Revista Exame

De volta aos trilhos

A linha de trem entre Nova Orleans e Mobile é o ponto de partida para descobrir a costa do Mississippi

Trem pela costa: águas do Golfo do México acompanham o percurso (Carolina Gehlen/Exame)

Trem pela costa: águas do Golfo do México acompanham o percurso (Carolina Gehlen/Exame)

Carolina Gehlen
Carolina Gehlen

Head of Design

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.

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Um grande relógio marca a partida do trem que voltou a circular após duas décadas. Instalado na parede atrás dos guichês, o relógio analógico de números em relevo domina o saguão do New Orleans Union Passenger Terminal, em Nova Orleans, na Louisiana. O edifício, exemplar do Modernismo pós-guerra, parece marcar um tempo mais lento, em sintonia com a experiência de esperar o trem que segue em direção a Mobile, no Alabama, região do sul dos Estados Unidos.

Inaugurado em 1954, o terminal foi construído para concentrar em um único endereço as operações de passageiros que antes estavam espalhadas por diferentes estações da cidade. O amplo saguão conserva elementos do projeto original, entre eles os monumentais afrescos de Conrad Albrizio, que narram diferentes períodos da história da Louisiana.

Linha Mardi Gras: trajeto percorre a Louisiana, o Mississippi e o Alabama (Carolina Gehlen/Exame)

Operado pela Amtrak, companhia ferroviária nacional de passageiros dos Estados Unidos, o Mardi Gras Service retornou em agosto de 2025, voltando a oferecer o transporte ferroviário de passageiros entre Nova Orleans e Mobile depois de uma interrupção de cerca de 20 anos provocada pelo furacão Katrina. O trajeto tem aproximadamente 230 quilômetros e paradas por quatro cidades da costa do Mississippi: Bay Saint Louis, Gulfport, Biloxi e Pascagoula, antes de chegar a Mobile.

Atualmente, são duas viagens diárias em cada sentido, e o percurso completo leva quase quatro horas. O nome da linha faz referência às festas de Carnaval de rua do sul dos Estados Unidos e conecta duas cidades centrais dessa celebração, Nova Orleans e Mobile, que disputam entre si o título de “Berço do Mardi Gras” americano.

New Orleans Union Passenger Terminal: terminal de passageiros inaugurado em 1954, em Nova Orleans (Carolina Gehlen/Exame)

“O serviço Mardi Gras cria uma conexão fluida para viajantes internacionais que chegam a Nova Orleans ou a Mobile e desejam explorar, de trem, a beleza, o charme e a hospitalidade da nossa costa. Esse marco, aguardado havia tanto tempo, representa não apenas uma conquista para moradores e visitantes recorrentes, mas também um passo transformador para a indústria do turismo e para o futuro da região”, afirma Judy Young, CEO da Coastal Mississippi Tourism.

Seguindo viagem

O apito anuncia a partida, e Nova Orleans começa a ficar para trás. Por volta das 17 horas, no horário local, o trem segue viagem. Pela janela, o fim da tarde acompanha o percurso, com as águas da Costa do Golfo aparecendo ao longo do caminho.

Como é possível escolher onde embarcar e desembarcar ao longo do trajeto, dá para combinar diferentes pontos de partida e paradas finais para explorar a região. A partir de cada estação, o roteiro pode seguir entre pequenas cidades, praias, ilhas, restaurantes e museus, antes de voltar aos trilhos em direção ao Alabama.

Ohr-O’Keefe Museum of Art: museu em Biloxi projetado pelo arquiteto Frank O. Gehry (Carolina Gehlen/Exame)

Uma parada que vale a saída é o Hotel Vela, hotel boutique de 16 quartos instalado em um edifício histórico de 1902, restaurado no centro de -Gulfport. A propriedade fica a cerca de dez minutos de caminhada do Mississippi Aquarium e da praia, e abriga um bar e restaurante em estilo speakeasy recomendado pelo Guia Michelin em 2025.

No Siren Social Club, a proposta é combinar culinária europeia contemporânea e coquetelaria artesanal em um ambiente de inspiração tropical. O restaurante tem raw bar, pratos para compartilhar e um menu de jantar com frutos do mar frescos do golfo, cortes de carne e massas artesanais. À frente da cozinha está o casal -Austin e Tresse Sumrall, também responsável pelo premiado White Pillars, em Biloxi. “Vela é uma constelação no céu noturno que os marinheiros usavam para se orientar e chegar em segurança. E Siren, obviamente, é uma criatura mitológica que atraía os marinheiros para a morte. Então, a ideia é trabalhar com os opostos: vício e virtude, segurança e perigo. O hotel seria a segurança; e o restaurante, o perigo. É como yin e yang”, afirma o chef Austin.

A costa também pode ser explorada a partir de Gulfport, de onde parte a ferry para Ship Island, ilha-barreira que integra a área protegida de Gulf Islands National Seashore. O trajeto, de cerca de uma hora, oferece vista para o Mississippi Sound — lagoa estuarina de aproximadamente 145 quilômetros que se estende ao longo da Costa do Golfo, de Waveland, no Mississippi, a Dauphin Island, no Alabama — e pode incluir avistamentos de golfinhos-nariz-de-garrafa do Atlântico.

Na ilha, praia e história dividem espaço. Entre mergulhos nas águas e caminhadas pela faixa de areia, o Fort Massachusetts, na extremidade oeste da ilha, acrescenta um capítulo histórico ao passeio e está aberto à visitação. Construído em tijolos entre 1859 e 1866, foi erguido para proteger o porto de águas profundas próximo à ilha, ponto estratégico usado pelos britânicos como base para a invasão de Nova Orleans, em 1812.

A Ship Island Excursions, empresa familiar responsável pelo transporte até a ilha, completa 100 anos de operação em 2026. Fundada em 1926 pelo capitão Pete Skrmetta, a companhia já levou mais de 1 milhão de passageiros a Ship Island, mantendo viva uma tradição centenária da costa do Golfo do México.

Hotel Vela: hotel boutique instalado em um edifício histórico restaurado de 1902, em Gulfport (Carolina Gehlen/Exame)

Se a viagem ganhar um tom mais artístico, a próxima parada, em Biloxi, é obrigatória. Às margens do Mississippi Sound, o Ohr-O’Keefe Museum of Art, projetado por Frank O. Gehry, um dos principais nomes da arquitetura contemporânea, reúne cerâmicas de George E. Ohr (1857–1918), artista conhecido como “Mad Potter of Biloxi”, além de exposições contemporâneas e históricas.

Para um ritmo mais aventureiro, Pascagoula é o próximo destino. A partir da estação, é possível seguir até Moss Point, onde o Pascagoula River Audubon Center funciona como porta de entrada para o maior sistema de rios de fluxo livre dos 48 estados continentais dos Estados Unidos. O espaço reúne exposições interativas, jardins com espécies nativas, trilhas e um calçadão à beira do rio. Passeios de caiaque, observação de aves e atividades educativas permitem conhecer de perto a biodiversidade do ecossistema costeiro.

Ship Island: praia na ilha-barreira na costa do Mississippi (Carolina Gehlen/Exame)

Conhecido como o berço da música americana, o Mississippi reúne uma rica combinação de cultura e história. Em 2024, recebeu mais de 40 milhões de visitantes nacionais e internacionais, que movimentaram mais de 10 bilhões de dólares entre alimentação, hospedagem, compras e recreação.

Música e viagem se encontram perto da estação de Pascagoula. Não é incomum ouvir na cafeteria The District Coffee Co. os acordes de Don Smith, cantor e compositor natural da cidade. Ao som do violão e da gaita, ele resume a viagem: “Pegue seu bilhete, todos a bordo. Viaje pela linha Mardi Gras, onde a costa encontra o céu”.

*A jornalista viajou a convite da Travel South USA

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