Tomás Martins, cofundador da Tembici: no primeiro ano, ideia é levar de 5.000 para mais de 40.000 bicicletas (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de Negócios
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 08h02.
As bicicletas elétricas ganharam espaço nas cidades brasileiras nos últimos anos, puxadas pelo avanço das ciclovias, pelo trabalho de entregadores de aplicativo e pela busca por alternativas para trajetos curtos. O mercado saiu de 7.200 unidades novas em 2017 para 53.600 em 2024, segundo o Instituto Aliança Bike.
A Tembici quer acelerar esse movimento.
A operadora de bicicletas compartilhadas recebeu aprovação para um financiamento de 340 milhões de reais do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, para comprar até 85.000 bicicletas elétricas até 2031. Metade deve ser adquirida entre 2026 e 2027.
O dinheiro marca uma nova fase da companhia justamente depois de uma tentativa anterior de eletrificação ter esbarrado em problemas de produto, manutenção e custo.
A diferença agora está no destino de boa parte da nova frota: entregadores de comida por aplicativo, um negócio que a Tembici começou a testar nos últimos anos e que pretende levar de 5.000 para mais de 40.000 bicicletas.
“Acertamos na tendência, erramos no timing e aprendemos com o modelo de negócio”, diz Tomás Martins, cofundador da Tembici.
Até o fim de 2026, a empresa prevê ter 37.000 bicicletas nas ruas considerando suas diferentes operações.
Faturou 250 milhões de reais em 2025, projeta mais de 300 milhões de reais nos próximos 12 meses e opera com margem Ebitda, indicador de geração operacional de caixa, de 40%. A nova leva de elétricas será uma das principais apostas para sustentar esse crescimento.
Parte das bicicletas financiadas pelo BNDES entrará nos sistemas tradicionais de compartilhamento da Tembici. É o modelo encontrado em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Bogotá, no qual o usuário retira o equipamento em uma estação e paga pelo uso.
Mas a cicloentrega deve absorver uma parcela relevante da expansão.
Nesse modelo, desenvolvido em parceria com o iFood, o entregador aluga uma bicicleta elétrica por cerca de 90 reais por semana. O contrato pode ser renovado, e o profissional fica com o mesmo equipamento durante o período contratado, em vez de depender das bicicletas disponíveis nas estações.
Hoje, são 5.000 bicicletas elétricas destinadas a entregadores em sete cidades. Em 2024, eram 2.000. Com a nova expansão, a empresa pretende superar 40.000 unidades nessa operação.
“Ao ampliar o acesso às bicicletas elétricas, estamos criando condições para que milhares de entregadores possam aumentar sua capacidade de gerar renda, com mais autonomia, eficiência e menor custo operacional”, diz Luana Ozemela, vice-presidente de impacto e sustentabilidade do iFood.
A tese é que a bicicleta elétrica resolve uma conta específica para esse público. Ela exige menos esforço físico do que um modelo convencional, pode ser usada durante mais horas do dia e dispensa habilitação.
Para a Tembici, o contrato semanal também muda a lógica econômica do ativo. Em vez de depender de várias viagens curtas de consumidores diferentes, a bicicleta permanece alugada por períodos maiores para um único usuário.
A empresa já fez uma grande aposta nesse mercado antes. E teve problemas.
Em 2021, a Tembici captou 80 milhões de dólares para acelerar sua entrada nas bicicletas elétricas. Naquele momento, porém, utilizava praticamente o mesmo produto para públicos com necessidades diferentes.
As bicicletas encomendadas enfrentaram atrasos durante a crise global de suprimentos e apresentaram problemas de manutenção. O desenho também não estava preparado para o uso intenso dos entregadores.
A consequência foi aumento da depreciação, custo elevado de oficina e menos bicicletas disponíveis para locação. Em algumas cidades, a Tembici chegou a retirar modelos elétricos de circulação.
Quando os juros subiram e o capital ficou mais caro, em 2024, a empresa reduziu o ritmo de expansão.
A reorganização posterior separou o negócio de mobilidade urbana da operação voltada aos entregadores. Cada frente passou a ter produto e modelo comercial próprios.
Também houve uma mudança na manutenção. Com apoio da consultoria Heartman House, a empresa criou o World Class Bike, programa inspirado em métodos industriais de produção e manutenção, para medir defeitos, tempo de reparo e produtividade das oficinas.
Segundo a companhia, as mudanças aumentaram em 30% a disponibilidade das bicicletas com a mesma frota.
A nova fase ainda carrega um desafio conhecido pela Tembici: bicicleta compartilhada é um negócio que exige muito capital.
Cada nova cidade ou ampliação de operação demanda compra de equipamentos, manutenção, logística e, no caso dos sistemas tradicionais, estações. Quando os juros sobem, financiar essa expansão fica mais caro.
Por isso, o crédito aprovado pelo BNDES tem peso na estratégia. O financiamento está ligado ao Fundo Clima, instrumento de financiamento voltado a projetos associados à redução de emissões e à transição para uma economia de baixo carbono.
A expansão também ocorre num momento de crescimento do mercado. Depois das 53.600 bicicletas elétricas novas registradas em 2024, o Instituto Aliança Bike estima que o Brasil tenha chegado a 76.000 unidades em 2025.
“Ela traz para a bicicleta pessoas que não têm preparo físico para fazer o deslocamento”, afirma Sérgio Avelleda, especialista em mobilidade urbana e cidades inteligentes.
O avanço das ciclovias também ajuda. São Paulo, por exemplo, chegou a 778 quilômetros de infraestrutura destinada à circulação de bicicletas.
A Tembici não estará sozinha nessa corrida.
Os patinetes elétricos, que desapareceram de várias cidades depois da crise das operadoras de micromobilidade de 2019 e 2020, voltaram a ganhar espaço no Brasil.
A Jet, hoje uma das principais empresas do segmento, está presente em mais de 40 municípios e registrou cerca de 12 milhões de viagens em 2025. A Whoosh já investiu 100 milhões de reais no Brasil e contabiliza mais de 1 milhão de usuários ativos.