Maduro capturado sem aval do Congresso: aliados de Trump exaltam operação militar; críticos alertam para abuso de poder.
Editora ESG
Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 09h54.
Última atualização em 4 de janeiro de 2026 às 09h56.
A captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores executada em território venezuelano sem aprovação prévia do Congresso americano, cristalizou uma das divisões políticas mais profundas dos Estados Unidos em anos recentes.
De um lado, a administração Trump e republicanos celebram a prisão daquele que chamam de líder de uma organização narcoterrorista. Do outro, democratas denunciam o que consideram uma violação flagrante da Constituição americana e um precedente catastrófico para a ordem internacional.
A polarização se manifestou imediatamente nas redes sociais e declarações oficiais, revelando não apenas as óbvias divergências sobre política externa, mas interpretações radicalmente opostas sobre limites constitucionais do poder presidencial e o papel dos Estados Unidos no cenário global.
Por meio de uma publicação na rede X, a procuradora-geral Pam Bondi detalhou as acusações formais contra o casal venezuelano, que incluem conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de armas e dispositivos destrutivos contra os Estados Unidos.
Essas denúncias foram formalmente apresentadas no distrito sul de Nova York em 2020, durante o primeiro governo Trump, mas permaneceram sem execução por quatro anos. Logo, a administração justifica a operação militar de sábado,3, como cumprimento desse mandado de prisão pendente.
O secretário de Estado Marco Rubio foi ainda mais contundente em sua justificativa, também publicada no X: "Maduro NÃO é o presidente da Venezuela e seu regime não é o governo legítimo. Maduro é o chefe do Cartel de Los Soles, uma organização narcoterrorista que tomou controle do país. E ele está sob acusação por empurrar drogas para dentro dos Estados Unidos.
Em comunicado, o vice-presidente JD Vance enquadrou a operação como resultado direto da intransigência venezuelana: "O presidente ofereceu várias saídas, mas foi muito claro durante todo o processo: o tráfico de drogas deve parar, e o petróleo roubado deve ser devolvido aos Estados Unidos."
A reação democrata foi de alarme imediato, centrada em duas preocupações fundamentais: a violação de prerrogativas constitucionais do Congresso e as implicações para a ordem internacional. O senador Mark Warner, da Virgínia, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado, resumiu:
"A Constituição dos EUA coloca as decisões mais graves sobre o uso de força militar nas mãos do Congresso por uma razão. Usar força militar para promover mudança de regime demanda o escrutínio mais próximo, precisamente porque as consequências não terminam com o ataque inicial."
Foi Warner quem levantou ainda, a questão que ecoou em diversas outras declarações democratas:
"Se os Estados Unidos afirmam o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros que acusa de conduta criminal, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede Vladimir Putin de afirmar justificativa similar para sequestrar o presidente da Ucrânia? Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que restringem o caos global começam a entrar em colapso, e regimes autoritários serão os primeiros a explorar isso."
Governadora de Nova York, Kathy Hochul, classificou os ataques como "abuso flagrante de poder ao agir sem aprovação do Congresso". Em sua declaração na rede X, acrescentou: "Nova York abriga uma vibrante comunidade venezuelana, e estou ao lado das famílias aqui e no exterior em suas esperanças por um futuro melhor e mais estável."
A congressista Alexandria Ocasio-Cortez foi direta ao questionar a narrativa oficial sobre drogas: "Não é sobre drogas. Se fosse, Trump não teria perdoado um dos maiores narcotraficantes do mundo no mês passado. É sobre petróleo e mudança de regime."
Ocasio-Cortez ainda atribuiu o timing do episódio a uma tentativa de dissipar a atenção em torno do escândalo Epstein: "E eles precisam de um julgamento agora para fingir que não é. Especialmente para distrair de Epstein e os custos disparados de saúde."
Também tornou-se argumento recorrente, o perdão ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández. A congressista Marjorie Taylor Greene, que se aposenta na próxima semana, publicou:
"Sou 100% a favor de fronteiras fortes, seguras e protegidas e de parar narcoterroristas e cartéis de traficar drogas mortais e tráfico humano para a América, mas se a ação militar dos EUA fosse realmente sobre salvar vidas americanas de drogas mortais, por que a administração Trump não tomou medidas contra os cartéis mexicanos?"
Greene apontou o perdão a Hernández como exemplo de contradição nas políticas do presidente, acrescentando: "O desgosto dos americanos com a agressão militar sem fim de nosso próprio governo e apoio a guerras estrangeiras é justificado porque somos forçados a pagar por isso, e ambos os partidos, republicanos e democratas, sempre mantêm a máquina militar de Washington financiada e funcionando."
Senador de Nova Jersey, Andy Kim, acusou explicitamente membros do gabinete de Trump de mentira deliberada ao Congresso:
"Rubio e o secretário de Defesa Pete Hegseth olharam cada senador nos olhos há algumas semanas e disseram que isso não era sobre mudança de regime. Eu não confiei neles e vemos agora que descaradamente mentiram para o Congresso."
Ex-funcionário do Departamento de Estado durante a administração Obama, o democrata foi categórico sobre as implicações: "Isso não representa força. Não é política externa sólida. Coloca americanos em risco na Venezuela e na região, e envia um sinal horrível e perturbador para outros líderes poderosos ao redor do globo de que mirar em um chefe de Estado é uma política aceitável para o governo dos EUA."
Recém-empossado prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, conectou a operação militar às implicações diretas para sua cidade.
"Atacar unilateralmente uma nação soberana é um ato de guerra e uma violação da lei federal e internacional. Essa busca descarada por mudança de regime não afeta apenas aqueles no exterior, impacta diretamente os nova-iorquinos, incluindo dezenas de milhares de venezuelanos que chamam esta cidade de lar", escreveu em nota no X.
Mamdani acrescentou que seu "foco é a segurança deles e a segurança de cada nova-iorquino, e minha administração continuará monitorando a situação e emitindo orientação relevante".
O prefeito revelou ter sido informado que Maduro e sua esposa serão mantidos em Nova York, potencialmente no Metropolitan Detention Center no Brooklyn, podendo aparecer em tribunal já nesta segunda-feira, 5.
Os ataques americanos a instalações militares em Caracas, La Guaira, Aragua e Miranda representam a maior operação militar dos Estados Unidos na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989.
Ro Khanna, democrata da Califórnia, enquadrou a operação como mais um capítulo de intervencionismo fracassado:
"Lançando uma guerra de escolha para trazer mudança de regime na Venezuela. Continuamos votando contra guerras idiotas no Iraque, Afeganistão e Líbia. Mas nossos presidentes se curvam a uma bolha de política externa comprometida com militarismo."
Khanna ainda acusou a administração de deixar os EUA "enredados em conflitos no exterior, enquanto ignora a falta de bons empregos e altos custos para americanos em casa". E convocou "um movimento do povo americano para se opor a orçamentos de defesa inchados e guerra imperialista".