Mundo

Em Bangladesh, fãs do Brasil e da Argentina vivem rivalidade nas ruas

Apesar do time do país não ter se qualificado para a copa, as cidades estão repletas de bandeiras do Brasil e da Argentina - e fãs vivem a rivalidade nas ruas

Bangladesh: país ao leste da Índia nunca se qualificou para uma Copa do Mundo, mas a febre do torneio toma conta dos cidadãos, que se dividem entre fãs da Argentina e fãs do Brasil (AFP)

Bangladesh: país ao leste da Índia nunca se qualificou para uma Copa do Mundo, mas a febre do torneio toma conta dos cidadãos, que se dividem entre fãs da Argentina e fãs do Brasil (AFP)

Publicado em 13 de junho de 2026 às 12h01.

Bangladesh, um pequeno país no leste da Índia, não é conhecido por sua proeza no futebol. Sua seleção nunca se qualificou para uma Copa do Mundo, e esse ano não foi exceção. Todavia, a febre da Copa não escapa ao país: nas cidades, bandeiras enfeitam as ruas — mas bandeiras estrangeiras, dos maiores favoritos do futebol contemporâneo. E, de longe, as mais comuns são as do Brasil e da Argentina.

O país abriga alguns dos torcedores mais fanáticos desses times, e a rivalidade toma conta das ruas, com fãs de uma seleção tentando superar os rivais com bandeiras, demonstrações e inclusive jogos amadores onde jogadores representam não times locais, mas o Brasil e a Argentina, em uma das poucas ocasiões em que países estrangeiros assumem tão fervorosamente as cores de outras nações.

Perto de áreas residenciais, imagens em tamanho real de ícones como Neymar e Messi anunciam lojas que vendem camisas baratas dos times por cerca de 500 takas, a moeda local, ou 20 reais, na cotação atual.

Febre da Copa

Copa do Mundo

Mesmo sem qualificação, fãs do esporte em Bangladesh celebram o torneio (Imagem gerada por IA/Exame)

Embora Brasil e Argentina sejam, de longe, as forças dominantes, outras seleções participantes da Copa do Mundo ocasionalmente despertam o interesse do público com a mesma intensidade.

O cidadão Amjad Hossian, de 72 anos, foi notícia esta semana ao exibir uma bandeira alemã de 7,5 km de comprimento que ele mesmo confeccionou após vender uma pequena parte de suas terras para arrecadar fundos. Seu sonho, segundo o jornal local Prothom Alo, era que a enorme bandeira encontrasse lugar em um museu na Alemanha algum dia.

Buscando tirar proveito da febre dos fãs, a embaixada norueguesa em Bangladesh fez propaganda de sua seleção nacional. Esse ano, o país competirá em sua primeira Copa após 28 anos e assumiu a identidade Viking, com inscrições em fontes rúnicas no uniforme oficial e ensaios fotográficos dos jogadores em armaduras, escudos e armamentos dos famosos saqueadores escandinavos.

Em seu apelo aos fãs, a embaixada norueguesa destacou a relação profunda entre os países, observando que a Noruega foi uma das primeiras nações a reconhecer Bangladesh após sua independência. "Então, o que vocês dizem, Bangladesh?", perguntou a embaixada em uma publicação nas redes sociais.

"Hora de apoiar os azarões! Hora de sonhar grande juntos", acrescentou.

Bangladesh e o futebol: Pelé e Maradona

O atacante brasileiro Pelé, vestindo o agasalho da seleção brasileira, sentado em uma bola durante a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. (Foto de

Pelé: jogador brasileiro segue como o mais novo a vencer uma Copa do Mundo e é um ícone mesmo em Bangladesh, a mais de 15 mil quilômetros do Brasil (Don Morley/Allsport/Getty Images/Hulton Archive)

Introduzido em Calcutá, a então capital da Índia, pelos colonizadores britânicos no século XIX, o futebol rapidamente se espalhou pela região que hoje é Bangladesh.

Décadas mais tarde, nos anos 1960 e 1970, quando o então Paquistão Oriental enfrentava instabilidade política e social, o esporte assumiu um papel simbólico para a juventude local. Em meio às incertezas do período, que coincidiu com a ascensão da televisão e da cobertura dos jogos no país, muitos jovens voltaram sua admiração para a seleção brasileira, que dominava o cenário internacional.

Nesse contexto, ao ganhar o nosso tricampeonato em 1970, Pelé consolidou-se como um dos maiores ídolos esportivos do país, influenciando gerações de jogadores e contribuindo para a forte identificação de Bangladesh com o futebol brasileiro. Nas décadas seguintes, a popularidade do futebol na nação, adepta ao críquete, assim como a Índia, explodiu com o maior acesso às televisões e a chegada da televisão a cores.

Para muitos bengaleses, a Copa do Mundo de 1986 marcou o primeiro contato com o torneio transmitido em cores. Naquele campeonato, as atuações de Diego Maradona, especialmente contra a Inglaterra, ultrapassaram o campo esportivo e ganharam significado político e histórico para parte dos torcedores, sendo interpretadas como uma vitória simbólica sobre uma antiga potência colonial.

A identificação com a Argentina atravessou gerações em Bangladesh. Após a aposentadoria de Maradona, muitos torcedores passaram a ver em Lionel Messi o herdeiro de seu legado esportivo. Do lado brasileiro, a admiração costuma se concentrar em Neymar, talvez o maior ídolo da Seleção atualmente.

A intensa rivalidade entre torcedores do Brasil e da Argentina em Bangladesh, no entanto, nem sempre se limita às celebrações. Um estudo publicado na Livraria Nacional de Medicina, uma revista acadêmica americana, revelou que 23 pessoas morreram durante a Copa do Mundo de 2022 em incidentes relacionados a confrontos entre grupos rivais.

Episódios trágicos também foram registrados em edições anteriores do torneio. Em 2014, pelo menos três pessoas morreram ao tentarem pendurar bandeiras em fios elétricos. Já em 2018, um menino de 12 anos morreu eletrocutado enquanto hasteava uma bandeira do Brasil, e novos confrontos deixaram um homem e seu filho gravemente feridos.

Acompanhe tudo sobre:BangladeshCopa do MundoFifaBrasilArgentina

Mais de Mundo

Terremotos na Venezuela: mortos sobem para 5.119 e busca por desaparecidos continua

EUA lançam nova rodada de ataques ao Irã após morte de militares na Jordânia

EUA confirmam dois militares mortos na Jordânia em ataque iraniano com mísseis e drones

Prefeito de NY diz que quer prender Netanyahu durante Assembleia da ONU