Orelha: conheça a história do cão assassinado em Santa Catarina (Redes sociais/Reprodução)
Repórter
Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 14h42.
A morte do cachorro comunitário conhecido como Orelha, de pelo menos 10 anos de idade, mobilizou moradores da Praia Brava, no Norte de Florianópolis, organizações de proteção animal e autoridades de Santa Catarina. O caso também gerou repercussão entre celebridades e está sendo investigado pela Polícia Civil.
Nesta segunda-feira, 26, uma operação da Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados.
Ao menos quatro adolescentes foram identificados como suspeitos de envolvimento nas agressões que resultaram na morte do animal, segundo informações repassadas pela corporação.
De acordo com relatos de moradores da região, o cão estava desaparecido havia alguns dias. Uma das cuidadoras habituais encontrou o animal caído e com sinais de sofrimento durante uma caminhada pela vizinhança.
O cachorro foi encaminhado a uma clínica veterinária particular, mas os ferimentos foram considerados irreversíveis. A equipe médica recomendou a eutanásia como medida final, diante do estado clínico grave.
O caso de Orelha reabriu debates sobre os mecanismos de proteção a animais comunitários, termo usado para descrever cães e gatos que vivem em áreas públicas e recebem cuidados coletivos da vizinhança. As investigações seguem sob responsabilidade da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI), que apura o envolvimento dos suspeitos.
O Ministério Público de Santa Catarina acompanha os desdobramentos do inquérito.
A Polícia Civil identificou quatro adolescentes suspeitos de envolvimento direto nas agressões que causaram a morte do cão Orelha. A localização dos investigados ocorreu a partir da análise de câmeras de segurança e de depoimentos coletados entre moradores da região da Praia Brava.
Uma nova linha de apuração também foi aberta. A corporação apura se houve tentativa de coação de testemunha por parte de um policial civil, pai de um dos adolescentes suspeitos. A delegada responsável pelo caso, Mardjoli Valcareggi, confirmou que a denúncia está sob análise, mas negou qualquer envolvimento direto de agentes públicos nas agressões.
Segundo Valcareggi, todos os possíveis envolvidos já foram identificados, e o inquérito segue com diligências em curso.
O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) acompanha o andamento da apuração por meio da 10ª Promotoria de Justiça da Capital, especializada em Infância e Juventude, e da 32ª Promotoria, com foco em Meio Ambiente. O órgão informou que diversas testemunhas já foram ouvidas e que novas oitivas estão agendadas.
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), comentou o caso em publicação feita no domingo, 25, na rede social X. Segundo o chefe do Executivo estadual, a juíza inicialmente responsável declarou-se impedida, e o caso foi redistribuído para outro magistrado.
“A nossa Polícia Civil fez diligências, colheu provas e solicitou à Justiça mandados alguns dias após o início da investigação. As provas já estão no processo e me embrulharam o estômago”, escreveu o governador.
Com a conclusão do inquérito, o procedimento será encaminhado ao Ministério Público de Santa Catarina, que ficará responsável por avaliar os elementos reunidos, definir os encaminhamentos cabíveis e adotar as medidas previstas em lei.
Como os suspeitos são adolescentes, a apuração ocorre conforme as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que estabelece garantias específicas e procedimentos próprios para responsabilização de menores de idade em atos infracionais.
A Praia Brava possui três casinhas instaladas para abrigar cães que vivem na área e que, com o tempo, passaram a ser considerados mascotes pelos moradores. Orelha era um dos animais acolhidos por essa rede de cuidado coletivo, caracterizando o modelo de cão comunitário, que recebe alimentação, abrigo e atenção dos vizinhos e comerciantes locais.
A convivência de Orelha ia além dos laços com os moradores. O cão também interagia com outros animais do bairro, reforçando sua presença no cotidiano da comunidade.
Em nota divulgada na sexta-feira, a Associação de Moradores da Praia Brava destacou o papel afetivo de Orelha como símbolo de convivência e cuidado coletivo. A entidade também expressou apoio às investigações em andamento e cobrou medidas que garantam maior proteção aos animais da região.
“Orelha fazia parte do cotidiano do bairro há muitos anos e era cuidado espontaneamente pela comunidade, tornando-se um símbolo simples, porém muito querido, da convivência e da relação de cuidado que muitos mantêm com o espaço e com os animais que aqui vivem.”
Desde a morte de Orelha, moradores da Praia Brava, protetores independentes, organizações não governamentais (ONGs) e institutos ligados à causa animal têm se manifestado em busca de responsabilização dos envolvidos.
No sábado, 17, ocorreu a primeira mobilização pública no bairro. Uma semana depois, no sábado, 24, um novo protesto reuniu dezenas de pessoas na região. Vestindo camisetas personalizadas e segurando cartazes com frases como “Justiça Por Orelha”, os participantes caminharam acompanhados de seus próprios cães e realizaram uma oração em homenagem ao animal.
As manifestações também se espalharam pelas redes sociais, com a hashtag #JustiçaPorOrelha, usada em postagens com moradores e protetores exibindo cartazes ao lado de seus animais de estimação.
No domingo, 25 de janeiro, as atrizes Heloísa Périssé e Paula Burlamaqui publicaram vídeos lamentando a morte do cão e cobraram providências das autoridades estaduais e do Ministério Público.
“Quem faz isso com um animal inocente, por um simples querer, tende a repetir esse modelo de violência com outros seres vivos. A gente precisa estar atento a isso", afirmou.