Bandeiras da Rússia e da China são hasteadas na praça de Tiananmen, em Pequim, à frente de um retrato do líder chinês Mao Zedong, antecipando a chegada de Vladimir Putin à China (Vladimir Smirnov/AFP)
Repórter
Publicado em 19 de maio de 2026 às 14h13.
O presidente russo, Vladimir Putin, chegou na noite dessa terça-feira (manhã de terça, no Brasil), 19, a Pequim para se reunir com seu homólogo chinês e "velho amigo" Xi Jinping, com quem celebra seus "laços inabaláveis", poucos dias após a visita de Donald Trump ao país asiático.
Xi e Putin compartilham uma relação muito próxima. Eles se referem um ao outro como "velho amigo" e celebram relações que, segundo Putin, chegaram a "níveis realmente sem precedentes".
Ilustrando isso, a visita marcará a vigésima quinta viagem de Putin à China durante suas mais de duas décadas como presidente, período em que acumulou ainda 40 encontros com líderes chineses fora da China. Enquanto isso, a visita de Trump foi a primeira de um presidente americano em quase uma década, desde a visita do republicano a Pequim em 2017.Além disso, este ano marca o 30º aniversário da parceria estratégica entre os dois países, que visam uma nova ordem mundial multipolar, não centrada nos EUA. À luz disso, Xi Jinping e Vladimir Putin trocaram cartas amigáveis de felicitações no domingo, nas quais o dirigente chinês afirmou que a cooperação bilateral entre a Rússia e a China "se aprofundou e se consolidou continuamente", informou a mídia estatal chinesa.
Por sua vez, em uma mensagem que tradicionalmente divulga antes de suas viagens à China, Putin elogiou as relações entre os dois países, afirmando que elas atingiram um "nível verdadeiramente sem precedentes", dizendo que "os dois lados se apoiam mutuamente em questões que afetam os interesses fundamentais de ambos os países, incluindo a proteção da soberania e a unidade estatal", continua a mensagem publicada na terça-feira.
A confirmação da viagem de Putin aconteceu poucas horas depois da conclusão da viagem de Donald Trump, que viu altos níveis de prestígio e pompa, contando com uma delegação americana repleta de CEOs, banquetes e visitas exclusivas a lugares normalmente fechados ao público.
Por outro lado, a visita de Putin deve ser consideravelmente mais discreta. A visita do presidente russo não deve ter a mesma pompa que a de Trump, mas "a relação entre Xi e Putin não exige este tipo de gesto de apaziguamento", disse à agência de notícias AFP Patricia Kim, do centro de pesquisa Brookings Institution, com sede em Washington.A relação amigável entre os dois não é segredo, mas ainda é discreta, assim como os pormenores de suas conversas com Xi e os planos bilaterais que devem negociar. Devido à natureza das relações entre os líderes, pouco se sabe exatamente o que deve ser discutido na cúpula, mas ainda é seguro assumir alguns temas.
Petróleo: commodity promete guiar muito das negociações entre Xi Jinping e Vladimir Putin (atlascompany/Freepik)
O petróleo deve ser o cerne da cúpula.
Putin espera que a China aprofunde seu compromisso com Moscou, depois de Trump ter declarado ao canal Fox News durante sua visita que Pequim havia concordado em comprar petróleo dos Estados Unidos. Como a Rússia depende das vendas para a China para sustentar seu esforço de guerra, "Putin não quer perder o apoio", explicou à AFP Lyle Morris, da organização Asia Society.
"É provável que Putin esteja ansioso para ouvir de Xi qual será o próximo passo da China no Oriente Médio", acrescentou Morris, depois que "Trump deixou claro que espera que Pequim desempenhe um papel de liderança".
A preocupação russa vem, pois as compras de petróleo russo e as exportações de bens de dupla utilização — produtos úteis tanto para aplicações civis e comerciais quanto para aplicações militares, como eletrônicos e softwares avançados, farmacêuticos e drones — pela China têm sido cruciais para o esforço de guerra de Moscou. A Rússia já é a principal fonte de petróleo bruto da China. Os compradores chineses têm adquirido o petróleo a preços baixos desde a imposição de sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia.
Devido a isso, a relação se tornou desequilibrada, com Moscou dependendo fortemente de seu vizinho mais rico e tecnologicamente avançado.
Presidentes da China, Xi Jinping (E), e da Rússia, Vladimir Putin: a relação entre os dois líderes é amigável, mas discreta (Alexander Zemlianichenko / POOL / AFP)
Putin e Xi pretendem discutir como "fortalecer ainda mais" a parceria estratégica entre os países e "trocar opiniões sobre questões internacionais e regionais cruciais", segundo um comunicado vago do Kremlin, o centro do governo russo. A China já faz esforços significativos para a multipolaridade, como a iniciativa Cinturão e Rota, que supervisiona grandes projetos de infraestrutura pelo Sul Global, e com um fortalecimento do yuan, a moeda chinesa, não necessariamente em termos de apreciação, mas de relevância - o yuan se torna opção cada vez mais comum para transações internacionais, especialmente no Sudeste Asiático, onde gradualmente substitui a supremacia do dólar americano.
O recente encontro de Xi com Trump, as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, e também a cooperação entre os dois líderes nas áreas de energia, comércio e segurança devem fazer parte das discussões marcadas para quarta-feira, apura a CNN. Principal nessa esfera é o assunto da tubulação de gás natural Sibéria 2, que conectaria os dois países com cerca de 2.600 km de canos, transportando cerca de 50 bilhões de metros cúbicos de gás natural para a China, através da Mongólia, dos campos de gás em Yamal, perto do Ártico.
Acordos entre os líderes podem mitigar os danos energéticos causados pelo fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, mas não é só por isso que o conflito no Oriente Médio pode vir à tona.
Trump, durante sua visita, buscou consenso com a China sobre certos aspectos do conflito, com um comunicado da Casa Branca afirmando que os dois líderes concordaram que o Irã não possui armas nucleares e que o Estreito de Ormuz será reaberto. Além disso, Pequim pode ser um importante mediador nas negociações de paz, sendo a principal compradora de petróleo bruto iraniano, alvo de sanções dos EUA. Devido à sua influência econômica, a presença de Pequim nas conversas pode trazer resultados concretos pela primeira vez em meses de negociações inconclusivas.
Além disso, tanto a China quanto a Rússia são parceiras próximas de Teerã e desempenharam um papel importante em protegê-la das sanções americanas nos últimos anos, tanto econômicas quanto diplomáticas.Por sua vez, a Rússia forneceu ao Irã informações de inteligência valiosas sobre a localização de tropas e instalações americanas.
Contudo, no que diz respeito à guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a China e a Rússia podem ter prioridades distintas.
"[A China] depende da liberdade das principais rotas marítimas do mundo para sustentar suas atividades econômicas e preferiria que o impasse no Estreito de Ormuz terminasse o mais rápido possível", disse James Char, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura.
Por outro lado, Moscou "se beneficiou economicamente dos combates no Irã devido à flexibilização das sanções contra o fornecimento de energia russa, de modo que pode ter uma opinião diferente".
Depois de se reunir com Xi em abril, o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, disse que a Rússia poderia "compensar" a escassez de energia da China à medida que a guerra afeta os suprimentos mundiais.
Com informações da AFP