Cleber Santos e Dan Batista, da Comport Pet: “Minha vida foi mudada por causa de um cachorro”, diz Santos (Comport Pet/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 08h00.
Faz alguns anos, o setor pet virou um dos mercados mais promissores do Brasil. Com 167 milhões de animais de estimação no país e um faturamento estimado em mais de 67 bilhões de reais por ano, empresas do ramo vivem uma corrida para atrair tutores dispostos a pagar mais por conforto, serviços exclusivos e bem-estar dos animais.
A tendência foi tão forte que evoluiu. Hoje, há mercado de sobra para diversos tipos de serviços, muitos deles premium. Hotéis para cães com TV, terapias integrativas e menu especial já não são exceção — e uma nova unidade no Morumbi, em São Paulo, leva esse conceito ao extremo.
É ali que o Grupo Comport, comandado por Cleber Santos, acaba de inaugurar um hotel de luxo para cães com investimento de 3,5 milhões de reais.
A estrutura tem 1.500 metros quadrados e capacidade para 400 animais, com suítes individuais de 9 metros quadrados equipadas com cama, ar-condicionado, TV a cabo e aromaterapia. Há também áreas de recreação, cinema, musicoterapia e uma equipe com certificação em comportamento animal e primeiros socorros.
O projeto marca uma virada na atuação da Comport, que nasceu como empresa de adestramento e hoje se posiciona como um ecossistema completo de serviços pet — com atuação em hotelaria, ensino profissionalizante, franquias e tecnologia.
“Criamos uma estrutura que integra ciência, comportamento, conforto e experiência sensorial, em uma proposta que ainda é inédita em grande parte do país”, afirma Cleber Santos, fundador e CEO do grupo.
O empresário Cleber Santos tinha 14 anos quando fugiu de casa e foi morar na rua, na região da Praça da Sé, no centro de São Paulo. Nascido na Bahia, ele se mudou com a mãe para a capital paulista durante a adolescência, mas com problemas em casa, decidiu que as ruas da cidade mais populosa do país seriam seu novo lar.
Foi lá que ele encontrou Grafit, um vira-lata que se tornou seu maior companheiro. O cuidado com o animal chamou a atenção de um dono de pet shop da região, que ofereceu a Cleber um emprego como ajudante. Lá recebia 20 reais por semana e um abrigo para ele e para o cãozinho.
Dois anos depois de começar a trabalhar na pet shop ganhando 20 reais por banho dado, Santos se alistou nas Forças Armadas e lá, se especializou em adestramento de animais, especialmente cachorros. Ele usou a paixão e o conhecimento que tinha com os pets para se aproximar do canil do Exército, até ser convidado a trabalhar no setor.
Em 2010, abriu a Comport Cão, para prestar serviço de adestramento de cachorros. Trabalhou com isso por quatro anos, até conhecer Dan Batista, sua esposa e atual sócia. Ela trabalhava como paisagista e decoradora, mas também gostava de animais de estimação e foi estudar o mercado.
Juntos, eles transformaram o negócio na Comport Pet, que passou a oferecer mais serviços, como dog walker (para caminhar com os cachorros) e hotelaria para os animais.
“Quando começamos, atendíamos seis cães”, diz Santos. “Depois, fomos estudar comportamento animal, aperfeiçoamos nossa gestão e começamos a aumentar o número de cães. Fomos de seis para 15 cães, depois 30. Até que em 2016 abrimos nosso ponto físico, que cabia 100 cães por dia e começamos aumentar os serviços”.
Foi nessa época que colocaram no portfólio de produtos banho e tosa, veterinária e tratamento para os bichinhos. “Entendemos que o cliente buscava a comodidade de ter todos os serviços em um só lugar, e apostamos nisso”.
Depois, com a repercussão, passaram também a oferecer cursos e palestras profissionalizantes para profissionais e empreendedores do setor. Assim nasceu a Comport Ensino, segunda das cinco empresas que o Grupo Comport tem hoje.
A nova unidade reúne 700 metros quadrados de áreas externas para recreação e socialização, além de 800 metros quadrados internos com salas de treinamento, cinema, suítes e espaços para terapias integrativas.
A operação segue protocolos rígidos de segurança e saúde, incluindo vacinação, avaliação comportamental, atendimento veterinário diário e plantão 24 horas.
As diárias variam entre 170 e 500 reais, dependendo da acomodação e dos serviços contratados. Há 11 suítes especiais que acomodam até quatro cães da mesma família. A alimentação pode ser personalizada, com cardápio da casa ou refeição levada pelos tutores.
“Pensamos em cães de todos os perfis e necessidades. Nosso objetivo é que cada pet tenha uma experiência completa, com segurança emocional e estímulos adequados”, afirma Dan Batista, sócia e esposa de Cleber.
O hotel premium no Morumbi faz parte de um plano mais amplo. A Comport quer chegar a 100 unidades nos próximos 10 anos, combinando operações próprias e franquias.
Hoje, a empresa já atua com ensino profissionalizante para o setor e também prepara o lançamento de uma plataforma própria de gestão voltada a pet shops, clínicas e hotéis.
“A dor que identificamos é que muitos estabelecimentos usam três ou quatro sistemas diferentes para operar. Vamos lançar uma tecnologia integrada e focada na realidade do setor pet”, diz Cleber.
O Brasil tem mais de 167 milhões de animais de estimação e consolidou-se como o segundo maior mercado pet do mundo. Nos últimos anos, o segmento premium — que inclui alimentação natural, serviços de bem-estar, terapias e hospedagem diferenciada — cresceu acima da média do setor.
Mas com o crescimento, vem o desafio: adaptar escala sem perder a proposta de valor.
“O tutor hoje é mais exigente. Ele quer segurança, experiência e cuidado de verdade. Se a operação não entrega isso, não adianta ter estrutura bonita”, afirma Cleber.