alta rejeição dos governos no cargo.
E, em um momento de revolta contra o governo, o candidato que parece com mais chances de vencer tem vantagem. No caso colombiano, Espriella cresceu ao conseguir atrair os eleitores insatisfeitos com Petro ao usar um discurso mais duro, porém firme, enquanto Paloma Valencia, de centro, naufragou ao não se posicionar claramente.
“Ela nunca definiu se era direita ou centro, se era herdeira ou renovação. Tentou ser direita dura e centro amável ao mesmo tempo. Ser firme sem assustar ”, diz Rubén Erazo, analista e presidente da Associação Colombiana de Consultores Políticos (Acopol).
O senador Flávio Bolsonaro (PR-RJ) e o presidente dos EUA, Donald Trump: americano recebeu o pré-candidato do PL na Casa Branca, em maio, em movimento considerado apoio ao filho do ex-presidente brasileiro (Eduardo Bolsonaro/X/Reprodução)
Outro fator de peso nas campanhas na América Latina neste ano tem vindo de fora. Os Estados Unidos anunciaram uma nova doutrina, que prevê uma maior interferência de Washington para defender seus interesses.
Isso se refletiu na operação militar que prendeu o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro, e em apoios ostensivos a candidatos na região.
Trump endossou publicamente Espriella na Colômbia, assim como Daniel Noboa no Equador. Em 2025, na Argentina, o governo americano liberou um empréstimo de 20 bilhões de dólares ao governo de Javier Milei, que o ajudou a ganhar a eleição legislativa de outubro.
O republicano também recebeu na Casa Branca o senador Flávio Bolsonaro, que disputa a Presidência do Brasil. O líder americano não declarou apoio a Flávio, mas disse que o considera um “jovem inteligente”.
Dias após a visita, Trump declarou as facções criminais Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como terroristas, uma demanda de Flávio rejeitada pelo governo brasileiro, sob comando do presidente Lula.
Essa é mais uma questão das campanhas na América Latina: candidatos estão buscando medidas no exterior como se já estivessem no governo.
Na véspera do primeiro turno, Espriella anunciou um acordo com o Equador para zerar tarifas de importação entre os dois países, em um acordo com Noboa, também de direita, e surpreendeu o governo colombiano, ainda sob comando de Gustavo Petro. Analistas afirmam que os efeitos do apoio nas campanhas de Trump costumam ser variados, de acordo com a situação de cada lugar.
“É possível que esse apoio tenha algum valor, mesmo em um país onde ele seja impopular, caso os eleitores temam punições dos EUA. Mas é mais provável que seus apoios tenham pouco efeito na persuasão de eleitores independentes e possam até ser contraproducentes”, diz Benjamin Gedan, diretor de América Latina no think tank Stimson Center.
Para Mauricio Moura, professor na Universidade George Washington, esse efeito no Brasil tende a ser menor.
“No Brasil, Trump é visto como uma figura bastante impopular e, pelo que temos de dados de opinião pública, a -associação com Trump não traz muitos votos”, diz. A eleição que definirá o próximo presidente do Brasil, em outubro, será mais um espaço para ver todas essas novas estratégias em ação.

As próximas eleições nacionais pelo mundo em julho, confira as datas: