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Como o Batman lançado há 60 anos salvou o personagem do fracasso

O seriado chegou ao Brasil com dublagem do famoso estúdio AIC-SP

Adam West e Burt Ward imortalizaram os personagens na TV

Adam West e Burt Ward imortalizaram os personagens na TV

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 06h24.

Última atualização em 24 de janeiro de 2026 às 12h36.

Quando estreou em janeiro de 1966 pela rede americana ABC, o seriado Batman parecia destinado ao fracasso. Os testes de audiência foram desastrosos: o público não compreendia a proposta de uma série de super-herói que abraçava o exagero e o humor.

O Homem-Morcego, criado em 1939 por Bill Finger e Bob Kane, sempre foi associado a cores escuras, comportamento mais reflexivo, quase um detetive noir nas páginas de quadrinhos. Mas, a produção televisiva mostrava um herói completamente diferente disso.

A emissora decidiu seguir em frente e o resultado foi surpreendente: em pouco tempo, Batman tornou-se um fenômeno cultural, consolidando Adam West (Batman) e Burt Ward (Robin) como ícones da televisão.

A série criada por William Dozier apresentou uma estética única: cores vibrantes, vilões caricatos e diálogos recheados de ironia. Essa abordagem, longe de enfraquecer o personagem, ajudou a popularizá-lo em uma época em que os quadrinhos enfrentavam críticas e censura nos EUA. 

Do ponto de vista histórico, o seriado de 1966 foi crucial. Ele fixou elementos visuais e narrativos que se tornaram parte da identidade do herói, como a Batcaverna cheia de gadgets, o Batmóvel estilizado e o famoso “POW!”, “BAM!”, “ZAP!” onomatopeias que apareciam nas cenas de luta. 

Burgess Meredith como Pinguim, Cesar Romero como Coringa e Adam West como Bruce Wayne/Batman (Getty Images)

O seriado também abriu caminho para que futuras adaptações de Batman explorassem diferentes tons — do humor ao realismo sombrio — sem perder a essência do personagem.

A famosa trilha de abertura rendeu ao criador Neal Hefti o Grammy em 1967 por Melhor Composição Instrumental para TV.

Participações de atores famosos no seriado

Um dos grandes atrativos da série foi a presença de atores renomados interpretando vilões e personagens secundários. Entre os destaques:

  • Cesar Romero como o Coringa, cuja risada se tornou marca registrada.
  • Burgess Meredith como o Pinguim, com seu característico “quack” e guarda-chuva multifuncional.
  • Frank Gorshin como o Charada, trazendo teatralidade ao papel. Quem também interpretou o personagem foi John Astin (o Gomez do seriado Família Addams)
  • Julie Newmar e posteriormente Eartha Kitt como a Mulher-Gato
  • Yvonne Craig como Batgirl, que ampliou a representatividade feminina na série.
  • Anne Baxter como as sensuais vilãs Olga e Zelda
  • George Sanders como Sr. Gelo - Sanders foi vencedor do Oscar por A Malvada
  • Vincent Price, lenda dos filmes de terror, como Cabeça de Ovo
  • Zsa Zsa Gabor como Minerva

Santa escalada, Batman

Entre outros aspectos, o seriado ficou famoso pelas cenas em que a dupla dinâmica escalava um prédio para chegar ao esconderijo do vilão. Em muitas delas, Batman e Robin tiveram encontros na janela com famosos da época, como o humorista Jerry Lewis e o cantor/ator Sammy Davis Jr.

Segundo Jorge Ventura, autor do livro Sock!!, Pow!! Crash!, foram 14 participações especiais ao todo.

Quem também fez uma "ponta" na série foi Bruce Lee como Kato, auxiliar do Besouro Verde, num crossover para impulsionar a série daquele herói, produzida por William Dozier.

Crise nos quadrinhos

Nos anos 1950 e início dos 1960, os quadrinhos de super-heróis viviam um período difícil. O Comics Code Authority, criado em 1954, impôs regras rígidas que limitaram temas sombrios e violentos para os leitores. O Batman, que havia se consolidado como um vigilante urbano sombrio nas décadas anteriores, perdeu força: suas histórias tornaram-se mais leves, quase infantis, e as vendas caíram. Havia até especulações de que o personagem poderia ser descontinuado pela DC Comics.

Foi nesse contexto que surgiu o seriado exibido entre 1966 e 1968 pela ABC. A produção que durou três temporadas apostou em cores vibrantes (pegando onda no momento cultural dos EUA) e humorística.

Embora bem diferente do tom original dos quadrinhos, essa abordagem recolocou o personagem no centro da cultura pop, atraindo milhões de espectadores e criando uma nova geração de fãs.

Jorge Ventura, autor do livro Sock!!, Pow!! Crash!, classificou a década de 60 como a dos 3Bs: Beatles, Bond (do agente secreto 007) e Batman.

O batmóvel mais famoso das telas foi um Lincoln 1955 modificado (Getty Images)

Impactos diretos nos quadrinhos e além

  • Aumento das vendas: O sucesso da série impulsionou a procura pelos gibis, garantindo fôlego financeiro à DC Comics.
  • Revalorização dos vilões: personagens como o Charada, que estavam esquecidos, ganharam destaque graças às interpretações televisivas — como a de Frank Gorshin, que inclusive rendeu indicação ao Emmy.
  • Expansão do universo: A série popularizou elementos como Batgirl e a Mulher-Gato, que passaram a ter maior relevância também nas HQs.
  • Sobrevivência da marca: sem o seriado, é provável que o Batman tivesse perdido espaço para outros heróis da época. A televisão garantiu que o personagem permanecesse vivo até sua reinvenção mais sombria nos anos 1970 e 1980.
  • A série desencadeou um verdadeiro movimento cultural conhecido como "Batmania", que impulsionou vendas de produtos em larga escala

A indústria em torno da Batmania

O fórum especializado The 1966 Batman Message Board, baseado em dados compilados por pesquisadores de TV, aponta os episódios com melhores índices de audiência do seriado:

  • "Ring of Wax" (da 1ª temporada)
  • "Batman’s Anniversary" (2ª temporada) alcançou 20.7 de rating e 34.9 de share

Tendência do desempenho

Os dados do fórum também mostram uma queda acentuada de audiência ao longo do tempo — um fenômeno mencionado no mesmo estudo, que cita episódios chegando a índices mais baixos, como 12.4 de rating.

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Mesmo com essa queda, a série conseguiu chegar aos 120 episódios ao longo de três temporadas.

Impacto financeiro

Embora não existam dados públicos completos sobre a receita obtida durante a transmissão original (1966–1968), é possível ter uma dimensão do impacto financeiro posterior do seriado, especialmente em vendas domésticas de DVDs e afins.

Receita com vendas de DVD e Blu-ray

Segundo The Numbers, o relançamento da série como Batman: The Complete Television Series (1966–68) gerou:

  • US$ 171.362.749 em vendas domésticas de DVD e Blu-ray.

Esse valor é bastante significativo considerando que se refere apenas ao mercado doméstico dos EUA e representa receitas de mídia física décadas após a exibição original.

Batman no Brasil

Primeiras transmissões e dublagem brasileira

O seriado chegou ao Brasil com dublagem do famoso estúdio AIC-SP, responsável pelas duas primeiras temporadas - e são as que ficaram na memória do público, que deve lembrar quando Robin dizia "santa" alguma coisa e logo emendava o nome do Homem-Morcego. Ou quando ao final de cada episódio havia o aviso para um encontro com o espectador na "mesma bat-hora e no mesmo bat-canal". Gervásio Marques e Rodney Gomes eram os dubladores de Batman e Robin, respectivamente.

Em meados de 66, quando a Fox já estava produzindo o longa-metragem do personagem, a então TV Paulista, Canal 5 (que seria comprado pela Globo), estreava o seriado do Homem-Morcego em preto-e-branco com transmissões nas noites de terças e quartas, segundo informações do livro de Jorge Ventura.

A terceira temporada do seriado foi dublada no Rio de Janeiro pelo estúdio TV Cine-Som. A mudança nas vozes, agora com Celso Vasconcellos (Batman) e Henrique Ogalla (Robin) causou estranheza no público, acompanhando já o desgaste de público que o seriado enfrentava nos EUA.

No Brasil, depois da Globo, Batman foi exibido ao longo das décadas por TV Rio, SBT, Record e. Bandeirantes. Em 2020, a série voltou ao ar pela Rede Brasil de Televisão.

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