Após um mês de conflito, guerra no Irã segue sem solução no horizonte (Foto por ATTA KENARE/AFP)
Repórter
Publicado em 28 de março de 2026 às 08h01.
Após semanas de negociações falhas entre os EUA e o Irã em dezembro e janeiro, girando em torno principalmente do programa nuclear iraniano, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques conjuntos na capital, Teerã, no dia 28 de fevereiro. O que resultou disso foi não só uma intensa guerra que já engloba quase todo o Oriente Médio, mas também uma grave crise humanitária e um choque econômico que reverbera por todo o mundo.
Com um mês de conflito no Irã, o cenário político, econômico e militar global mudou drasticamente: o fechamento do estreito de Ormuz causou um choque no mercado de petróleo e em cadeias de produção do mundo todo; ataques em importantes instalações energéticas mergulham o Oriente Médio em uma séria crise humanitária; ataques com mísseis em cidadeslevaram à morte de civis; e o foco americano no Irã alivia pressões sobre Vladimir Putin para buscar a paz na Ucrânia.
Relembre o desdobramento do conflito semana a semana e relembre os principais acontecimentos que tornaram essa guerra uma preocupação para todo o mundo:
O presidente americano, Donald Trump (esquerda), e o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, lançaram ataques conjuntos ao Irã, no dia 28 de fevereiro de 2026. (Divulgação/AFP)
No dia 28 de fevereiro, um sábado, os EUA e Israel conduziram intensos ataques conjuntos em Teerã, capital do Irã, e diversos pontos do país após semanas de diplomacia falha e tensões que não paravam de escalar, principalmente devido aos violentos protestos populares por todo o Irã, cuja brutal repressão foi condenada pelo presidente americano, Donald Trump.
As forças armadas americanas e israelenses buscaram focar seus ataques principalmente em estruturas de comando, alvos militares como armamentos, bases e veículos e instalações de radar.
Na primeira onda de ataques, o então líder supremo Aiatolá Ali Khamenei foi morto juntamente com diversos outros membros do alto escalão do regime iraniano, efetivamente decapitando a liderança do Irã no primeiro dia. A Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC, na sigla em inglês) anunciou, também no primeiro dia, o fechamento do estreito de Ormuz para qualquer embarcação hostil ao Irã.
Ao longo da semana, mísseis também atingiram instalações civis, como uma escola de ensino fundamental para garotas na cidade de Minab, em uma tragédia que custou a vida de 180 civis, em sua maioria jovens meninas. Ainda no primeiro dia, um outro ataque atingiu um ginásio poliesportivo em Lamerd, na costa sul do Irã, matando 20 adolescentes.
Além disso, durante a semana, ataques americanos e israelenses também acabaram danificando seriamente lugares históricos reconhecidos pela Unesco como patrimônios da humanidade, tais como o Palácio de Golestan e o Grande Bazar em Teerã, juntamente com dezenas de negócios civis.
Ataques retaliatórios iranianos em Israel e em países do Golfo que abrigam instalações americanas atingiram navios americanos e cidades em Israel como Haifa e Tel Aviv, matando pelo menos um civil e ferindo 27 outros. Esses ataques retaliatórios também atingiram Dubai, o Aeroporto Internacional do Kuwait, a capital dos Emirados Árabes Unidos, Abu Dhabi, e bases americanas no Iraque. Mesmo assim, a maioria dos mísseis iranianos foram interceptados.
Fumaça e chamas sobem no local dos ataques aéreos a um depósito de petróleo em Teerã, em de março de 2026 (Foto de Sasan / Middle East Images / AFP via Getty Images) (Sasan / Middle East Images / AFP /Getty Images)
Ataques israelenses na noite do dia 7 para o dia 8 de março atingiram, pela primeira vez, instalações petroleiras no Irã, matando quatro pessoas e levantando nuvens negras contaminadas com poluentes tóxicos no que a população subsequentemente descreveu como “chuva preta”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) se pronunciou, alertando que ataques em infraestrutura petrolífera poderiam ter impactos de saúde severos em crianças, idosos e pessoas com condições médicas.
Ainda no dia 8, o novo líder supremo iraniano foi eleito pela Assembleia dos Especialistas, um importante órgão político endêmico ao Irã: subindo ao poder estava Mojtaba Khamenei, filho mais novo do aiatolá morto, que é conhecido por ser linha dura e por ter particular influência com as IRGC. A escolha de Mojtaba Khamenei desafiou ainda mais os EUA e Israel, que seguiram tentando assassinar o novo líder.
Khamenei segue tocando a guerra pelo Irã escondido desde então – Israel clama ter gravemente ferido Mojtaba em uma dessas tentativas.
Na troca de ataques e retaliações durante a semana, mais construções civis, patrimônios da Unesco e até mesmo mesquitas foram atingidos e destruídos no Irã e em demais países do Golfo. A organização humanitária iraniana Red Crescent Society apura que, nas primeiras duas semanas da guerra, 40 mil prédios civis no Irã – dentre esses mais de 10 mil moradias – foram danificados por ataques aéreos, adicionando que a organização recebeu 70 mil ligações de pessoas buscando “suporte para saúde mental e conselhos”.
Fiéis por todo o Oriente Médio celebraram o feriado de Eid sob insegurança e medo (Majid Saeedi/Getty Images)
O começo da semana viu uma intensificação dos ataques em Teerã, com 65% das ondas de bombardeios sendo voltadas especificamente para a capital iraniana. A associação iraniana de direitos humanos Human Rights Activists in Iran (HRANA) reportou 243 ataques apenas no dia 16 e ao menos 66 baixas, das quais 21 foram civis. Alvos incluíram aeroportos internacionais, bases da força aérea iraniana, um prédio do departamento de eletricidade, uma escola, uma planta de dessalinização e 11 prédios residenciais, entre outros.
No mesmo dia, ataques retaliatórios do Irã geraram um incêndio no Aeroporto Internacional de Dubai, que chegou a suspender voos pela manhã, mas a operação foi reinstaurada ao longo do dia.
Além disso, os primeiros dois andares do hotel Royal Tulip Al-Rasheed, em Bagdá, foram atingidos por drones enquanto era sediada no estabelecimento uma conferência entre delegações da União Europeia e da Arábia Saudita. Enquanto nenhum dos lados tomou responsabilidade pelo ataque, mas pela proximidade de um outro ataque numa embaixada americana na cidade, analistas acreditam que o ataque foi conduzido pelo Irã.
No dia 18, véspera do feriado islâmico Eid, o alto comissário de direitos humanos da ONU, Volker Türk, alertou que, devido a ataques em plantas de energia e zonas densamente populadas por todo o Oriente Médio, a maioria da população comemoraria o Eid sob “dificuldades, incertezas e medo”.
O escritório do alto comissário emitiu um comunicado dizendo que civis enfrentariam interrupções na oferta de energia, além de escassez de remédios, comida para bebês e combustíveis, conforme complexos habitacionais, hospitais e demais postos de saúde, lojas, tribunais, patrimônios mundiais da Unesco, instalações de energia e até 500 escolas foram atingidas por mísseis americanos no Irã.
Ao mesmo tempo, a ONU entende que o regime iraniano continuou a repressão contra seus cidadãos, com prisioneiros políticos enfrentando tratamentos ainda mais duros, críticos do regime – como manifestantes dos intensos protestos antes da guerra – sendo presos, e acesso à internet sendo novamente restrito, assim como havia sido durante os protestos.
Além disso, a inflação segue fora de controle, exacerbando a crise do custo de vida que foi o estopim dos protestos, tornando alimentos básicos algo fora do alcance de muitos. No dia 21 de março, a mídia estatal iraniana disse que mais de 1.500 pessoas haviam sido mortas no Irã desde o início do conflito.
Um mês mais tarde, ainda há pouco prospecto para o fim da guerra (Reprodução/AFP)
O presidente americano, Donald Trump, deu ao Irã um prazo de 48 horas para a reabertura do estreito de Ormuz no dia 22 de março.
Poucos dias depois, no dia 26, aumentou o prazo para o dia 6 de abril.
Enquanto isso, os EUA dizem ter tido conversas produtivas com autoridades iranianas para o fim da guerra, alegações sobre as quais o Irã chegou a zombar conforme continuava a conduzir ataques retaliatórios pelo Oriente Médio.
Após um mês de conflito, a economia mundial sente choques, e a falta de petróleo leva países pela Ásia a declarar estados de emergência, racionando estritamente o que sobra de seus estoques de petróleo.
Além disso, altas históricas no preço de fertilizantes, altamente exportados pelo Oriente Médio por Ormuz, fazem com que muitos fazendeiros temam operar de maneira ineficiente enquanto uma nova temporada de semeadura chega com a primavera no hemisfério norte.
Milhares de pessoas perderam suas casas e vidas, inclusive mais de uma dezena de soldados americanos, em um conflito que chegou a afetar prospectos de paz na Ucrânia.
Durante todas as semanas, além dos eventos relatados aqui, bombardeios e ataques retaliatórios seguira de maneira basicamente incessante por todo o Oriente Médio, arrastando países adjacentes para o conflito, que originalmente alvejava apenas o Irã.