A woman poses with a picture of Iran's new Supreme Leader Ayatollah Mojtaba Khamenei during a rally in support of him at Enghelab Square in central Tehran on March 9, 2026. Iran marked the appointment of Ayatollah Mojtaba Khamenei to replace his father as its supreme leader with a new barrage of missiles against Israel and the Gulf states on Monday, as the Middle East war sent oil prices soaring. (Photo by Atta KENARE / AFP)
Repórter
Publicado em 14 de março de 2026 às 08h01.
Com uma rápida decapitação do regime clerical do Irã após as primeiras ondas de ataques conjuntos dos EUA e Israel resultarem na morte do então líder supremo que liderou o país por quase quatro décadas, Ali Khamenei, a guerra pela queda do regime parecia estar em bom andamento.
Após alguns dias de especulação interna e internacional, seu filho, Mojtaba Khamenei, foi selecionado para substituir o pai em uma escolha controversa, já que a transferência de cargos de poder de forma hereditária é normalmente algo que contradiz princípios morais Xiitas, a escola islâmica que é maioria no Irã.
A escolha desafia os EUA em mais de um sentido – por um lado, a queda do regime, hostil aos Estados Unidos e aos seus aliados, como Israel, é um ponto de contestação central por trás dos ataques.
Com a nova liderança tão rapidamente apontada, os líderes clericais do Irã não demonstram flexibilidade para acatar às demandas americanas, em um desdobramento que pode aumentar a duração da guerra. Além disso, a escolha do filho direto de Khamenei carrega peso simbólico, e, juntamente com o bloqueio no estreito de Ormuz, contribuiu para uma disparada nos preços do petróleo, piorando uma crise energética global cada vez mais intensa.
O presidente americano, Donald Trump, já expressou seu “desapontamento” com a nova escolha, dizendo para o jornal americano Fox News que ele “não acredita que [Mojtaba Khamenei] possa viver em paz”.
Nesta sexta-feira, 13, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que Khamenei está ferido e “provavelmente desfigurado”. Ele não apresentou provas e não houve manifestação iraniana até o fechamento desta reportagem.
Com 56 anos, o novo líder é o terceiro a ocupar o cargo desde a revolução islâmica em 1979, e herda a responsabilidade de liderar um país com 90 milhões de pessoas fragmentado, economicamente frágil, e no epicentro de uma guerra que já engloba grande parte do Oriente Médio – aqui vão algumas das principais características do perfil de Mojtaba Khamenei, novo líder do Irã.
Estudantes iranianos em uniformes militares e membros da força paramilitar Basij (parte das IRGC) carregam bandeiras iranianas enquanto participam de um comício militar no centro de Teerã (Getty Images) (Getty Images)
Conhecido por ter fortes laços com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês), uma espécie de exército paralelo ao oficial, altamente conectado com o governo, e com considerável influência política, Mojtaba é uma figura notavelmente mais bem conectada em seu próprio ambiente político e social, principalmente em questões de segurança, do que seu pai.
Essa conexão pode ter cumprido um papel importante em sua seleção – o jornal CNBC apura que, sem o apoio da guarda, Mojtaba não teria sido capaz de substituir seu pai, pois enfrentava outros candidatos igualmente conectados, incluindo pessoas com cargos sêniores dentro do clero.
Seus laços com as IRGC remontam ao fim da década de 1980, quando Mojtaba serviu nos últimos anos de um violento conflito contra o Iraque. Além disso, depois da guerra, estudou com clérigos famosos na cidade sagrada de Qom, um dos lugares de maior significado espiritual no islã Xiita. Mesmo assim, não tem nenhum papel tradicional dentro do estabelecimento religioso.
Ele se aprofundou ainda mais no conservadorismo político e clerical do país ao se casar com Zahra Haddad-Adel, a filha de um importante político conservador iraniano, Gholam-Ali Haddad Adel. Casados desde 1999, Zahra foi morta nos ataques conjuntos dos EUA e Israel, juntamente com seu sogro, Ali Khamenei, no dia 28 de fevereiro desse ano.
São seus laços às IRGC e à ala conservadora na política religiosa do país, considerados por muitos ainda mais profundos do que os de seu pai, que cementaram sua reputação como uma figura particularmente linha dura, mesmo em um cenário notório por seu conservadorismo como o Irã – foi uma das figuras principais identificadas como orquestrando a brutal repressão ao Movimento Verde de 2009, até então a maior onda de protestos desde a revolução islâmica de 1979.
Estimativas para o número de mortos são variadas, mas flutuam entre 30 e 80 mortes.
Fumaça e chamas sobem no local dos ataques aéreos a um depósito de petróleo em Teerã, em 7 de março de 2026 (Foto de Sasan / Middle East Images / AFP via Getty Images) (Sasan / Middle East Images / AFP /Getty Images)
Além de seu pai, Mojtaba Khamenei perdeu o filho, a esposa e a mãe no mesmo dia, durante os ataques do dia 28 de fevereiro, de acordo com um comunicado do governo iraniano.
Mojtaba em si sofreu uma fratura no pé e outros ferimentos leves, incluindo uma contusão no olho, em decorrência da ofensiva. Além disso, fontes anônimas de Israel reportam à CNN que o novo líder também havia sido ferido em uma tentativa de assassinato na semana passada.
Observadores e analistas julgam que, devido à natureza pessoal e trágica que Mojtaba Khamenei tem em relação aos ataques, reconciliação é algo que parecia distante, mas agora beira o impossível.
“Você pode imaginar que essa pessoa não estará em um clima conciliatório”, disse Jasmine El-Gamal, ex-assessora para o Oriente Médio no Departamento de Defesa dos EUA e atual CEO da Averos Strategies, à CNBC. “Os dois lados continuam bastante distantes, e é por isso que digo que veremos uma escalada do ponto de vista militar nos próximos dias.”
Mojtaba Khamenei (C), filho do Líder Supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, participa de uma manifestação anual para celebrar o 41º aniversário da Revolução Islâmica em 2020 (Rouzbeh Fouladi/Getty Images) (Getty Images)
Ali Khamenei chegou a ser presidente do Irã antes de assumir o cargo de Aiatolá, o líder supremo do país. Todavia, seu filho Mojtaba nunca ocupou um cargo assim e sempre manteve um perfil público reservado.
Mesmo assim, sempre foi descrito como uma figura influente nos bastidores do mandato de seu pai, chegando inclusive a ser chamado de “principal guardião” e o “poder por trás das cenas” em comunicações diplomáticas americanas vazadas pelo site WikiLeaks.
Fragmentos confidenciais vazados, datando de 2007, mencionam o poder de Mojtaba várias vezes, incluindo:
“Um médico iraniano, supostamente muito próximo a círculos conservadores no Irã, afirmou que o filho do Líder Supremo, Mojtaba, possui visões extremistas e exerce influência significativa no gabinete do Líder Supremo. O médico indicou que, embora Mojtaba essencialmente derive seu poder da posição de seu pai, ele está construindo sua própria base de poder. [...] O médico afirma que o filho do Líder Supremo Khamenei, Mojtaba, está exercendo poder real sobre a tomada de decisões de seu pai.”
Outro documento, de 2009, diz:
“Como mencionado anteriormente no WOI [um tipo de mensagem diplomática confidencial datada de] 13/01/09, Mojtaba Khamenei é um dos principais guardiões do Líder Supremo e foi recentemente nomeado como o ponto focal do Gabinete do Líder Supremo para as relações EUA-Irã.”
Mojtaba Khamenei também tem um histórico de interferir profundamente na política do país.
Em 2005, foi acusado por reformistas de trabalhar com líderes religiosos e com a IRGC para garantir a eleição de um candidato conservador. Em 2009, enfrentou acusações semelhantes, em eleições consideradas fraudulentas que resultaram nos protestos do Movimento Verde.