Revista Exame

O custo de não agir

No ESG Summit 2026, especialistas discutiram como a crise climática está redefinindo planejamento urbano, sistemas de saúde, gestão de recursos e estratégias para garantir a longevidade dos negócios

Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil: painel discutiu como adaptar as estruturas sociais e econômicas ao aumento da longevidade e à busca por mais qualidade de vida (Eduardo Frazão/Exame)

Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil: painel discutiu como adaptar as estruturas sociais e econômicas ao aumento da longevidade e à busca por mais qualidade de vida (Eduardo Frazão/Exame)

Caroline Marino
Caroline Marino

Jornalista especializada em carreira, RH e negócios

Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.

O desafio empresarial do século 21 não será apenas crescer. Será crescer em um mundo marcado por eventos climáticos extremos, envelhecimento populacional, redes de atendimento sob pressão e recursos naturais cada vez mais escassos. Temas que até pouco tempo atrás eram tratados isoladamente passaram a ocupar a mesma agenda e a influenciar decisões de governos, empresas e investidores.

Os sinais dessa transformação já aparecem nos números. Em 2025, os desastres naturais provocaram perdas de aproximadamente 5,4 bilhões dfe dólares no Brasil, segundo a consultoria Aon. Ao mesmo tempo, 85% dos brasileiros afirmam sentir os efeitos das mudanças climáticas no cotidiano, seja pelo aumento do custo de vida (53%), por problemas de saúde (45%), seja por dificuldades de mobilidade (40%), de acordo com a Aurora Lab e a More in Common. Tudo isso em meio a uma transformação demográfica: até 2031, o país terá mais pessoas velhas do que crianças pela primeira vez na história.

Foi nesse contexto que especialistas se reuniram no ESG Summit 2026, promovido pela EXAME em 28 de maio na capital paulista, para discutir estratégias capazes de garantir a perenidade dos negócios a partir de critérios socioambientais e de governança. Mais do que causar perdas materiais, a crise do clima influencia a forma como a sociedade enxerga o futuro, além de reforçar a necessidade de incorporar temas como planejamento urbano, prevenção de desastres e qualidade de vida nas discussões.

Caroline Rocha, diretora-executiva da LACLIMA, e Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa: a adaptação passou a ocupar espaço central nas estratégias de governos, empresas e investidores diante do clima extremo (Eduardo Frazão/Exame)

Planejar para resistir

A transição energética esteve entre os assuntos centrais. A queima de combustíveis fósseis continua entre as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa, com impactos que vão além da questão ambiental. A combustão de carvão, petróleo e gás libera poluentes associados a doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a poluição do ar mata cerca de 7 milhões de pessoas em todo o mundo.

Os chamados “mapas do caminho” — planos que estabelecem metas, prazos e diretrizes para reduzir gradualmente a dependência de petróleo, carvão e gás natural e acelerar a adoção de fontes renováveis — ajudam nesse processo. “Funcionam como ferramentas de direcionamento para que tenhamos alternativas planejadas diante de cenários mais críticos no futuro”, explicou Flávia Bellaguarda, assessora especial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para a COP30.

Ela ressaltou que a proposta ganhou força durante as discussões da COP30 e já começou a avançar no Brasil. As conversas envolvem os Ministérios de Minas e Energia, Fazenda e Meio Ambiente, além da Casa Civil, e devem seguir para avaliação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A ideia é criar diretrizes para orientar uma transição gradual, construída a partir de negociações e prioridades definidas coletivamente.

A discussão sobre energia, porém, é apenas uma parte da equação. Os eventos extremos afetam cidades, empresas, sistemas de saúde e a capacidade de crescimento econômico. Segundo Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa e diretor-executivo do Instituto Itaúsa, o momento exige ampliar o debate sobre quem participa desse enfrentamento.

Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining, e Roberto Rocha, presidente da Associação Nacional de Catadores (Ancat): especialistas discutiram como transformar lixo em valor econômico e avançar na economia circular (Eduardo Frazão/Exame)

Embora a resposta aos desastres seja frequentemente associada ao poder público, ele afirmou que o setor privado tem papel relevante na recuperação econômica, na gestão de riscos e na preparação para situações extremas. Na avaliação de Furtado, a pergunta que as companhias precisam fazer é simples: seus negócios continuarão viáveis nos próximos anos se os efeitos das mudanças climáticas forem ignorados? Desconsiderar essa frente pode comprometer cadeias de valor, alterar hábitos de consumo e ampliar a pressão de investidores por transparência sobre a pauta ESG. “Se você não quiser olhar pela lente ESG ou da sustentabilidade, olhe pela lente da resiliência do negócio. É uma questão de sobrevivência.”

Na Ypê, a sustentabilidade sempre fez parte da estratégia e está diretamente associada à eficiência operacional e à longevidade do negócio. Um dos exemplos citados no evento foi o investimento de 250 milhões de reais em energia renovável. Atualmente, 70% da eletricidade consumida pela fabricante de produtos de higiene e limpeza é proveniente de parques solares e eólicos desenvolvidos em parceria com outros agentes. O restante é compensado, permitindo que a operação seja abastecida integralmente por fontes renováveis.  “Quando você coloca a variável sustentabilidade no processo decisório, surgem oportunidades que não acharia se não pensasse dessa forma”, afirmou Waldir Beira Junior, presidente da companhia.

A busca por modelos de negócios mais sustentáveis passa também pela economia circular. Apesar dos avanços registrados nos últimos anos, o país enfrenta entraves estruturais para ampliar a reciclagem e consolidar o reaproveitamento de materiais em larga escala. Entre os principais estão a falta de infraestrutura para o reaproveitamento, a baixa reciclabilidade de parte das embalagens, as questões tributárias relacionadas aos resíduos, a necessidade de melhorar as condições de trabalho dos catadores e o fortalecimento da educação ambiental.

Além disso, Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining, startup de logística reversa , destacou a escassez de investimentos e o fato de as responsabilidades já previstas na regulação não serem plenamente executadas ou fiscalizadas. “Impulsionar a logística reversa exige criar condições que garantam o cumprimento das mesmas regras por todos os agentes envolvidos.”

Outro ponto levantado foi a própria concepção das embalagens. Decisões relacionadas ao design, às cores e à combinação de materiais influenciam diretamente o potencial de recuperação de um produto. “A indústria já conhece boa parte dos obstáculos existentes e precisa acelerar a adoção de mudanças e tecnologias capazes de ampliar a circularidade”, ressaltou Roberto Rocha, presidente da Associação Nacional de Catadores (Ancat).

O especialista defendeu o fortalecimento de arranjos de negócios que aproximem cooperativas, empresas e poder público. “A colaboração entre os diferentes elos da cadeia é essencial para ampliar a recuperação de materiais e viabilizar modelos economicamente sustentáveis.”

Uma nova fronteira do cuidado

Os desafios chegam igualmente à área da saúde. À medida que secas, enchentes, queimadas e ondas de calor se tornam mais frequentes, hospitais, unidades básicas e profissionais da área precisam responder a novos padrões de adoecimento e incorporar a preparação para eventos extremos às estratégias de prevenção e atendimento.

“A saúde deveria ser transversal”, afirmou Evangelina Araújo, diretora e fundadora do Instituto Ar. Para ela, o tema é tratado de forma isolada, quando deveria guiar decisões relacionadas a infraestrutura, transporte, planejamento urbano, meio ambiente e políticas sociais.

Flávia Bellaguarda, assessora especial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para a COP30: painel debateu caminhos para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e impulsionar a transição energética (Eduardo Frazão/Exame)

Essa mudança de perspectiva já começou a influenciar as graduações. Entre 2025 e 2026, as novas diretrizes dos cursos de medicina e enfermagem passaram a incorporar o conceito de saúde planetária, que aborda clima, sustentabilidade e vulnerabilidades sociais. “Não somos uma pessoa doente; somos uma pessoa doente no ambiente”, afirmou Arlindo Gonzaga, médico e professor do grupo de ensino Afya. Segundo ele, em um país de dimensões continentais como o Brasil, a grade curricular precisa combinar uma base comum com adequações  às características regionais. “Uma asma em São Paulo é diferente de uma asma em Rondônia.”

O movimento exige, ainda, ajustes na operação das instituições. A Beneficência Portuguesa de São Paulo, por exemplo, desenvolveu uma matriz de risco climático capaz de projetar, até 2100, fatores ambientais que podem afetar o funcionamento do pronto-socorro. A ferramenta permite antecipar efeitos de cenários de seca ou calor extremos e orientar medidas de adaptação.

A revolução da longevidade

A transformação demográfica impõe uma segunda frente de atenção na assistência. De 2012 a 2025, a participação dos brasileiros com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%, enquanto a parcela de idosos avançou de 11,3% para 16,6%, segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.

“A saúde é criada no contexto do dia a dia. Está relacionada à forma como cada indivíduo se alimenta, trabalha, vive, se locomove e acessa serviços e espaços urbanos”, explicou Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil (ILC-Brasil).

Na visão do especialista, preparar o país para essa realidade passa por tornar escolhas saudáveis mais acessíveis e por qualificar os profissionais para atender uma população cada vez mais velha. “Se estamos falando de sustentabilidade, o maior recurso natural não é energia, reciclagem de alumínio ou painéis solares. É gente — gente velha.”

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