Carlos Fávaro: passagem pelo Mapa foi marcada por desafios e entregas importantes, diz o agora ex-ministro (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 23 de abril de 2026 às 06h00.
A vida do senador Carlos Fávaro (PSD) nos pouco mais de três anos à frente do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) foi desafiadora, como resumiu o ex-ministro à EXAME, horas antes de passar o cargo para André de Paula, no início de abril. Mas, ainda assim, Fávaro diz estar contente com o que conseguiu entregar. “Tivemos grandes avanços”, afirma. Em sua última conversa, ainda como titular do Mapa, Fávaro faz um balanço de sua gestão nos 1.186 dias como ministro de uma das áreas mais sensíveis para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Qual é o balanço da sua gestão à frente do Mapa?
Tivemos grandes avanços. Conseguimos fazer safras recordes, somando 1 trilhão e meio de reais. Trouxemos de volta o PAC para a agricultura. E, em parceria com a Apex e o MDIC, abrimos 555 novos mercados para os produtos da agropecuária nesse período — um recorde. Não foi só soja, milho, algodão, carne bovina, suína e aves. Nós abrimos mercados para um leque muito grande, tanto de produtos quanto de países, como o DDG, coproduto do milho; o sorgo para a China; a uva para vários países do mundo; pulses para a Índia; e o algodão para o Egito (país cujo algodão é considerado o melhor do mundo).
Como o tarifaço dos Estados Unidos influenciou o plano de exportações?
Em 2025, quase 50% das exportações brasileiras vieram do agro, porque ampliamos as oportunidades. O tarifaço imposto pelo governo americano praticamente não teve efeito. Soubemos usar a diplomacia, não usamos a lei da reciprocidade. Se eu não vendo para os Estados Unidos, eu vendo para outro lugar. Isso minimizou os impactos.
O seguro-rural, que era uma pauta prioritária, não avançou.
Avançamos em uma proposta, e o Congresso Nacional também trabalha em uma iniciativa legislativa, com o Ministério da Fazenda. Estruturamos um projeto de alcance nacional, voltado ao fortalecimento dos produtores rurais, com vinculação ao Plano Safra, redução do custo dos aportes, ampliação da subvenção do governo e maior acesso para garantir segurança no campo diante das intempéries climáticas. Infelizmente, não conseguimos concluir esse processo. A intenção é que essa proposta se torne realidade ainda neste ano.
O Mapa chegou a afirmar que seria anunciado em setembro de 2025, e até agora nada. Por que acha que em ano eleitoral deve avançar?
A proposta está bastante madura, após amplo diálogo com o setor, seguradoras e resseguradoras, além de avanços no entendimento orçamentário e da boa vontade do Congresso, que já vem se consolidando. Tenho certeza de que esse será um passo importante para o seguro rural.
Parte significativa do agro criticou a sua gestão. Ao que o senhor atribui?
A crítica é natural. Quem está na vida pública tem de estar preparado para sofrer críticas. Não olhei partido na hora de levar políticas públicas. Entregamos equipamentos, máquinas, recuperamos estradas, fizemos convênios — tudo sem olhar partido político. A polarização faz parte da democracia. O que atrapalha é a intolerância.
Em momentos mais tensos, como na alta do preço dos alimentos e a questão do arroz na Conab, o senhor chegou a pedir demissão?
Não pedi. Ao estar ao lado de um homem de 80 anos de idade, como o presidente Lula, não me dou o direito de fraquejar e pensar em desistir.
Se o presidente Lula vencer as eleições em outubro e convidar o senhor novamente, o senhor volta ao ministério?
Ele vai vencer. Mas isso é com ele e o novo governo.
César H.S. Rezende, de Brasília