Estreito de Ormuz: região traz diversos desafios para atuação militar (Gallo Images/Orbital Horizon/Copernicus Sentinel Data 2026/Getty Images)
Repórter
Publicado em 26 de março de 2026 às 06h01.
Última atualização em 26 de março de 2026 às 06h06.
O fechamento do importante Estreito de Ormuz, como decorrência da guerra com o Irã, provocou choques em todo o mundo, afetando inclusive os EUA. No que muitos analistas consideram uma falha estratégica dos americanos ao iniciar uma nova guerra, o Pentágono agora debate opções para reabrir a rota marítima, controlada com punho de aço pelo Irã, que deixa apenas algumas embarcações atravessarem seu bloqueio.
Segundo apuração da revista britânica The Economist, o departamento considera um plano de três fases: neutralizar as capacidades bélicas que o Irã usa para fechar o estreito, como drones, mísseis e pequenas embarcações; conduzir operações para sondar e limpar todo o estreito de possíveis minas submarinas; e, por fim, quando o estreito for considerado seguro o bastante, passar a escoltar embarcações comerciais com seus próprios navios militares e suporte aéreo.
Todavia, essas operações são sensíveis. Mesmo em tempos de paz, o estreito de Ormuz é notório por sua difícil navegação: estendendo-se por 167 km e com apenas uma saída, que também funciona como entrada, o estreito de Ormuz faz jus ao nome, com seu ponto mais apertado tendo apenas 39 km de largura.
Além disso, está frequentemente congestionado e nuvens de poeira da região árida, juntamente com neblinas matinais, embaçam a visibilidade para navegação.
Primeira etapa do plano americano depende de neutralização de ameaças iranianas a navios no estreito (Ebrahim Noroozi/AFP)
Em tempos de guerra, todos esses perigos somam-se a novos riscos. Cercado por montanhas e por uma costa hostil que esconde todos os tipos de armamentos e tropas, o estreito de Ormuz se torna uma armadilha mortal para inimigos do Irã que ficarem presos na passagem. Com altos níveis de controle sobre Ormuz, o Irã pode conduzir extensos ataques de posições avantajadas e bem escondidas.
Até então, a estratégia americana, conduzida em conjunto com Israel, foi centrada em extensivas campanhas de bombardeio ao longo de toda a costa iraniana, buscando atingir alvos-chave, como infraestrutura energética, e alvos escondidos, como bunkers subterrâneos ou garagens que abrigam armamentos. Todavia, essa estratégia é falha em eliminar de forma certeira todas as ameaças em potencial, já que estão dispersas não só pela costa, mas também em pequenas ilhas e até mesmo cavernas naturais por todo o estreito.
Ganhando ímpeto dentro do Pentágono para a primeira fase da operação, está a ideia de enviar esquadrões de elite da infantaria, como fuzileiros navais e forças especiais, para tomar ilhas estratégicas como a ilha de Kharg, que abriga muito da infraestrutura e petróleo bruto do Irã.
Essas tropas, além de tomarem o controle de pontos-chave pelo estreito, também instalariam armamentos que ajudariam a conter ameaças aéreas do Irã, como plataformas de mísseis interceptadores, para ajudar a escolta de navios e assegurar o controle da área adjacente.
Por mais que seja um bom conceito no papel, em prática é uma ideia de difícil aplicação. O envio de tropas terrestres em si já é uma medida de alto risco político e diplomático, pois pode facilmente ser visto como uma escalada deliberada do conflito.
Além disso, tomar posições avançadas, reforçadas e amplamente conhecidas por soldados iranianos – que, diferentemente dos EUA, lutam uma guerra existencial por seu país – levanta riscos diretos para soldados americanos envolvidos. Até então, mortes americanas confirmadas no novo conflito no Irã estão em 13, mas um aumento desse número, já sensível, pode significar ainda mais pressão política sobre o presidente americano, Donald Trump, que já enfrenta as mais baixas taxas de aprovação do seu segundo mandato, aos 36% - ou seja, 56% desaprovam o presidente, e os últimos 6% dos americanos estão indecisos.
Por fim, levar e manter tropas em posições avançadas é um pesadelo logístico. Sobrevoar ares em disputa e navegar as perigosas águas do estreito para levar soldados e, periodicamente, suprimentos para esses soldados, implica operações extensas que poriam ainda mais veículos e tropas em risco. E, ainda por cima, os ganhos estratégicos são contestados, já que os baratos drones Shahed, com seu alcance de 1.500 km, podem ser disparados de virtualmente qualquer lugar do Irã e atingir basicamente qualquer parte do Oriente Médio, independentemente de quem controla as ilhas.
Remoção de minas pode levar entre uma e três semanas (Sahar AL ATTAR / AFP/Getty Images)
Operações para sondar as supostas minas submarinas do Irã e, no pior dos casos, removê-las, seriam igualmente difíceis, apura a revista. No momento, grande parte da relutância que embarcações presas no estreito têm sobre navegar vem dos rumores de minas sob as águas do estreito, que o Irã poderia facilmente ter plantado com pequenas embarcações longe da visão dos satélites e da inteligência israelense-americana.
Os medos são bem fundados: estima-se que o Irã tenha estocado cerca de 6.000 unidades de minas de diferentes tipos, incluindo minas simples que detonam ao contato e modelos de profundidade que detonam com vibrações e sinais acústicos de navios. Esse número é mais do que o suficiente para tornar o estreito intransponível em vários pontos, várias vezes – tornando operações individuais de remoção dessas minas, que podem durar até três semanas segundo estimativas do próprio Pentágono, altamente ineficazes e talvez até redundantes.
Além disso, por mais que os EUA digam ter destruído a Marinha do Irã, incluindo embarcações específicas para plantar minas, em tempos de necessidade, essa é uma tarefa que pode ser conduzida por basicamente qualquer tipo de embarcação, inclusive simples barcos de pesca, que poderiam passar sem ser notados por forças americanas.
E, por fim, os navios americanos que seriam perfeitos para essa tarefa, chamados de “navios de combate litorâneos” estão ancorados na Malásia, a milhares de quilômetros do conflito. E, mesmo se essas embarcações chegassem ao estreito, seus equipamentos, como drones submarinos para a remoção de minas, enfrentariam diversos tipos de problemas técnicos em fases de teste.
Escolta americana de cargueiros envolveria navegação perigosa e incerta por Ormuz
A última etapa do plano, a entrar em ação após todas as ameaças terem sido neutralizadas, é uma escolta física das embarcações presas em Ormuz utilizando navios de guerra americanos armados em proximidade aos cargueiros e escolta aérea de caças, drones, e outros equipamentos. Por isso, também é a parte mais complexa do plano.
Um comboio de cargueiros precisaria de dezenas de drones, helicópteros e aviões para sua proteção, em conjunto com equipamentos como radares e aeronaves não tripuladas para descobrir e interceptar mísseis iranianos. Além disso, um comboio teria de navegar as apertadas águas do estreito em alta proximidade com os grandes navios militares da marinha americana, enfrentando ainda todas as dificuldades normais de navegação do estreito e a alta possibilidade de que, mesmo após as outras duas etapas da operação, ameaças sérias aos comboios ainda poderiam existir. Cercado por montanhas, mísseis poderiam se manter escondidos por muito tempo antes de se revelarem em curso para o estreito.
Especialistas navais entrevistados pela The Economist estimam que a marinha americana deveria enviar um navio de guerra para cada dois cargueiros, devido à natureza da operação. No momento, os EUA têm apenas 14 destroyers (contratorpedeiros) na região, e seis deles estão protegendo porta-aviões. A chegada de mais navios levaria semanas e dividiria ainda mais as forças americanas, já que muitos estão localizados na América Latina e na Ásia.
E, afinal, a última parte da operação assume que cargueiros presos no estreito estariam dispostos a correr o risco de atravessar a passagem acompanhados pelos inimigos do Irã.