Revista Exame

Made in the USA: visitamos a operação que responde por 75% do resultado da Gerdau

Maior fabricante de aço do Brasil, a Gerdau tem nos Estados Unidos 74% de seu resultado. Agora, tira lições do sucesso americano para impulsionar seus negócios por aqui

Usina de Midlothian, no Texas: maior das 11 operações da Gerdau nos Estados Unidos virou símbolo de eficiência (Lucas Amorim /Exame)

Usina de Midlothian, no Texas: maior das 11 operações da Gerdau nos Estados Unidos virou símbolo de eficiência (Lucas Amorim /Exame)

Lucas Amorim
Lucas Amorim

Diretor de redação da Exame

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.

Última atualização em 27 de agosto de 2026 às 10h04.

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Pouco mais de 40 quilômetros separam o AT&T Stadium, no subúrbio de Dallas, da siderúrgica de Midlothian, controlada pelo conglomerado brasileiro Gerdau. É uma paisagem que dificilmente poderia ser mais americana. Estradas largas e impecáveis. Caminhonetes gigantes da RAM, da GM e da Ford. Outlets com seus estacionamentos a perder de vista. Redes de fast-food como McDonald’s, Taco Bell e Chick-fil-A. Bandeiras enormes dos Estados Unidos tremulando numa manhã quente de verão. A reportagem da EXAME visitou o Texas para entender o que explica os números superlativos da Gerdau por lá. Segundo o último resultado trimestral, de agosto, 74% do Ebitda (o lucro antes de impostos e amortizações) da companhia brasileira veio dos Estados Unidos. Em 2017, a fatia era de apenas 19%. Os números atuais são resultado de uma estratégia bem-sucedida levada a cabo na última década — e que inclui até o investimento em camarotes na Copa do Mundo.

Operação da Midlothian: usina aproveita sucata de carros e até de locomotivas para a produção do aço (Lucas Amorim/Exame)

O AT&T Stadium, em Dallas, foi palco de uma das dezenas de ações que a Gerdau organizou para clientes e fornecedores durante o Mundial. No dia 14 de junho, duas dezenas de convidados acompanharam o jogo entre Holanda e Japão pela primeira rodada da Copa. Viram um jogo movimentado, que terminou empatado em 2 a 2. O estádio, casa do time de futebol americano Dallas Cowboys, comporta 100.000 torcedores e é totalmente climatizado. A delegação da Gerdau foi capitaneada por Chia Yuan Wang, CEO da operação americana da companhia. Nascido na China e criado no Rio Grande do Sul, ele tem 39 anos de empresa, 27 dos quais nos Estados Unidos. Fez uma maratona de viagens na Copa do Mundo, aproveitando o evento para se conectar com clientes de setores como construção civil, grandes obras, indústrias, data centers. “O futebol é uma oportunidade de mostrar um pouco de nossa cultura e sedimentar relações. Estamos há mais de 20 anos por aqui e seguiremos visando o longo prazo”, diz Wang.

Chia Yuan Wang, presidente da Gerdau na América do Norte: operação alinhada com a cultura local (Gerdau/Divulgação)

A sede da Gerdau nos Estados Unidos fica em Tampa, na Flórida, mas a operação fica espalhada em 11 unidades siderúrgicas em toda América do Norte. A do Texas é a maior delas, e está sendo ampliada. Cerca de 1,2 bilhão de reais foram investidos para aumentar a capacidade de produção de aço de 1,4 milhão de toneladas por ano para 1,55 milhão de toneladas. Quando estiver pronta, ainda neste ano, a usina poderá gerar um Ebitda potencial (o lucro antes de impostos e amortizações) de 275 milhões de reais ao ano. A usina fica num terreno de 1.400 hectares e é o suprassumo da eficiência nesse tipo de operação. Metade da área é ocupada por uma usina de geração de energia solar que responde por cerca de 30% da demanda. É tão importante para a eficiência do projeto que a Gerdau emprega até um pastor de ovelhas para cuidar dos animais que comem o pasto em volta das placas solares e evitam, assim, uma deterioração do equipamento.

Vista aérea de Midlothian: após onda de expansão nos EUA, A Gerdau focou sua operação nas usinas mais eficientes (Palm Tree Content/Divulgação)

Midlothian, assim como as demais operações da Gerdau na América do Norte, processa apenas sucata. Os carros chegam amassados em carretas e depois são triturados em poucos segundos antes de ser derretidos. Ímãs gigantes separam o aço de outros materiais. Até as moedas esquecidas nos veículos são reaproveitadas. A usina também usa sucata de trens e até de locomotivas, que chegam rodando por uma estrada de ferro dentro do terreno da fábrica. Chegam por conta própria para o abate. As peças maiores, ainda em bom estado, são vendidas. Mas a maior parte é derretida a 1.650 graus Celsius. Na “receita” do aço a Gerdau adiciona componentes como como cal, dolomita, carbono e oxigênio para chegar a um produto final de qualidade e livre de impurezas. O calor liberado é tanto que, mesmo a mais de uma centena de metros do forno, ficamos empapados de suor em questão de segundos. É impossível ficar mais de alguns minutos no ambiente. A operação é comandada por um brasileiro, Daniel Rego, um veterano de 20 anos de Gerdau. Outros 20 brasileiros, em média, trabalham na operação, uma minoria perto dos mais de 1.000 funcionários. “Aprendemos a pensar localmente. Aproveitamos talentos brasileiros, mas o foco está na mão de obra local. Chegar a essa cultura demandou um processo longo de aprendizado”, diz Wang.

Do Rio Grande do Sul ao Texas

Maior grupo siderúrgico do Brasil, a Gerdau foi fundada em 1901 em Porto Alegre pelo imigrante alemão Johannes Gerdau. Começou como uma fábrica de pregos. Chegou à América do Norte em 1989, quando comprou a siderúrgica canadense Courtice Steel, em Ontário. A entrada efetiva nos Estados Unidos aconteceu em 1999, quando adquiriu o controle da AmeriSteel da japonesa Kyoei Steel. A companhia americana operava quatro mini-mills, como são chamadas as usinas siderúrgicas que processam sobretudo sucata. Virou o modelo de negócios da empresa no país. Entre 2004 e 2008, mais cinco aquisições ampliaram a ambição nos EUA. A maior delas foi a Chaparral Steel, dona de operações como Midlothian, por cerca de 4 bilhões de dólares.

Gustavo Werneck, CEO da Gerdau: “De 2004 a 2013 focamos em tamanho nos EUA; hoje miramos rentabilidade” (Gerdau/Divulgação)

Mas a crise financeira de 2008 atingiu a indústria e a construção civil, e aumentou o escrutínio de investidores sobre empresas endividadas — como era o caso da Gerdau. A operação americana de repente virou um passivo que forçou a companhia a mudar de estratégia. Entre 2014 e 2018, a Gerdau vendeu operações menos rentáveis, simplificou a estrutura e apostou em aços especiais, reduzindo a dependência de vergalhões. Era o começo de uma trajetória que faria da operação na América do Norte o motor da companhia. “De 2004 a 2013 focamos em tamanho. Hoje miramos rentabilidade. Mudou o que nos impulsiona”, diz Gustavo Werneck, CEO da Gerdau. “Também aprendemos que não podemos trabalhar tão alavancados. O nível de escrutínio é muito maior.”

O empurrão que faltava veio da geopolítica. Em 2018, em seu primeiro mandato presidencial, Donald Trump impôs a Seção 232, que ampliou em 25% a tarifa sobre o aço importado. Mais recentemente, em fevereiro de 2025, ampliou as tarifas para 50%, e passou a taxar também uma série de produtos de aço, como motores e motocicletas. A importação de aço caiu 22,9% no primeiro semestre. Em 15 de julho, num artigo publicado no Wall Street Journal, Brandon Farris, vice-presidente da Associação de Produtores de Aço, afirmou que o setor é uma história de sucesso das tarifas de Trump. “Elas levaram mais de 25 bilhões de dólares em investimento doméstico, ajudando a reverter anos de declínio causado pelo excesso de capacidade global e por práticas de comércio injustas”, afirmou. Era uma resposta a um editorial do Journal que afirmava que, em linhas gerais, as tarifas de Trump estavam “destruindo empregos americanos e aumentando preços’.

Enfronhada no mercado americano, a Gerdau se beneficiou da defesa comercial como uma empresa local. E aproveitou o fato de ter um portfólio focado em setores que vivem um boom de demanda, como o de energia solar e o de data centers. “Estamos fornecendo aço para 70 novas fábricas de semicondutores. O consumo de energia elétrica no país para data centers passou de 4% para 8%. São 700 bilhões de dólares de investimentos só neste ano”, diz Gustavo Werneck. Como mostram os investimentos na expansão de Midlothian, a Gerdau não vai tirar o pé do mercado americano. Mas, segundo Werneck, busca no sucesso alcançado no país inspiração para melhorar os resultados de sua operação no Brasil. “Causa desconforto esse peso dos Estados Unidos no nosso resultado. Mas o trabalho que fizemos lá vira inspiração, com o mix certo, o tamanho certo. Não podemos ter um desequilíbrio tão grande como o atual”, diz.

Usina solar em Midlothian: planta responde por até 30% da demanda da siderúrgica da Gerdau (Gerdau/Divulgação)

Há diferenças entre os países que vão além do poder de atuação da Gerdau. Werneck destaca que nos Estados Unidos paga 3 dólares por milhão de BTU de gás natural; no Brasil, paga 16 dólares. Por aqui, a empresa tem 130 funcionários na área tributária, ante dois nos Estados Unidos. Mas, se o Brasil pode se inspirar nos Estados Unidos na redução do custo de operação das empresas, deve urgentemente tirar lições da proteção comercial, segundo o CEO da Gerdau. Ele se consolidou como uma voz ativa na demanda por mais controles contra a entrada de aço chinês. O volume de aço importado no Brasil passou de 9,3% em 2020 para 20,8% em 2025, impulsionado por subsídios do governo chinês, segundo especialistas do setor. De 2025 para cá, os números de importação passaram a cair graças a medidas antidumping de itens como aços laminados e chapas.

Da porta para dentro, a Gerdau aumentou o investimento para melhorar seus resultados no Brasil. A expectativa é que a operação brasileira represente o mesmo peso da americana na última linha do balanço. A Gerdau prevê anunciar até o fim do ano um plano de negócios para o Brasil que inclui maior otimização das usinas, com foco nas unidades mais produtivas. No início de agosto, a empresa anunciou o fim das operações de aciaria e laminação da Açonorte, no Recife. Ainda no terceiro trimestre, deve entrar em operação a expansão da mina de Miguel Burnier, em Ouro Preto, Minas Gerais, que recebeu investimentos de 3,2 bilhões de reais, e da renovada operação de aços especiais em Pindamonhangaba, São Paulo, que levou 700 milhões de reais. As operações brasileiras vão focar o mercado local; as exportações continuarão concentradas nas plantas de outros países.

Donald Trump: presidente americano criou e depois ampliou taxas sobre o aço importado (Kent Nishimura/AFP/Getty Images)

Em relatório de 10 de agosto, o Itaú BBA resumiu a dicotomia da Gerdau. Enquanto a operação nos Estados Unidos está “na melhor forma em anos”, o Brasil “está melhorando, mas o consumo desaquecido continua limitando o ritmo de recuperação das margens”. O banco prevê um avanço de 15% no preço das ações da Gerdau em 2027, após crescimento de 50% nos últimos 12 meses. No mesmo período, o Ibovespa subiu 20%. Não dá para dizer que a dependência dos Estados Unidos tem sido um mau negócio. Mas a empresa aposta que o Brasil, em algum momento, vai começar a ajudar.

*O jornalista viajou para Midlothian (EUA) a convite da Gerdau.



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