Bruna Simões, CEO da Thunder Games (Divulgação)
Repórter
Publicado em 12 de outubro de 2026 às 12h00.
A Thunder Games, estúdio brasileiro de desenvolvimento de jogos, pretende abrir ao público até o fim de 2027 o Wedgetail, título para PC que combina combates entre aviões com mecânicas de hero shooters, jogos de tiro nos quais cada personagem possui armas e habilidades próprias. O projeto prevê distribuição pela Steam, mas o modelo de cobrança e a estratégia de lançamento ainda estão em avaliação.
A aposta é desenvolver um jogo capaz de atrair tanto quem busca partidas entre amigos quanto jogadores interessados no cenário competitivo. Para financiar essa ambição, o estúdio combina o desenvolvimento de sua propriedade intelectual com projetos de gamificação para empresas.
Apresentado ao público na Brasil Game Show (BGS) de 2025, Wedgetail já permite disputar partidas multiplayer e passa por ajustes a partir das avaliações dos participantes. Segundo Bruna Simões, CEO da Thunder Games, o produto está em aproximadamente 40% do desenvolvimento — uma conta que inclui, além da jogabilidade, sistemas como passe de batalha, itens de personalização e mecanismos de proteção contra trapaças.
A proposta é transferir para as aeronaves a lógica das habilidades específicas dos personagens. Cada avião terá recursos de ataque, defesa ou suporte, como disparos de precisão, barreiras de energia e ações para auxiliar aliados ou interferir nas estratégias dos adversários.
“Temos desenvolvido o nosso próprio jogo e-sports com o objetivo de criar um conceito inovador de jogabilidade ao unir os tradicionais hero shooters com aviões. É um jogo que simula o combate aéreo e que testa habilidades e estratégia”, afirma.
Apesar da previsão para 2027, a executiva diz que a empresa poderá ampliar o período de testes antes de fazer um lançamento de maior escala. A prioridade é entender se os jogadores retornam ao título e se a operação pode se sustentar financeiramente.
“Se a gente vir que ano que vem ainda não é o momento de lançamento, que tem que continuar polindo e construindo mais comunidade, quem estiver com a gente vai poder jogar. Mas a gente não precisa fazer um grande lançamento ainda”, diz.
Antes das partidas, os jogadores escolherão suas aeronaves e os cenários de combate. As batalhas ocorrerão em paisagens futuristas, com mudanças climáticas durante as disputas e objetivos que variam conforme o mapa.
Entre os modos previstos estão Captura de Ponto e Mata-Mata. O jogo também terá disputas por pontos de controle rotativos e missões de maestria de pilotos, destinadas ao aprimoramento das habilidades dos participantes.
As funções das aeronaves permitirão diferentes estratégias, como liderar ataques, preparar emboscadas ou apoiar integrantes da equipe. O projeto prevê pilotos de diferentes nacionalidades e a possibilidade de desbloquear personagens, aviões e skins, itens que alteram a aparência dos elementos do jogo, a cada temporada.
Embora tenha a aviação como tema, Wedgetail segue uma proposta arcade, com foco em ação e diversão. A referência de público está em títulos como Rocket League, Fortnite e outros jogos de partidas competitivas.
O mercado prioritário, segundo Bruna, será o de adolescentes e jovens adultos que já jogam no Brasil. Comunidades de interessados em aviação também poderão ajudar na divulgação, mas o foco inicial está nos jogadores familiarizados com esse gênero.
“O foco é muito mais no competitivo, num jogo dinâmico, multiplayer, que dá para jogar com seus amigos, um jogo mais frenético”, afirma.
Na apresentação durante a BGS de 2025, a Thunder montou um estande de 30 metros quadrados na área dedicada aos desenvolvedores independentes. O espaço tinha oito computadores para partidas entre duas equipes de quatro jogadores, além de uma televisão para o público acompanhar as disputas.
Segundo Bruna, a participação de jogadores profissionais e semiprofissionais ajudou a revelar possibilidades competitivas que a própria equipe ainda não havia observado.
“A gente conheceu um novo jogo dentro do nosso próprio jogo. Por serem profissionais e não precisarem de muitas dicas de como jogar, eles fizeram partidas muito acirradas”, diz.
A experiência também serviu para identificar dificuldades de compreensão e orientar mudanças em habilidades, movimentação, cores e acessibilidade. Para a executiva, a recepção no evento deu segurança para continuar investindo, mas ainda não responde à principal pergunta sobre o futuro do produto: quantas pessoas voltarão a jogar por iniciativa própria?
“Uma coisa é gostar no momento, outra coisa é voltar”, afirma.
O estúdio já realiza sessões de testes com integrantes da comunidade, com intervalos que variam entre quinze dias e um mês. A intenção é ampliar os convites e distribuir chaves de acesso pela Steam para observar o comportamento dos jogadores ao longo do tempo.
O universo do jogo se passa em 2084, quando uma névoa tóxica tornou grande parte das áreas baixas das cidades praticamente inabitável. Na narrativa, megacorporações construíram estruturas aéreas e formaram equipes de pilotos.
Sete dessas corporações organizam o Torneio Wedgetail, competição que reúne batalhas, corridas, missões de resgate e operações aéreas. Nesse mundo, conquistar o título de Wedgetail representa obter prestígio e cidadania.
Um dos cenários, chamado Chronicler Network, apresenta uma releitura de São Paulo. O Aeroporto de Congonhas funciona como centro de operações de uma megacorporação comandada por inteligência artificial.
A ambientação combina construções reconhecíveis da capital paulista com luzes de néon, cabos de fibra óptica e névoa tóxica. O bairro da Liberdade também aparece em uma versão futurista.
A direção visual utiliza referências de ficção científica e do retrofuturismo, estética que combina visões do futuro com elementos do passado. Os combates incluem explosões, perseguições e manobras aéreas.
Embora o projeto tenha sido apresentado como gratuito, Bruna afirma que a decisão sobre adotar o modelo free-to-play ainda depende dos testes. Nesse formato, o jogador acessa o título sem pagar, e a empresa precisa encontrar receitas capazes de cobrir os custos da operação.
A avaliação inclui o interesse do público por compras dentro do jogo e as despesas para manter os servidores. A existência de skins e de um passe de batalha no planejamento não significa que os preços ou as regras de monetização estejam definidos.
“Se o público não gastar o suficiente para cobrir o que o jogo custa, não é nem para produção, é para ele ficar online, a empresa simplesmente tem que desligar o serviço do jogo”, diz.
A Thunder ainda não tem projeção de faturamento para Wedgetail. Segundo a CEO, essa estimativa dependerá do modelo escolhido, do comportamento dos jogadores e dos mercados em que o título será lançado.
“Enquanto a gente não fizer os testes e entender o quanto o público compra e tem interesse, não consegue ter uma projeção”, afirma.
O desenvolvimento começou com recursos de um investidor brasileiro. Antes do lançamento, a empresa poderá buscar um segundo investidor ou uma publisher, companhia que pode apoiar a publicação e a distribuição do jogo. A necessidade de uma nova parceria dependerá, entre outros fatores, da decisão sobre a gratuidade.
O orçamento completo ainda será dividido por etapas. Para a participação planejada na BGS de 2027, com um estande de pelo menos o dobro do tamanho do anterior, Bruna estima um gasto de no mínimo R$ 200 mil.
Para medir o desempenho do jogo, a Thunder pretende acompanhar a permanência dos usuários depois do interesse inicial. Bruna considera um bom resultado manter entre 25% e 30% dos primeiros jogadores em uma rotina consistente, com duas a três sessões e cerca de cinco horas de jogo por semana.
A intenção é começar com uma base de aproximadamente mil usuários ativos e ampliá-la gradualmente. Em um jogo multiplayer, essa continuidade também é necessária para que os participantes encontrem adversários sem longas esperas.
“A gente não precisa de um número astronômico. Precisa de um número de pessoas que tenham solidez no jogo”, afirma.
A transformação de Wedgetail em um e-sport é uma ambição de prazo mais longo. A executiva relata conversas com equipes interessadas no projeto, mas diz que estruturar esse cenário exige regras claras, segurança, calendário de eventos, premiações e recursos para sustentar as competições.
Parte da receita do jogo poderá financiar essa estrutura no futuro. Bruna, porém, não estima um horizonte inferior a cinco anos para concretizar essa ambição.
“Para chegar nesse objetivo, o jogo precisa ter público, ter interesse, ser divertido”, diz. “É uma visão de longo prazo mesmo.”
Além de Wedgetail, a Thunder Games atua na criação de experiências gamificadas, que utilizam elementos de jogos em ações de comunicação de empresas. O estúdio tem projetos para marcas como Walmart, Brasilprev e Terra Brasil Minerals.
Fundada em 2019, a companhia começou com a proposta de desenvolver um jogo com tecnologia blockchain, mas abandonou esse caminho após avaliar que o mercado e a integração tecnológica ainda não estavam maduros.
Entre 2022 e 2023, passou a explorar oportunidades de desenvolvimento dentro de Fortnite e Roblox. Esse movimento abriu espaço para atender marcas, inicialmente em parceria com agências, e criar uma fonte de receita além dos recursos do investidor.
“No primeiro ano, a gente direcionou todos os recursos de projetos externos para o Wedgetail, porque o nosso foco estava realmente nisso”, afirma Bruna.
Nos últimos dois anos, a empresa passou a separar o planejamento das duas frentes para manter a operação de serviços independentemente do desempenho do jogo. Hoje, ambas estão no mesmo CNPJ, mas uma separação jurídica está em estudo.
“Se, porventura, o investidor não continuar ou acontecer qualquer coisa, a Thunder continua desenvolvendo projetos para marcas de forma independente”, diz.
A expansão dos serviços inclui jogos de navegador e ferramentas que permitem desenvolver experiências fora de Fortnite e Roblox. A empresa chama essa frente de Playable Marketing, ou marketing jogável.
Entre os projetos em desenvolvimento está um software voltado a construtoras, com a proposta de transformar a apresentação de um condomínio em uma experiência de jogo, além da visita virtual.
A Thunder também busca criar campanhas associadas a espaços físicos, como shoppings, supermercados e hotéis. Segundo Bruna, há projetos em negociação, mas os clientes ainda não podem ser divulgados.
“A ideia é ser uma das grandes agências do Brasil de gamificação, de marketing que dê para o usuário de fato jogar, que o cliente do nosso cliente se divirta com campanhas, principalmente em espaços físicos”, afirma.
Com essa frente, a empresa pretende ampliar as receitas de serviços enquanto desenvolve Wedgetail e testa as condições para sustentar um jogo próprio ao longo do tempo.