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Irã ataca navio de carga e põe em xeque acordo com os EUA para reabrir o estreito de Ormuz

Navio com bandeira de Singapura foi atingido no Estreito de Ormuz em meio a tensão sobre acordo entre EUA e Irã para reabertura da rota marítima

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 25 de junho de 2026 às 17h58.

Última atualização em 25 de junho de 2026 às 18h07.

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A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã realizou um ataque contra um navio de carga com bandeira de Singapura nesta quinta-feira, 25, no Estreito de Ormuz, segundo autoridades dos Estados Unidos.

O episódio ocorreu em meio ao acordo assinado na semana passada entre Estados Unidos e Irã para encerrar as ofensivas e reabrir a rota marítima estratégica, que conecta o Golfo Pérsico ao mercado global de energia.

O ataque atingiu a ponte de comando da embarcação, sem registro de vítimas, informou a organização UK Maritime Trade Operations a Wall Street Journal. O incidente ocorreu próximo à costa de Omã, horas depois de a marinha da força paramilitar iraniana emitir alerta para que navios não utilizassem rotas não autorizadas pelo regime na via navegável.

Na terça-feira, a Organização Marítima Internacional (IMO, órgão das Nações Unidas responsável pela regulação do transporte marítimo) comunicou empresas do setor sobre a coordenação de uma rota de evacuação destinada a centenas de navios retidos no Golfo Pérsico, em cooperação com Irã, Omã, países litorâneos e Estados Unidos.

Vista de satélite do Estreito de Ormuz com linhas gráficas brancas representando rotas marítimas globais e tráfego marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Conceito estratégico de transporte de petróleo

Estreito de Ormuz: abertura da rota de escoamento do petróleo segue incerta. (GettyImages)

Horas depois do ataque, a IMO anunciou a suspensão da operação de evacuação. O secretário-geral Arsenio Dominguez afirmou que a interrupção buscou “reconfirmar que as garantias de segurança necessárias continuam em vigor para os navios em nossa lista de evacuação e para todos os que se encontram na região”. Ele acrescentou que a embarcação atingida não integrava o protocolo de evacuação da organização.

O acordo de 60 dias para reabertura do estreito prevê que o Irã adote medidas para garantir a passagem de navios comerciais, enquanto os Estados Unidos retiram bloqueios sobre portos iranianos. Como parte do entendimento, os Estados Unidos suspenderam sanções sobre vendas de petróleo do Irã e autorizaram a comercialização de petróleo bruto em dólares.

O tráfego marítimo na região registrou recuperação ao longo da semana, após meses de baixa movimentação. Na quarta-feira, entre 70 e 80 embarcações cruzaram o estreito, segundo sistemas de rastreamento. A empresa Kpler registrou 70 navios, número mais que o dobro do dia anterior.

O aumento do fluxo ocorreu após período de risco elevado no Estreito de Ormuz, afetado por tensões militares e restrições operacionais impostas por diferentes partes envolvidas na crise.

No fim de semana anterior, o Irã declarou fechamento do estreito em meio a confrontos entre Israel e o Hezbollah no Líbano. Até o momento, não houve confirmação oficial de reabertura. O país não realizou novos ataques contra navios comerciais desde 12 de junho.

Organização Marítima Internacional e operação de evacuação

Nesta quinta-feira, a Guarda Revolucionária informou em seu canal no Telegram que três navios-tanque que utilizavam a rota sul autorizada pela IMO receberam ordem de retorno. A empresa de inteligência marítima Windward relatou que cinco embarcações realizaram manobras de reversão no mesmo período.

A corporação iraniana afirmou que rotas definidas pela IMO não têm autorização para uso sem coordenação com o Irã, e classificou tais movimentações como “inaceitável e extremamente perigoso”.

Antes do ataque, o navio Ever Lovely partiu de Umm Qasr, no Iraque, com destino a Singapura, segundo o sistema Marine Traffic. A embarcação da Evergreen Marine Asia Pte Ltd permaneceu retida no Golfo por mais de 100 dias, de acordo com a LSEG.

O Ever Lovely entrou em direção ao Estreito de Ormuz na manhã de quinta-feira, integrando um grupo de quatro embarcações que seguiam a rota indicada pela IMO, próxima à costa de Omã. Dados de rastreamento indicam que o navio liderava o grupo em maior velocidade, sem registros de alerta por rádio ou ordens de retorno emitidas pela marinha iraniana.

Entenda o acordo assinado por Trump

O presidente Donald Trump formalizou um acordo provisório em 17 de junho com o objetivo de encerrar o conflito entre Estados Unidos e Irã e viabilizar a reabertura do Estreito de Ormuz.

A medida antecipou o cronograma inicialmente previsto para a entrada em vigor do entendimento, apesar da oposição de parlamentares republicanos, que classificaram o pacto como uma concessão favorável a Teerã.

Representantes dos governos americano e iraniano concluíram a assinatura eletrônica do acordo de paz no mesmo dia, segundo uma autoridade dos EUA e informações divulgadas pela imprensa estatal iraniana.

De acordo com uma autoridade americana, o memorando de entendimento já passou a valer a partir do momento em que o presidente assinou o documento. Dias depois, foi anunciada a reabertura do Estreito de Ormuz.

A assinatura do documento ocorreu no Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris. Segundo autoridades dos Estados Unidos e da França, Trump estava no local para um jantar com o presidente francês Emmanuel Macron.

Os principais pontos do acordo de paz

Pelos termos estabelecidos, Estados Unidos e Irã concordam em interromper as hostilidades, reabrir o estreito de Ormuz e iniciar um período de negociações de dois meses para alcançar um entendimento definitivo sobre o programa nuclear iraniano e a retirada das sanções impostas ao país.

O memorando determina “o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes”, abrangendo também a ofensiva israelense em território libanês.

Veja a seguir os 14 pontos previstos no entendimento entre os dois países:

  1. Encerramento das hostilidades: Estados Unidos e Irã declaram o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo operações no Líbano. As partes também assumem o compromisso de não iniciar novos confrontos e de respeitar a soberania e a integridade territorial libanesas.
  2. Respeito à soberania: Os dois países concordam em não interferir nos assuntos internos um do outro e em preservar suas respectivas integridades territoriais.
  3. Negociação de acordo definitivo: Washington e Teerã terão até 60 dias para negociar um acordo final, prazo que poderá ser estendido caso haja concordância entre as partes.
  4. Retirada militar e fim do bloqueio naval: Os Estados Unidos se comprometem a suspender o bloqueio marítimo contra o Irã e retirar suas forças da região próxima ao país em até 30 dias após a assinatura do memorando.
  5. Reabertura do Estreito de Ormuz: O Irã deverá restabelecer a navegação no estreito em até 30 dias, garantindo a passagem segura e gratuita de embarcações comerciais durante 60 dias. O governo iraniano também discutirá com Omã e outros países do Golfo Pérsico a futura gestão da rota marítima.
  6. Plano de reconstrução econômica: Os Estados Unidos e seus parceiros regionais desenvolverão um programa de reconstrução e desenvolvimento para o Irã, com recursos mínimos previstos de US$ 300 bilhões.
  7. Suspensão das sanções: Washington promete encerrar todas as sanções contra o Irã, incluindo medidas aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU, pelo Conselho de Governadores da AIEA e restrições unilaterais impostas pelos Estados Unidos.
  8. Compromissos nucleares: O Irã reafirma que não produzirá nem obterá armas nucleares. Os dois governos também negociarão um mecanismo para tratar do urânio enriquecido sob supervisão da AIEA e manterão discussões futuras sobre enriquecimento e outros temas nucleares.
  9. Manutenção do cenário atual: Até a conclusão do acordo definitivo, o Irã continuará com sua política nuclear atual, enquanto os Estados Unidos não adotarão novas sanções nem ampliarão sua presença militar no Oriente Médio.
  10. Comércio de petróleo: Os Estados Unidos permitirão que o Irã volte a comercializar petróleo e produtos petroquímicos nos mercados internacionais.
  11. Liberação de ativos iranianos: Washington se compromete a desbloquear integralmente recursos financeiros e ativos iranianos que estavam congelados ou sujeitos a restrições.
  12. Mecanismo de supervisão: As partes criarão uma estrutura de monitoramento para acompanhar o cumprimento do memorando e a implementação do futuro acordo definitivo.
  13. Foco das negociações futuras: Após a entrada em vigor das cláusulas 1, 4, 5, 10 e 11, as discussões passarão a tratar exclusivamente dos demais pontos pendentes do acordo.
  14. Ratificação internacional: O acordo final deverá ser formalizado por meio de uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU no prazo de até 60 dias.
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