A Vila Belmiro, tradicional reduto e sede administrativa do Santos Futebol Clube. (Ricardo Moreira/Getty Images) (Eicardo Moreira/Getty Images)
Redator na Exame
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 18h31.
O Santos Futebol Clube encerrou o primeiro semestre de 2026 imerso em um cenário de forte pressão financeira e administrativa.
De acordo com o parecer do Conselho Fiscal da instituição, o clube fechou o período acumulando um déficit de R$ 119,6 milhões, superando de maneira expressiva o saldo negativo de R$ 73,7 milhões inicialmente projetado no orçamento para os primeiros seis meses do ano. O documento detalha que, embora as receitas operacionais tenham superado as expectativas iniciais — arrecadando R$ 126,4 milhões frente aos R$ 91,4 milhões previstos —, os custos operacionais dispararam e alcançaram a marca de R$ 165 milhões, atropelando o planejamento financeiro da diretoria.
O principal motor desse descontrole orçamentário esteve na folha salarial do departamento de futebol. O custeio com salários e encargos de atletas e comissão técnica, inicialmente estimado em R$ 57,2 milhões no orçamento, saltou para expressivos R$ 74,2 milhões no balancete consolidado até junho. Esse acréscimo expressivo, somado ao crescimento das obrigações trabalhistas, tributárias, judiciais e ao recurso a empréstimos de curto prazo — a exemplo da operação de crédito de R$ 16,3 milhões firmada com o Banco Daycoval —, impôs uma asfixia severa sobre o fluxo de caixa alvinegro.
A gravidade do momento econômico levou o Conselho Fiscal a divergir das demonstrações financeiras oficiais apresentadas pela diretoria executiva. No entendimento do órgão fiscalizador, o passivo total da instituição atinge o patamar de R$ 1.241.534.000 ao final do primeiro semestre, evidenciando um abismo ainda maior do que o registrado nos balanços contábeis tradicionais. A falta de regularidade na quitação de parcelas de acordos em aberto também impediu a renovação da Certidão Negativa de Débitos, dificultando a captação de recursos e o equilíbrio fiscal da entidade.
Apesar do cenário de terra arrasada nas contas e da iminência de debates acalorados na próxima reunião do Conselho Deliberativo na Vila Belmiro, a gestão esportiva adotou uma postura agressiva no mercado de transferências. Visando a disputa da reta final do Campeonato Brasileiro e a sobrevivência nas fases decisivas da Copa Sul-Americana, o técnico Cuca ganhou reforços de peso por meio de uma estratégia baseada na contratação de atletas livres no mercado e na assinatura de vínculos de curta duração.
Ao todo, quatro nomes de peso foram integrados ao plantel para blindar a equipe na sequência do calendário. O meio-campista Arthur, de 30 anos, chegou após rescindir seu vínculo com a Juventus, da Itália. Para a lateral direita, o clube buscou Rodinei, que estava liberado pelo Olympiacos, da Grécia. O meio-campo também recebeu o reforço de Lima, vindo do Fluminense, enquanto o setor ofensivo passou a contar com o atacante Everton Cebolinha, ex-Flamengo.
O movimento de mercado mais emblemático, contudo, envolveu a chegada do meia Philippe Coutinho, de 34 anos. A contratação do experiente armador foi um pedido expresso do astro Neymar à cúpula santista, com exames médicos agendados para sacramentar o vínculo até o final da temporada. A chegada de medalhões busca reverter o panorama técnico em campo, ainda que mantenha sob tensão a estrutura de gastos do clube.
O relatório do Conselho Fiscal também jogou luz sobre as divergências contábeis no reconhecimento de obrigações de direitos de imagem, tema central nas finanças do clube e que passa diretamente pela relação contratual com Neymar. O órgão fiscalizador apontou que, após a formalização de instrumentos de confissão de dívida, os valores devidos aos atletas deixam de ser projeções futuras e passam a constituir passivo exigível obrigatório, devendo ser integralmente contabilizados no balanço entre o circulante e o não circulante.
Para evitar maiores desgastes e blindar o caixa, o Santos fechou um acordo direto com o pai do craque para repactuar o passivo de direitos de imagem junto à NR Sports, empresa da família do jogador, estimado em R$ 90,5 milhões. Como parte da estratégia de saneamento, o clube quitou pouco mais de R$ 11 milhões em julho, reduzindo o montante principal para cerca de R$ 80 milhões. O saldo remanescente foi parcelado em até 80 meses, gerando um desembolso mensal da ordem de R$ 1 milhão.
Mantido o ritmo previsto no cronograma de repactuação, a quitação total do débito se estenderá até meados de 2033, embora o clube tenha prerrogativas contratuais para efetuar novas antecipações de receitas e amortizar o saldo devedor.
Esse compromisso financeiro de longo prazo coroa um momento de transição e incertezas políticas no clube, visto que o vínculo esportivo de Neymar com o Santos se encerra no final de dezembro, mesma data em que expira o mandato do atual presidente, Marcelo Teixeira, em meio a articulações de oposição de olho nas urnas da Vila Belmiro.