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Conceição Evaristo: 'Literatura pode estar ameaçada pela inteligência artificial'

Prestes a completar 80 anos, a escritora contou sobre a relação entre tecnologia e arte, sobre a nova geração de escritores negros e os próximos lançamentos, incluindo um livro de poemas sexuais

Conceição Evaristo: "Não tem idade para falar de afeto, amor e gozo. Pelo menos não deveria ter"

Conceição Evaristo: "Não tem idade para falar de afeto, amor e gozo. Pelo menos não deveria ter"

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 28 de agosto de 2026 às 13h30.

Última atualização em 28 de agosto de 2026 às 14h32.

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"A literatura pode estar, sim, ameaçada pela inteligência artificial. Corremos o risco de perder esse contato humano, o olho no olho que é essencial". A fala é da escritora e professora mineira Conceição Evaristo, autora de obras como "Ponciá Vicêncio", "Becos da Memória" e "Olhos d'Água". "Não sei o que a máquina pode fazer conosco ou o que nós podemos fazer com a máquina", explica.

Para Conceição, o uso dessas tecnologias pode ser responsável por gerar mentes mais preguiçosas, já que a própria busca por conhecimento ganha uma nova dinâmica com a facilidade da inteligência artificial. "É uma mudança no exercício da memória, principalmente na juventude. A mente vai ficando mais preguiçosa, inclusive para compor situações de afeto", conta. "O corpo não precisa estar presente, o olhar não precisa estar presente, o toque não precisa estar presente. Não sei se também a gente não constrói uma nova solidão."

Apesar de entender que a IA pode ser um risco para o desenvolvimento da arte, a escritora defende que a tecnologia ainda não é capaz de criar com a essência que as suas obras carregam. "De uma coisa tenho certeza: a inteligência artificial não escreve o texto que eu escrevo. Ela não fica horas e horas procurando uma palavra, uma rima, pensando que o nome do personagem tem de coincidir sua a história de vida ou a própria personalidade", diz.

É justamente com a força dos versos e o afeto nas linhas escritas que as obras Conceição Evaristo ganharam espaço na estante de mais de 500 mil brasileiros. A autora estreou na literatura aos 44 anos, em 1990, após se formar em Letras (UFRJ) e trabalhar como professora da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Seu primeiro romance, "Ponciá Vicêncio", traz o cotidiano de milhões de pessoas negras no Brasil a partir do realismo poético.

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Sua forma de escrever misturando experiências comuns à população negra e novas narrativas recebe o nome de "escrevivência", uma junção das palavras "escrever, viver e se ver". Na prática, Evaristo descreve que as narrativas e experiências comuns a população afrobrasileira sejam descritas a partir da arte e da literatura, como um lembrete constante da desigualdade racial.

"A inteligência artificial ainda não faz isso. E ai dela se fizer!", diz, entre risadas. A escritora conversou com a reportagem da EXAME durante um evento em São Paulo e falou sobre as mudanças na nova geração de artistas negros, a conexão entre literatura e filantropia e os planos para os próximos livros enquanto se aproxima dos 80 anos.

Novos artistas, mesmas narrativas

Das suas primeiras publicações em 1990 para cá, a literatura brasileira também ganhou diversos novos autores negros que ajudam a contar outras narrativas a partir das suas obras.

A lista inclui Itamar Vieira Júnior, famoso pelo romance "Torto Arado", que ganhou o Prêmio Jabuti de 2020; Jefferson Tenório, autor de "O Avesso da Pele", também vencedor do Jabuti em 2021; Eliana Alves Cruz, com a coletânea de contos "A Vestida" e o romance "Meridiana"; e Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras em 128 anos de instituição e autora de "Um Defeito de Cor".

Entre as obras, um tema predomina: a desigualdade racial. Seja a partir de narrativas de resistência e ancestralidade (como "Torto Arado") ou a das violências sofridas por essa população, as literaturas hoje premiadas ajudam a contar uma história que começou a ser construída centenas de anos atrás, quando chegaram os primeiros povos escravizados no Brasil. Conceição percebe que parte das obras hoje criadas pela população negra já trazem duas narrativas distintas: uma marcada pela dor, e a outra, pelas conquistas.

"Há ainda uma escrita que traz a violência, a injustiça, esse mundo chamado de periferia. Eu gosto de pensar em outras centralidades. Por exemplo, determinadas letras de rap ainda insistem sobre esse cotidiano sacrificado e injusto da sociedade brasileira — e são textos criados por uma juventude", conta. 

Do outro lado, já existe uma nova literatura. "A que fala das conquistas, do direito ao amor, do afeto. Eu acho que há uma diversidade nesse discurso, nessa narrativa brasileira. E uma diversidade justamente porque a sociedade brasileira, em termos de condição de vida, equilibra tanto negros de classe média quanto pessoas negras na extrema pobreza", diz Evaristo.

Fato é que as obras conquistaram o carinho e interesse do público no topo da lista de livros mais vendidos em plataformas como Amazon. "O Avesso da Pele" chegou a mais de 200 mil cópias vendidas. "Torto Arado" ultrapassou a marca do milhão de exemplares, sendo o livro mais consumido no país em 2021. "Um Defeito de Cor" registrou mais de 2 mil exemplares vendidos só no dia seguinte à eleição de Ana Maria Gonçalves à Academia Brasileira de Letras.

Papel da filantropia na cidadania e na arte

Conceição veio até São Paulo para a fala de abertura do 15º Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais, realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). No discurso, a autora contou que ainda na sua juventude em Minas Gerais foi beneficiada por uma ação filantrópica que doava alimentos para a comunidade onde cresceu.

"Lembro que naquele momento não havia nenhuma discussão a respeito da pobreza: recebíamos os alimentos, mas não havia nenhum senso crítico com as movimentações sociais e demandas de determinadas populações. A medida que se aprimora o trabalho, se percebe também que a filantropia deve ser estratégica", diz.

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À EXAME, a escritora afirma que entende a filantropia hoje como uma forma de justiça social. "Parte da carência da sociedade brasileira é construída a partir do excesso de outra parcela da sociedade. Por isso, a filantropia ataca essa repartição injusta dos bens", diz.

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"A filantropia pensa na construção de uma sociedade mais justa. E não apenas trata da carência material, mas como ela pode atender também nessa formação de consciência. E como nós, mulheres negras, somos também representativas desses lugares carentes, somos parte dessa luta pelo próprio direito à vida. Então somos peça importante dessa coletividade que é a filantropia", conta.

Casa Escrevivência e construção de legado

Em 1994, após a morte da intelectual e feminista negra Lélia Gonzalez, seu acervo de obras, manuscritos e objetos pessoais foi passado para o terreiro de candomblé que ela frequentava no Rio de Janeiro. Desde 2024, os itens são alvo de uma disputa entre seus herdeiros e a liderança do centro religioso.

Uma situação semelhante acontece com a intelectual negra Azoílda Loretto: o seu acervo só foi disponibilizado para a Universidade de Campinas (Unicamp) cerca de sete anos após a sua morte, em 2015, tempo suficiente para que ficasse parado e fora das visitações.

Já com Carolina Maria de Jesus, falecida em 1977, parte do seu acervo foi doado para o arquivo público da cidade de Sacramento (MG), terra-natal da escritora. Hoje, as herdeiras da autora relatam que o material não está preservado como necessário e pedem que os documentos sejam devolvidos para garantir o acesso adequado do público.

Conceição, que completa 80 anos em novembro, decidiu que o melhor é dar um destino para seus escritos ainda em vida. Há três anos, foi fundada a Casa Escrevivência, em busca de manter o legado da escritora fora de disputas, conservado e não "jogado ao vento". "É parte da nossa capacidade de organização enquanto mulheres negras também. A própria palavra 'patrimônio' tem uma conotação masculina, é o homem que deixa herança. Por que não pensar o 'matrimônio'?", conta.

Próximas histórias

Para 2027, o objetivo de Conceição é reduzir a sua agenda de eventos o máximo possível. O motivo? Finalizar as obras já iniciadas e contar as histórias que já estão em mente. "Meu próximo romance é 'As Flores de Mulumbu', que ainda não acabei de escrever", conta.

Uma trilogia de contos chamada "Submissas Lágrimas de Mulheres" também é prevista, assim como "O Silencioso Pranto dos Homens". "Quero ainda escrever algo em relação à criança, mais provavelmente o adolescente", diz.

Outra obra deve misturar textos da autora com escritos e manuscritos da própria mãe, Joana Evaristo, a partir do momento em que a matriarca aprende a escrever. "Esse livro vai se chamar 'De mãe, de mesmo', em uma linguagem bem mineira", conta.  Bienal do Livro: confira os 5 livros mais comprados do ano passado

Um livro de poemas, chamado "O gozo e seus movimentos", traz relatos sexuais e de relações amorosas da autora. "Queria ter terminado de escrever para lançar nos meus 80 anos. Sei que perguntariam como uma mulher de 80 anos vai falar de sensualidade, de gozo, de prazer, e eu trago numa linguagem bem sutil e insinuada, que é o que eu gosto de fazer", conta.

"Não tem idade para falar de afeto, amor ou gozo. Pelo menos não deveria ter. Especialmente para nós, mulheres negras. Hoje tem uma juventude que está escrevendo que fala com mais naturalidade. Porque como nós mulheres negras também fomos sempre vistas como objeto de prazer, como a sexualidade exacerbada, falar para a gente acabou sendo muito difícil, e escrever mais ainda", diz. 

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