Poucos esportes exigem tempo, paciência e um código de ética tão rígido quanto o golfe (Juan Algar/Getty Images)
Colunista
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.
Outro dia, entre uma baforada e outra do meu charuto (e, assim como o golfe, o charuto exige tempo e paciência), um amigo fez uma pergunta que me parou: “Por que a elite joga golfe?”.
A pergunta é inteligente. Normalmente, eu recebo a versão invertida: “Por que o golfe é um esporte de elite?”. Parece a mesma coisa, mas não é. Aqui, a ordem dos fatores altera bastante o produto.
Feita do jeito certo, a pergunta desassocia o esporte do dinheiro, e eu já argumentei que o golfe pode ser muito mais acessível do que parece. Então, onde está a virada? Sim, o golfe no Brasil tem forte presença entre a elite, mas não porque custa caro, e sim porque a elite entendeu o golfe.
Um amigo golfista tem uma frase que eu adoro: “Golfe é esporte de gente evoluída”. Faz sentido. Para jogar de verdade é preciso controlar as emoções, deixar as preocupações fora do campo, manter o foco absoluto no instante da tacada. Aprender isso tem um efeito colateral inevitável: torna você uma pessoa melhor, mais equilibrada, mais presente, e esses ganhos aparecem na saúde, nos negócios, nos relacionamentos. A elite sabe que precisa se desenvolver para alcançar degraus ainda maiores, e o golfe funciona como um eterno centro de treinamento para a vida. Não é regra absoluta, mas que o esporte cultiva humildade, disso não há dúvida. É difícil sair de 18 buracos achando que domina 100% alguma coisa.
Os números confirmam o que o campo já sabia: 90% de quem joga no Brasil é empresário, diretor ou profissional liberal. Não é coincidência; é seleção natural. Poucos esportes exigem tempo, paciência e um código de ética tão rígido quanto o golfe, e é exatamente essa exigência que dá a quem negocia com um golfista uma certeza rara: do outro lado da mesa, há alguém que joga pelas regras.
E de quebra o golfe ainda entrega natureza, paisagens notáveis, boa mesa, network e amizades que duram. Um pacote completo disfarçado de esporte. Por isso, quando alguém me pergunta se golfe é coisa de rico, eu respondo com calma, talvez ainda com o charuto na mão: “Golfe não foi feito para a elite. A elite é que entendeu do que o golfe é feito”.