Revista Exame

Uma entre onze

Cármen Lúcia, do STF,  fala com exclusividade sobre a coação dos direitos femininos

A mineira Cármen Lúcia Antunes Rocha é a única mulher entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal: “é melhor prestar atenção na gente, porque nós estamos atentas ao mundo e à humanidade”  (Gustavo Moreno/STF/Divulgação)

A mineira Cármen Lúcia Antunes Rocha é a única mulher entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal: “é melhor prestar atenção na gente, porque nós estamos atentas ao mundo e à humanidade” (Gustavo Moreno/STF/Divulgação)

Publicado em 27 de maio de 2026 às 06h00.

No Brasil, uma mulher é assassinada por razões de gênero a cada seis horas. No primeiro trimestre de 2026, o país bateu o recorde histórico de feminicídios para o período: 399 vítimas entre janeiro e março, alta de 7,5% na comparação com igual intervalo do ano anterior — o maior número desde que a Lei do Feminicídio, que tipifica esse crime, entrou em vigor, em 2015. Numa lista que ninguém quer liderar, ocupamos o quinto lugar entre os países onde mais se mata por ser quem se é.

Nesse cenário, as 11 cadeiras do Supremo Tribunal Federal (STF), instância que interpreta a Constituição, arbitra conflitos entre Poderes e, com crescente regularidade, define os contornos legais do combate à violência doméstica, são ocupadas por dez homens e uma única ministra. Ela é Cármen Lúcia Antunes Rocha, terceira na história a integrar a Corte, que chegou ao Supremo em 2006 vindo da Procuradoria do Estado de Minas Gerais e da cátedra universitária.

Nos anos seguintes, foi acumulando primeiras vezes. Presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2012, depois comandou o próprio STF entre 2016 e 2018. No último 7 de maio, encerrou também seu segundo mandato à frente do TSE. E, em sua despedida, lembrou as contas em voz alta: ainda que uma sucessora fosse indicada hoje ao Supremo, precisaria de quase duas décadas para chegar à presidência da Corte Eleitoral. E em 2029, quando se aposentar compulsoriamente, será sua cadeira no STF que voltará ao mesmo impasse.

Dias antes da saída do TSE, no fim da tarde de 29 de abril, enquanto o Senado sabatinava Jorge Messias, então advogado-geral da União, para a vaga atualmente aberta no Supremo, a ministra recebeu a EXAME em seu gabinete. É ali que passa a maior parte do expediente, numa rotina que se divide entre o Distrito Federal e Minas Gerais, seu estado natal, onde mantém residência, recebe a família e só proíbe as crianças de acessarem a biblioteca. “Pois Brasília é onde moro, mas Belo Horizonte é meu lar”, afirmou Cármen Lúcia, que é natural de Montes Claros, município do interior de Minas.

“A ministra Cármen é alguém que vive coerente com o que prega”, disse à EXAME um colega de magistratura que certa vez esteve em um jantar oferecido por ela aos conterrâneos mineiros em Brasília. Além da simpatia à mesa, chamou a atenção a simplicidade e sobriedade da casa. Assim é também seu gabinete. Quem entra no espaço é recebido por um vaso de espadas de São Jorge e outro de orquídeas brancas. Alguns poucos livros e pequenas esculturas estão dispostos numa mesa de centro. Não há quadros, prêmios ou ornamentos mais ostensivos. A não ser pelas bandeiras do Brasil e de Minas Gerais, cuja presença ela pediu ao fotógrafo que não se esquecesse de registrar. No dia a dia, quando não está em sessão, costuma pegar o telefone para pressionar juízes para acelerarem processos há muito parados — como o de uma mãe que por uma década esperou a condenação do assassino da filha. A cobrança não poupa ninguém, nem a si mesma: “Gostaria de fazer mais”, disse várias vezes ao longo da entrevista, em que deixa claro não apenas o senso de responsabilidade que a fez falar cada vez mais sobre a escalada da violência contra mulheres, mas também a influência de sua criação na forma como atua hoje.

Nesta entrevista exclusiva, a magistrada preferiu não se aprofundar na crise de credibilidade por que passa o Supremo. Na conversa sem pressa, usou o tempo para refletir sobre como direitos femininos ainda são cerceados em todos os espaços, sobre o fenômeno das tradwives (esposas tradicionais) e a glamourização de uma vida que gerações anteriores de mulheres lutaram para deixar de ser compulsória. Também discorre sobre os preconceitos que encontrou numa carreira construída em ambientes majoritariamente masculinos e sobre o Tribunal que fala em igualdade, mas permanece sem ela.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal: “Cresce a cobrança pela presença delas nos espaços de poder” (Gustavo Moreno/STF/Divulgação)

A senhora tem falado mais sobre violência de gênero nos últimos anos. Quando sentiu o impulso de vocalizar mais?

Não é nenhuma novidade para mim. Sou de uma família que sempre teve esse olhar. Minha mãe era professora e nos criou, as quatro filhas, para não deixar de trabalhar e não ser dependentes. A vocalização cresceu porque aumentou muito a violência física e política nas últimas décadas. Eu vi muito, na primeira passagem que tive na presidência do Tribunal Eleitoral, como elas têm dificuldade como candidatas, como a campanha delas é fustigada, agredida. E a sociedade precisa saber que esses não são acontecimentos que se possa aceitar.

Que tipo de preconceito a senhora encontrou ao longo da sua carreira?

Todos. O primeiro foi o da idade, quando fiz o concurso para procuradora do estado [em 1983], e um dos examinadores me disse na prova oral: “Ouvi que você é muito boa. Se for muito melhor do que a gente espera, será aprovada. Mas, se for igual, preferimos um colega, porque tem viagens e audiências no interior”. Passei na primeira leva e logo me mandaram fazer uma audiência a mais de 800 quilômetros de distância. Depois vem o [preconceito] da carreira, da magistrada que recusa a promoção porque está no meio do semestre, porque tem filhos, porque o marido não pode mudar de cidade. Com o tempo, chega o etarismo, que pesa mais sobre nós do que sobre os homens. São fases diferentes, mas o mecanismo é o mesmo.

O Judiciário, que cobra mais mulheres na política, não as tinha na própria Casa. E elas ainda são, como a senhora, minoria. Existe a conversa sobre a necessidade de mais diversidade entre seus colegas no Supremo?

Não existe muito aqui. Alguns até manifestam genuinamente, como o presidente do Supremo, que sempre se pronunciou a respeito. Como a indicação é do Presidente da República, é uma conversa que não tem a força que poderia ter. Mas, na comunidade jurídica em geral, essa conversa já acontece mais. Embora a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] vá fazer 100 anos em 2030 e nunca tenha tido uma delas na presidência.

A senhora aprovou há cerca de um ano uma resolução no TSE exigindo presença feminina nas vagas da Advocacia, poucos anos depois de o Tribunal ter realizado uma eleição inteira sem nenhuma delas. O que encontrou?

Dizíamos que precisava haver mais delas na política, mas por que, na nossa Casa, não havia? Esta é a pergunta que a sociedade faz. Determinei então que pelo menos uma das duas vagas da Advocacia no TSE fosse ocupada por uma advogada. A resistência foi imediata. Na semana passada, por exemplo, nós devolvemos uma lista para um Tribunal Regional porque vieram apenas nomes de homens, com o argumento de que candidatas não aparecem. Daí perguntei: “Mas vocês publicam que está aberta a vaga?” Porque nós, mulheres, não temos tempo para ficar de conversinha com desembargador para ser apresentadas. Então agora nossa demanda é que a OAB divulgue entre as advogadas a possibilidade de elas se inscreverem. Não quero saber de juiz de Tribunal Regional Eleitoral que sai do bolso do colete de um desembargador-presidente do Tribunal de Justiça.

O Brasil tem hoje uma das legislações mais duras do mundo para crimes contra mulheres. Contudo, a senhora nos falou há pouco sobre uma mãe que a procurou pedindo ajuda para o caso da filha, morta há quase uma década, sem que o julgamento tivesse ocorrido. O que casos assim revelam?

Revelam que, quando a Justiça demora dez anos, ela já não faz mais justiça. Ela aplica o direito, mas aquela mãe se sentirá injustiçada pelo resto da vida. Enquanto isso, o assassino pode ter constituído outra família, a criança que soube da morte da mãe com 10 anos tem 20. Sem resposta. É como jogar uma pedrinha no lago e ver os círculos de desconfiança se expandindo. Por isso, criamos em 2015 a campanha Justiça pela Paz em Casa, com esforços maiores em três semanas do ano em que o Judiciário prioriza esses processos, com divulgação para que as pessoas compareçam. Porque não adianta aplicar o direito dez anos depois.

Podemos dizer que o Estado está falhando nesse sentido?

O papel do Estado é promover gestos que conduzam a uma mudança cultural pelo que chamo, não de igualdade, mas de igualação. Não é porque algumas de nós pudemos trabalhar que somos iguais às outras; nem todas têm as mesmas oportunidades. E quem está matando mulheres são os que deveriam ser companheiros, maridos, namorados. É para todos que o estado precisa agir, pela educação formal e informal, pelo fomento à cultura, estimulando as pessoas a aprender a ser e a se tratar como iguais na dignidade.

E as empresas? Qual é o papel do setor privado?

Já há, principalmente por parte do empresariado, um chamado. Temos lideranças como Luiza Trajano, que faz na empresa dela e reúne pessoas para falar sobre isso. Em todos esses encontros ela diz: “Uma funcionária minha pode sofrer violência também. E a gente não quer que ninguém que trabalha com a gente sofra. Nem quem não trabalha”. Aprendemos, e precisamos continuar estimulando, que a mulher precisa ter autonomia financeira e psicológica. Porque senão, às vezes, ela recebe o dinheiro e entrega para o marido. Isso que se estabeleceu como uma disputa entre nós e os homens me parece um equívoco. Nós queremos viver com eles em paz. O que não queremos é ser desvalorizadas, diminuídas, destratadas, ameaçadas, assediadas e violentadas por sermos quem somos.

Temos visto crescer o movimento das tradwives, mulheres que glamourizam abrir mão da carreira para se dedicar ao lar. Como a senhora avalia esse fenômeno?

Nós andamos muito para termos o direito de sair de casa e, na praça, também sermos participantes ativas. O que me preocupa é o que esse movimento pode oferecer como sonho, quando não é sonho nenhum. Não é ideal você renunciar à liberdade de desenvolver seu talento e, portanto, de se realizar como ser humano. A casa, os muros, por mais bonitos que sejam, são pouco para uma humanidade que tenha vocação. A escolha pessoal eu não questiono. O que questiono é o retrocesso nas conquistas que nos deram a possibilidade de fazer escolhas, que esse tipo de divulgação apresenta como se fosse o melhor dos mundos. Esse mundo foi experimentado. E elas não ficaram felizes com ele.

A crise de credibilidade do Supremo, as ameaças que a senhora recebeu recentemente e os apelos da família para que deixe o cargo pesam nas decisões e na forma como atua hoje?

As agressões nunca ficam só na pessoa. Quem é do seu convívio e afeto sente o que está acontecendo. E não é só comigo. Há famílias de juristas, no interior e aqui no Tribunal, que também são atingidas. Mas o que faço, sobretudo na causa das mulheres, não tem nada a ver com o Supremo nem com o Judiciário. Isso vem de antes, é algo da minha condição pessoal. Minha mãe tinha uma missão clara de ajudar mulheres, e acho que ela passou isso para as filhas. Tanto que, quando pedi ajuda dos presidentes dos 27 Tribunais de Justiça para criar a campanha Justiça pela Paz em Casa, eu não tinha nenhum cargo de direção aqui. E dizia o tempo todo: “Estou falando na condição de cidadã”.

A senhora acredita que, quando deixar o Supremo em 2029, haverá pelo menos uma mulher para sucedê-la?

Tenho a esperança de que seja, não uma, mas várias outras. O eleitorado brasileiro hoje é majoritariamente feminino, e cresce a cobrança pela presença delas nesses espaços de poder. Minha geração está criando outra etapa da vida. Estamos trabalhando, votamos e não vamos parar. Portanto, é melhor prestar atenção na gente, porque nós estamos atentas ao mundo e à humanidade.





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