Os irmãos fundadores da The Simple Gym: Gustavo e Gabriel Rodrigues abriram a primeira unidade em Botafogo, em 2024, e agora tentam levar para a corrida a mesma lógica de comunidade, permanência e experiência que guiou a expansão da marca
Repórter
Publicado em 14 de março de 2026 às 08h01.
Última atualização em 17 de março de 2026 às 11h54.
Na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, onde corredores se cruzam desde cedo num fluxo quase contínuo, os fundadores da The Simple Gym, Gustavo e Gabriel Rodrigues, decidiram fazer uma pergunta de negócios que tem menos a ver com pace e mais com rotina: o que falta para a corrida deixar de ser só prática esportiva e virar experiência completa?
A resposta tomou a forma de um quiosque com lockers, sauna, banheira de gelo, café, convivência e treino orientado. Inaugurado neste sábado, 14, o The Simple RunClub, se torna o novo braço do grupo carioca que tenta ocupar mais espaço no disputado mercado de wellness: o da corrida de rua como extensão do lifestyle.
Desde que abriram a primeira unidade, em Botafogo, os irmãos vêm tentando posicionar a The Simple num território intermediário entre as redes de volume e as academias high-end. A aposta é menos em musculação como fim e mais em academia como infraestrutura de vida.
Foi assim com os tripés para alunos filmarem o próprio treino, numa época em que a maior parte das academias ainda tratava o celular como intruso. Foi assim com as saunas, banheiras de gelo, lounges, playlists e áreas de convivência. Foi assim com a entrada da Manu Cit, influenciadora que transformou o próprio corpo, a rotina e os hábitos em linguagem de negócio. E é assim agora com a corrida.
Gustavo e Gabriel Rodrigues, da The Simple Gym: empresa combina com uma operação pensada em um novo modelo de academias, voltado ao gosto da geração Z (Matheus Ramos/Divulgação)
O ponto de partida dos fundadores foi menos uma epifania e mais uma leitura de comportamento. Parte relevante dos alunos já conciliava musculação com endurance. A corrida aparecia ali não só como exercício complementar, mas como peça central de uma rotina mais ampla de saúde, disciplina e socialização.
O que a The Simple decidiu fazer foi organizar esse pace. Em vez de apenas patrocinar treinos ou se associar a um grupo já existente, criou uma operação própria. O plano é chegar a cerca de mil alunos ativos no primeiro ano, com tíquete médio ao redor de R$ 350 mensais.
É com essa missão que a atleta e criadora de conteúdo Vitória Gomes entra na história. Os fundadores a procuraram no começo do ano, quando o projeto ainda estava em fase de estruturação. A escolha não foi casual. Ela encarna o tipo de trajetória que a The Simple Gym quer associar à corrida: saiu da musculação, atravessou um período de depressão e compulsão alimentar, encontrou no esporte uma reorganização da própria vida e transformou essa experiência em repertório de comunidade. Para a marca, ela funciona como alguém que conhece por dentro o universo das assessorias, das provas, dos grupos de treino e da lógica emocional que faz tanta gente permanecer correndo mesmo quando o entusiasmo inicial passa.
A corrida entrou na vida de Vitória em 2020, num momento em que ela tentava, ao mesmo tempo, perder peso, recuperar disposição e sair de uma espécie de apatia. Sessenta dias depois, correu sua primeira meia maratona. O que ficou daquela chegada não foi apenas o resultado. Foi o entorno. A sensação de fazer parte de algo, de ter gente em volta, de perceber que o esporte podia ser mais do que gasto calórico. Vieram depois os pódios, o ciclismo, o triatlo e a mudança de rotina. A noite perdeu espaço. O dia ganhou método. O corpo deixou de ser só problema e virou projeto. “Como atleta, eu vivi a diferença que uma comunidade bem construída faz. Como sócia, meu papel é ajudar a transformar isso em uma experiência que tenha método, consistência e identidade”, diz Vitória.
A localização ajuda a contar essa ambição. A Lagoa concentra um dos maiores fluxos de corredores do Rio, mas opera historicamente como um território fragmentado. Gente demais, grupos demais, pouco apoio fixo. A percepção da The Simple foi que ali havia demanda por estrutura e também por simplificação. Quem corre cedo e trabalha depois não quer apenas um treinador ou uma planilha. Quer um lugar onde seja possível chegar, guardar as coisas, treinar, se recuperar, tomar um café, encontrar gente e seguir o dia. Em vez de tratar a corrida como atividade avulsa, o RunClub quer organizá-la como estilo de vida.
Essa lógica conversa com o que a própria Vitória vive como criadora de conteúdo. Para ela, mostrar a experiência do clube também faz parte do produto. Não só como divulgação, mas como tradução de uma rotina aspiracional para quem acompanha de fora. A corrida, nesse caso, não é vendida apenas como performance. É vendida como forma de vida mais diurna, mais disciplinada, mais coletiva. É o tipo de narrativa que ajuda a explicar por que a The Simple já havia trazido Manu Cit para perto das unidades tradicionais e agora amplia essa lógica de parceria para uma operação mais diretamente ligada ao endurance.
O RunClub funciona na Lagoa Rodrigo de Freitas, no quiosque 5 da Avenida Epitácio Pessoa, e treinos às terças, quintas e sábados, das 6h às 8h. O espaço, porém, já foi pensado como formato replicável. São Paulo está no radar. Antes disso, a marca quer validar retenção, experiência e escala — é a parte menos romântica da história e talvez a mais importante.
No fim, a aposta da empresa parece menos sobre corrida em si e mais sobre o que a corrida passou a representar. Para muita gente, ela virou uma espécie de infraestrutura pessoal: organiza o corpo, a agenda, a alimentação, os vínculos e até a ambição. Vitória entendeu isso primeiro como experiência. A The Simple tenta entender agora como negócio.