O setor automotivo vive de margem apertada, pressão por escala e tolerância zero a falhas. Basta um evento climático para transformar estoques inteiros em prejuízo. Foi nesse tipo de cenário — imprevisível, técnico e global — que um brasileiro construiu uma carreira improvável.
Nos anos 1990, Herivelto Malosti era chefe de bingo em Curitiba. Ganhava até R$ 20 mil por mês, trabalhava de terno e circulava entre empresários e figuras influentes da cidade. Hoje, lidera uma empresa especializada em martelinho de ouro, técnica de reparo automotivo sem repintura, com operações em vários países e faturamento anual próximo de R$ 10 milhões.
Contamos essa história agora porque ela ajuda a explicar como uma profissão técnica, pouco valorizada no Brasil por décadas, virou ativo estratégico para montadoras e concessionárias no mundo todo — e como conhecimento especializado pode atravessar crises regulatórias, mudanças climáticas e ciclos econômicos.
“Você vai trocar uma função por uma profissão, e a profissão ninguém tira de você”, diz Malosti. Foi essa frase que o convenceu a aceitar ganhar R$ 500 por mês para começar do zero.
O próximo passo, segundo ele, é ampliar o impacto. Mais formação, mais profissionais qualificados e menos dependência de improviso em um mercado que não aceita erro.
Do bingo ao martelinho
A virada começou quando o dono do bingo onde trabalhava decidiu investir em um negócio emergente importado dos Estados Unidos: a The Dent Wizard, referência no método Paintless Dent Repair (PDR), técnica que remove amassados sem danificar a pintura original.
Herivelto foi convidado a aprender o método e chefiar a oficina. O salto para trás era evidente. “O risco era gigante, além do status”, diz. “Eu trabalhava de terno e gravata, conhecia várias pessoas influentes da cidade. Trocar o glamour dos bingos por um trabalho com esforço físico, mãos sujas e um carro por vez não foi nada fácil.”
Poucos anos depois, os bingos seriam proibidos no Brasil. Milhares ficaram sem trabalho. Ele, não. Já tinha uma profissão.
A técnica que virou diferencial global
Treinado diretamente por Natalio Balderrama, fundador da The Dent Wizard, Malosti se especializou em um momento em que o PDR ainda era desconhecido no país. A técnica ganharia escala global justamente quando eventos climáticos extremos — como chuvas de granizo — começaram a gerar prejuízos bilionários para montadoras e seguradoras.
“Não era só desamassar carro. Era um trabalho de precisão, quase uma arte”, afirma.
Em 1996, veio o primeiro convite internacional, para a Grécia. Depois, outros países. Ao todo, quase 30. Ele liderou equipes em mutirões pós-granizo e prestou serviços para montadoras como Ford, BMW, Mercedes e Volkswagen.
“É como uma cirurgia”, diz. “Se for com pressa, estraga. Se for com calma demais, não anda.”
Quando a qualidade virou decisão estratégica
Um dos momentos mais críticos da carreira veio em um projeto no Brasil: a recuperação de 8 mil carros atingidos por granizo em uma montadora. A pressão era por volume e velocidade. Ele fez o oposto.
“Eu tive que ir contra tudo isso em prol da qualidade absoluta”, afirma. “Desacelerei a produção, mesmo com risco de não cumprir o prazo.”
O prazo foi cumprido. Nenhuma reclamação. O projeto recebeu o prêmio de melhor do ano da marca em nível mundial.
Esse tipo de decisão consolidou sua reputação técnica e abriu espaço para algo maior que o trabalho operacional.
De técnico a formador de profissionais
A virada para o empreendedorismo aconteceu em 2003, durante uma operação na Grécia. “Percebi que o mundo precisava de mais profissionais de martelinho e que esses profissionais precisavam de direcionamento”, diz.
Ele estruturou um método próprio, transformando um conhecimento artesanal em processo replicável. Criou canal no YouTube, escreveu dois ebooks, publicou o livro Profissão Martelinho Granizo – o Trabalho que Cai do Céu, lançou cursos online e práticos e prepara um aplicativo.
O desafio, segundo ele, foi linguagem. “Transformar nossa linguagem diária em algo fácil para iniciantes.” Há um cuidado especial com alunos sem experiência prévia. “Eles não têm vícios de oficina. Muitas vezes trazem soluções que eu ainda não tinha visto.”
Homologação, escala e faturamento
A técnica ganhou o mundo. Hoje, a empresa fundada por ele, a ARAL H. M., atua no Brasil, Estados Unidos, Itália, Alemanha e África do Sul, com matriz europeia na Itália. É homologada por montadoras — um selo técnico que permite que carros reparados ainda sejam vendidos como zero quilômetro — e é a única brasileira com certificação ISO 9001 em PDR.
“Quando a empresa é homologada, o reparo segue o padrão de fábrica”, diz. “Sem isso, o carro perde valor, mesmo sem ter rodado.”
Malosti também é juiz da PDR Nation e possui certificações internacionais, incluindo a ARC, no Tennessee. Participa como jurado em eventos globais da modalidade.
O resultado financeiro acompanha a expansão. A empresa fatura cerca de R$ 10 milhões por ano.
O que ainda pesa — e o que vem pela frente
O principal custo pessoal da trajetória foi o tempo longe de casa. “Já fiquei 2, 3, até 4 meses fora da família”, diz.
Para quem está começando, o conselho é direto: agir antes do cenário ideal. “Nunca espere o momento 100% perfeito. Esse momento não chega.”
Os próximos passos seguem na mesma direção: formação. “Continuar transformando vidas através do treinamento profissional”, afirma. “Capacitar pessoas para controlar seu tempo, onde querem estar e quanto querem ganhar.”
Mais do que reparar carros, ele diz estar construindo algo maior. “Enquanto eu puder ensinar e levar a técnica brasileira para o mundo, é isso que vou continuar fazendo.”

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