Revista Exame

A estratégia antifrágil da Petrobras: como a estatal cresce em meio ao caos

A Petrobras já foi conhecida por criar suas próprias crises. Agora, mostra que consegue se beneficiar de turbulências externas e segue rumo ao mercado trilionário

Magda Chambriard, presidente da Petrobras: “Quem apostar contra a companhia vai perder dinheiro” (Leandro Fonseca/Exame)

Magda Chambriard, presidente da Petrobras: “Quem apostar contra a companhia vai perder dinheiro” (Leandro Fonseca/Exame)

Publicado em 23 de abril de 2026 às 06h00.

O estatístico americano Nassim Nicholas Taleb entrou para a galeria de autores de best-sellers globais com a obra Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos. Lançado em 2012, o livro divide os fenômenos da natureza e a lógica humana (e também dos negócios) em três categorias. A primeira são os sistemas frágeis, suscetíveis a quebrar com a desordem — pense num copo de cristal lançado ao chão. O segundo sistema, o robusto, é formado pelas coisas capazes de resistir à desordem, mas sem aprender com ela — uma pedra numa tempestade, por exemplo. Para fechar a tríade de Taleb estão os mecanismos antifrágeis, capazes de usar o estresse e a volatilidade para melhorar o seu funcionamento — vide os músculos de alguém após um treino intenso. Relançado recentemente no Brasil, o livro virou um manual de sobrevivência de CEOs às voltas com a necessidade de preparar suas empresas para um mundo tomado pela incerteza.

A petroleira Petrobras é uma das empresas que dão sinais de estar no terceiro grupo descrito por Taleb, o dos capazes de crescer no caos. O contexto, como se sabe, é pra lá de complexo. O fechamento do Estreito de Ormuz bagunçou o mercado global de petróleo. E pegou a Petrobras num momento de poder se beneficiar da incerteza. A empresa já vinha numa boa fase antes da guerra. Em 2025, teve um lucro líquido de 110 bilhões de reais, quase o triplo do registrado no ano anterior (36 bilhões de reais), mesmo com queda de 14% no preço do petróleo Brent ao longo daquele ano. Agora, com a guerra, as fortalezas ficaram ainda mais evidentes. Com áreas de exploração espalhadas pela América Latina e África, e clientes idem, a companhia opera longe do conflito. Em novembro de 2025, quatro meses antes da guerra, já planejava aumentar a produção em quase 15% a partir de 2026, para 3,4 milhões de barris. 

Num cenário de aumento na cotação global do Brent, a empresa continua na lista de recomendação de boa parte das carteiras dos bancos. O valor de mercado subiu 18,9% desde o início da guerra, o maior avanço entre as dez maiores petroleiras do mundo no período. Atualmente em 660 bilhões de reais, é também o maior em 70 anos da empresa, hoje a mais valiosa da América Latina. Para ampliar o desafio, a guerra acontece num ano eleitoral no Brasil, o que poderia impulsionar a pressão por influência política. Mas, há dois anos na cadeira de presidente da Petrobras, a engenheira Magda Chambriard mantém a calmaria de quem não pretende mudar seus planos. “Em crises, a Petrobras precisa de pes-soas que saibam trabalhar sob pressão”, diz. Chambriard recebeu a EXAME em sua sala de reuniões no Edifício Senado, uma torre envidraçada de 21 andares no centro do Rio de Janeiro, onde despacha diariamente. Foi sua primeira grande entrevista após o início do conflito.

Estreito de Ormuz: via por onde são escoados 20% do petróleo trouxe volatilidade à cotação do Brent (Marwan Naamani/AFP/Getty Images)

O recomeço

Magda Chambriard assumiu o lugar de Jean Paul Prates, um político filiado ao Partido dos Trabalhadores demitido após embates públicos com ministros do governo Lula sobre a estratégia da companhia. (Na ocasião, o governo defendia, por exemplo, uma redução mais agressiva no preço dos combustíveis.) O mandato de Chambriard é um dos mais longevos na história recente de uma companhia acostumada com a influência do governo federal, seu acionista controlador. Sua estabilidade marca uma mudança para melhor no ambiente de uma empresa que viveu dias de glória com a descoberta do pré-sal e depois foi dragada por uma enxurrada de escândalos. Há 20 anos, quando a Petrobras confirmou as reservas de 40 bilhões de barris do pré-sal, o que multiplicou por quatro o estoque brasileiro, a companhia era a queridinha de investidores do mundo inteiro. Em 2008, valia perto de 300 bilhões de dólares, e virou a sexta maior empresa do mundo, acima de concorrentes como a anglo-holandesa Shell e até mesmo de gigantes da tecnologia como a Microsoft. A partir daí, o caldo entornou com o escândalo de corrupção e a prisão de executivos.

Em paralelo, a dificuldade da companhia de colocar de pé novas refinarias, como a de Abreu e Lima (também envolvida em negociatas, em Pernambuco), e a queda no preço do petróleo na metade da década passada tiraram o brilho da companhia. Há dez anos, a Petrobras valia pouco mais de 30 bilhões de dólares e lutava para permanecer entre as 500 empresas mais valiosas do mundo. O ajuste conduzido a partir da gestão de Michel Temer, com a saída de mercados como o de gás natural, e a entrada em vigor de legislação contra corrupção em estatais foram mudando a percepção dos investidores sobre a companhia de lá para cá. “Desde a Lava-Jato, a Petrobras implementou várias melhorias do lado de governança corporativa que aumentam a vigilância”, diz Carolina Chimenti, analista sênior da agência de risco Moody’s, responsável pela cobertura da estatal. “Tudo isso foi modificado para melhorar o nível de governança e evitar conflitos de interesse.”

Estreito de Ormuz: via por onde são escoados 20% do petróleo trouxe volatilidade à cotação do Brent (Arte/Exame)

Chambriard, portanto, pegou a Petrobras num momento mais favorável. Ainda assim, sua gestão é tida como essencial para o momento da companhia. Em linha com presidentes anteriores, sua gestão concentrou esforços ainda mais no pré-sal, de onde vêm 90% das receitas. Em razão disso, a companhia saiu de operações pouco rentáveis, como campos terrestres de pequeno porte ou em águas rasas. Localizados no Nordeste, eles foram devolvidos à ANP, a autoridade reguladora do setor, ou revendidos a operadoras independentes, como a 3R Petroleum, em setembro do ano passado. Além disso, está conseguindo extrair mais valor do pré-sal. Vide o exemplo do retorno ao negócio de gás natural, para aproveitar uma sinergia. Historicamente, a Petrobras precisava injetar de novo o gás extraído com o petróleo no fundo do mar por falta de dutos para levar o produto à costa. Na gestão de Chambriard, a estatal aumentou os investimentos em gasodutos para tirar o gás extraído na Bacia de Santos, uma das principais do pré-sal. Uma das maiores apostas da companhia até 2028 são duas plataformas de extração do projeto Sergipe-Alagoas, que deverão já ter a tecnologia. O objetivo: usar o gás como motor para a produção local de fertilizantes agrícolas, um gargalo na balança comercial brasileira — mais da metade dos insumos consumidos vem de fora do Brasil. Com a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois dos principais produtores mundiais, a matéria-prima ficou mais cara (e complicada de comprar). A Petrobras passou a fabricar fertilizantes numa refinaria em Araucária, no Paraná, em 2024, e planeja o mesmo em unidades em Sergipe e na Bahia. Além disso, vai retomar obras em Três Lagoas (MS). Hoje, a estatal já tem uma fatia de 20% do mercado brasileiro.

A mesma lógica de aumentar a eficiência está sendo adotada para o diesel. Atualmente, o Brasil importa 30% do combustível vital para rodar cargas pelo país. Num ano eleitoral, qualquer faísca no preço do diesel pode incendiar os caminhoneiros e paralisar o país como em maio de 2018. Além disso, a importação do insumo expõe o caixa da companhia à oscilação global, uma bomba num contexto de guerra no Oriente Médio. Em razão disso, a Petrobras tem investido no aumento de eficiência das refinarias existentes. Por um lado, acelerou o uso de tecnologias, como sensores e agentes de IA, para reduzir o tempo parado em manutenções. Por outro, investiu em obras para processar outras fontes, como óleo vegetal, e assim depender menos do insumo importado. Hoje em dia, as refinarias da Petrobras operam a 94% de sua capacidade máxima, acima do patamar histórico ao redor de 80%. A meta é processar pelo menos 85% do diesel consumido no Brasil no curto prazo e, no longo, chegar à autossuficiência. “Quem entrega 85% entrega 100%”, diz Chambriard. “Estamos estudando para ver como conseguiremos nos tornar autossuficientes em diesel nos próximos cinco anos.”

Posto da BR Distribuidora: estatal quer voltar à venda ao consumidor final a partir de 2029 (Buda Mendes/Getty Images)

Rumo ao trilhão?

Chambriard olha para o futuro com otimismo. À frente da companhia estão os anos de ouro da exploração do pré-sal, cujo pico deve ser atingido em 2030. Só no projeto Sergipe-Alagoas, para explorar as reservas do pré-sal no Nordeste, a companhia deve investir 11,5 bilhões de dólares até o fim da década em duas novas plataformas. A despeito de críticas de ambientalistas sobre o foco na extração de petróleo num mundo pressionado pelo aquecimento global, Chambriard é enfática sobre a necessidade de tirar até a última gota. “Não existe futuro para uma empresa de petróleo sem exploração”, afirma ela, ao reforçar a importância de usar a riqueza atual para financiar iniciativas de transição energética. Isso inclui, na visão dela, a polêmica Margem Equatorial. A bacia no litoral do Amapá e na Foz do Rio Amazonas tem reservas estimadas de até 30 bilhões de barris. A exploração recebeu o aval do Ibama em outubro, após anos de embates. O plano da Petrobras prevê investimento de 2,5 bilhões de dólares na perfuração de 15 poços. Em janeiro deste ano, um vazamento de lama oriunda da exploração causou comoção entre especialistas e uma multa do IBAMA. Agora, diz Chambriard, a situação está sob controle. “Essas coisas acontecem numa operação, só que na Margem Equatorial tudo vira carnaval”, diz ela. “Mas o vazamento já foi resolvido e continuamos a perfurar. O nosso alvo é perfurar a 6.400 metros de profundidade. Devemos atingir isso em junho.”

Fora do Brasil, a empresa ampliou presença em regiões com geologia semelhante à do pré-sal. “A margem atlântica africana está no nosso interesse. O que estamos acostumados a fazer aqui é fácil fazer lá”, afirma a presidente, que mira países como Namíbia, África do Sul e Costa do Marfim. No México, o foco está no lado mexicano do Golfo. “O lado americano não me interessa, porque já está muito explorado”, diz. A Venezuela, a despeito da abertura de mercado às petroleiras estrangeiras desde o fim do regime de Nicolás Maduro, em janeiro, por ora está fora dos planos. “A reserva pode estar lá, mas para mim ela só vale se for economicamente viável.” Para além da exploração em si, Chambriard sonha com a volta da companhia à venda direta de combustível em 2029, após o fim da cláusula de não competição com a Vibra, empresa resultante da privatização da BR Distribuidora em 2019. Para ela, o argumento de que a privatização traria eficiência e colaboraria para reduzir o preço do combustível nas bombas não se materializou. “O que aconteceu foi exatamente o oposto do que se prometeu”, diz.

O “sonho grande” de Chambriard é elevar de novo a Petrobras ao patamar das concorrentes. “Se o governo for vitorioso [nas eleições deste ano], eu pretendo estar aqui e continuar um trabalho que ainda vai levar uns dois, três anos para ser concluído”, diz ela. “Aí vocês podem apostar que o valor da ação da Petrobras vai se equiparar ao da Shell e da ExxonMobil.” A distância é grande. Atualmente, a Petrobras vale 120 bilhões de dólares, bem atrás de Shell (200 bilhões de dólares) e ExxonMobil (683 bilhões). Caso os planos saiam como o planejado, a Petrobras seria a primeira empresa brasileira a romper a barreira simbólica do 1 trilhão de reais em valor de mercado na bolsa. “A Petrobras só chegará lá se encontrar muito petróleo na Margem Equatorial”, diz Rafael Chaves, professor da FGV e diretor de relações institucionais e sustentabilidade da Petrobras entre 2021 e 2023. “Teria de ser uma reserva do tamanho ou maior do que o pré-sal.” Os analistas mais otimistas colocam o patamar de 1 trilhão de reais como possível até o fim da década, sob algumas condições de mercado. “Considerando um barril médio a 80 dólares, uma cotação da moeda americana entre 5 e 5,20 reais, estabilidade política, menor percepção de ingerência e boas decisões de investimento, é possível chegar ao primeiro trilhão”, diz Samuel Barros, financista do Ibmec.

Para além de mais reservas, paira sobre a avaliação da Petrobras o risco perene de uma decisão política passar por cima da estratégia divulgada ao mercado. “O que realmente é um grande limitador para o rating da Petrobras é a exposição ao Brasil e à interferência”, diz Chimenti, da Moody’s. Um leilão de gás de cozinha, no fim de março, chamou a atenção do mercado. A disputa elevou rapidamente os preços: os lances começaram com um ágio de cerca de 30% sobre o valor da refinaria e chegaram a até 117% em alguns lotes, mais que o dobro do preço original. O resultado desagradou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia editado uma medida provisória justamente para conter a alta do gás. Na esteira do desgaste, a Petrobras demitiu o diretor Claudio Romeo Schlosser, um dos arquitetos da modelagem, e cancelou o leilão. “Nesse meio do caminho, a companhia tomou uma decisão mais rápida do que deveria, sem considerar plenamente uma regulação recém-editada. A gente fez uma adaptação de perfil e, ao analisar o impacto real do subsídio do governo, vimos que não havia necessidade do leilão”, diz Chambriard. Quando questionada sobre uma possível interferência do governo nesse leilão, a presidente negou qualquer relação.

Unidade industrial da Petrobras em Sergipe: aposta em fertilizantes para reduzir dependência externa do Brasil (Petrobras/Divulgação)

Prestes a completar dois anos, sua gestão tem o mérito de evitar que esse tipo de episódio vire um debate nacional. O contexto de estabilidade tem pesado a favor da companhia. “A companhia não tem uma concorrência muito pesada no mercado interno e está fazendo o papel dela”, diz o engenheiro David Zylbersztajn, primeiro diretor da ANP, na virada dos anos 2000. Talvez o maior desafio da petroleira seja equilibrar a necessidade de aumentar a extração e, ao mesmo tempo, financiar a transição energética. Até 2050, a companhia quer ter 8% da receita vinda de fontes renováveis, sobretudo biomassa. Para chegar lá, a Petrobras vai precisar de uma capacidade de geração equivalente a duas vezes a da Axia, antiga Eletrobras, a maior produtora de energia do país. Nesse sentido, à EXAME, Chambriard antecipou a reabertura de uma planta industrial em Quixadá, no Ceará, para aumentar a produção de biodiesel. No campo operacional, surgem novos gargalos. A expansão de data centers e inteligência artificial pressiona cadeias industriais e encarece equipamentos. “As turbinas que antes eram entregues por um determinado preço estão saindo hoje por preços e prazos muito diferentes”, diz Chambriard. “O que nós estamos fazendo é trabalhar todos os dias para aumentar a receita da Petrobras e o retorno aos investidores”, afirma. “Eu adoro dizer e repito: quem apostar contra a Petrobras vai perder dinheiro.”

Desde que ela assumiu o comando, as ações da petroleira valorizaram 46%. Mas o Ibovespa avançou 58%. Para deixar seus investidores realmente felizes, a Petrobras vai precisar não só ser melhor do que já foi, mas mostrar que está preparada para um mundo em transformação.

Layane Serrano, do Rio de Janeiro

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