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Com tema 'São Paulo não dorme', Baixo Augusta mira público recorde de 1,5 milhão

Bloco pioneiro do Carnaval paulistano leva Péricles, Rom Santana e KLJAY à Rua da Consolação neste domingo, 8

Baixo Augusta: ensaio do bloco de Carnaval ocorrido no dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, já revelou como será a dinâmica do desfile deste ano (Acadêmicos do Baixo Augusta/Divulgação)

Baixo Augusta: ensaio do bloco de Carnaval ocorrido no dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, já revelou como será a dinâmica do desfile deste ano (Acadêmicos do Baixo Augusta/Divulgação)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 17h00.

A Rua da Consolação irá ferver neste domingo, 8. O endereço boêmio paulistano receberá dois megablocos de Carnaval. O estreante Bloco Skol com Calvin Harris e o tradicional desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta, responsável por atrair ano após ano os maiores públicos da capital paulista, que variam entre 800 mil e 1,2 milhão.

A expectativa do Baixo Augusta para 2026 é bater seus próprios recordes com 1,5 milhão de foliões acompanhando o bloco de Carnaval.

Natural da região da Consolação, o grupo honrará as suas próprias raízes com o tema do ano: "São Paulo não dorme". Na opinião do membro fundador e co-diretor do bloco Alê Youssef, esse é “o tema mais aderente que a gente fez desde 2018". Naquele ano, o tema "é proibido proibir" fez o bloco bater seu recorde histórico de público com 1,38 milhão de pessoas na rua.

“Tem a ver com o espírito do tempo, com a defesa da noite da cidade e com a identidade de bairros inteiros que vivem da madrugada”, afirma Youssef à EXAME. Segundo ele, o desfile de 2026 assume um caráter semelhante a um manifesto. “Existe uma tentativa constante de higienizar a noite, de restringir horários, de expulsar a cultura noturna. Nosso desfile é uma resposta clara a isso. A cidade pulsa 24 horas por dia, e isso é riqueza, não problema.”

Apresentações de Péricles, KLJAY e Rom Santana

Diferentemente de diversos megablocos da cidade, como o Bloco da Pabllo e o Bloco da Lexa, o Acadêmicos do Baixo Augusta não tem como ponto focal a apresentação de um grande artista musical. Os nomes que sobem nos trios elétricos mudam anualmente, buscando seguir a temática escolhida para o desfile.

Neste ano, o desfile será recheado por grandes atrações musicais como Péricles, KLJAY, Rael, Tassia Reis, Rom Santana, Dani Viegas e Simoninha, além da participação do bloco Charanga do França.

Line-up de peso: Rom Santana (centro) se junta a outros grandes nomes no desfile de 2026 do Baixo Augusta, organizado por Alê Youssef (esquerda) e Alê Natacci (direita) (Acadêmicos do Baixo Augusta/Divulgação)

Youssef acredita que o line-up dialoga diretamente com o crescimento do público. “A escolha de atrações como o Péricles, que liderou a maior banda de samba de São Paulo, e o KLJAY, DJ dos Racionais, aumenta muito essa adesão”, diz.

Ele ressalta, porém, que a música funciona como meio, não como fim. “O artista vem somar a um discurso que já existe. O público não vem só pelo show, vem porque se reconhece nesse projeto.”

Além das atrações, o bloco conta com um elenco estrelado na organização e promoção do desfile.

Thelma Assis: médica, apresentadora e campeã do BBB 20, Thelminha será pelo terceiro ano a Diva do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta (Acadêmicos do Baixo Augusta/Divulgação)

O desfile terá a atriz Alessandra Negrini como rainha, a cantora Tulipa Ruiz como madrinha, a apresentadora Thelma Assis como diva, a atriz Marcia Dailyn como musa e o estilista Walerio Araújo como muso, além do escritor Marcelo Rubens Paiva como porta-estandarte.

Diva do desfile, Thelma conta à EXAME que o bloco representa uma ocupação afetiva da cidade. A apresentadora, médica e campeã do Big Brother Brasil 2020 frequenta o Baixo Augusta desde 2018.

“Esse bloco é sobre pertencimento. É sobre entender que a rua também é nossa, em todos os horários”, diz. “Defender a noite é defender quem vive dela, quem trabalha, quem cria, quem se expressa. O Carnaval de rua é um dos poucos momentos em que São Paulo se encontra de verdade.”

Baixo Augusta e a retomada do Carnaval paulistano

A criação do Acadêmicos do Baixo Augusta coincide com um momento de efervescência no bairro que deu nome ao bloco. Nascido em 2009, ele foi um dos pioneiros no esforço de retomada do Carnaval de rua paulistano.

Juntamente com agremiações como o Bloco Pagu, Explode Coração e Tarado Ni Você, houve um esforço consciente e coletivo em ocupar as ruas da capital.

Primeiro desfile oficial: em 2014, no primeiro Carnaval de rua oficializado pela Prefeitura de São Paulo, o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta lotou a Praça Roosevelt (Wikimedia Commons)

Youssef conta que foi um processo turbulento no início, com embates diretos com o poder público, prisões simbólicas e negociações improvisadas. “São Paulo sempre teve Carnaval de rua, desde a Banda da Barra Funda em 1914. Isso foi invisibilizado por décadas”, afirma o fundador.

Em 2009, no primeiro desfile do Baixo Augusta, cerca de 5 mil pessoas acompanharam o bloco, mesmo sem autorização formal para ocupar a rua. “A primeira autorização que tivemos apenas nos permitia desfilar pelas calçadas”, relembra Youssef. “Mesmo assim, a rua foi tomada, porque havia um desejo claro das pessoas. O Carnaval estava reprimido na cidade.”

“O Carnaval de rua devolveu a cidade para as pessoas", diz Thelma. "Hoje parece óbvio, mas não era. Houve muita resistência, e o Baixo Augusta foi central nesse processo."

A explosão do Carnaval paulistano: de 1 milhão para 9 milhões em apenas quatro anos

A adesão do público aos festejos de rua foi construída com o tempo, mas claramente estourou no final da década passada.

Em 2014, os desfiles de blocos de rua ocorreram pela primeira vez de maneira oficializada pelo poder público. Com público de 1 milhão, o Carnaval de Rua de São Paulo "deixou a clandestinidade e mudou o perfil da festa na capital", disse na época a Prefeitura em nota.

No ano seguinte, o crescimento foi de 50%, com 1,5 milhão de foliões nas ruas. Em 2016 e 2017, o número ficou por volta dos 2 milhões. A explosão de fato ocorreu em 2018: o público do Carnaval de Rua de São Paulo chegou aos 9 milhões.

Esse Carnaval foi especialmente relevante na história do Acadêmicos do Baixo Augusta, que naquele ano realizou seu maior desfile e consolidou-se como o maior bloco da cidade.

'É proibido proibir': desfile de 2018 levou 1,38 milhão de foliões às ruas da região central de São Paulo (Wikimedia Commons)

“Foi quando a cidade entendeu que o Carnaval de rua tinha vindo para ficar”, afirma Youssef.

Desde 2020, o público das comemorações nas ruas paulistanas não fica abaixo de 15 milhões. 2025 bateu o recorde, com um público estimado em 16 milhões.

Os desafios do novo Carnaval

Para Thelma, o desafio agora é preservar o sentido coletivo da festa. “Quanto maior fica, mais importante é cuidar do que ela representa. O Carnaval não pode virar só número. Ele é encontro, diversidade e memória.”

“É bonito ver São Paulo virar referência nacional, mas isso precisa de modelo”, diz Youssef. Ele acredita que o formato atual não se sustenta no longo prazo. “Hoje temos mais de 600 blocos anunciados, mas muitos não vão conseguir sair. Sem mudança no modelo de patrocínio e fomento, o Carnaval corre o risco de encolher por dentro, mesmo crescendo por fora.”

O diretor do bloco afirma que o Baixo Augusta segue existindo devido ao projeto sólido de gestão e de uma rede forte de apoio, "nem todos os blocos têm essa condição.”

Para ele, a defesa da noite e do Carnaval de rua caminham juntas. “Enquanto houver gente querendo ocupar a rua com alegria, diversidade e liberdade, o Baixo Augusta vai estar lá. São Paulo não dorme — e a gente também não.”

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