Mundo

Em ano de Copa do Mundo, Canadá entra em recessão técnica

Pela primeira vez desde 2020, o país norte-americano enfrenta os efeitos das tarifas dos Estados Unidos e um mercado interno desaquecido

Mark Carney: primeiro ministro canadense agora vive pressão em meio a mega-evento esportivo e performance fraca de economia (DAVE CHAN / AFP)

Mark Carney: primeiro ministro canadense agora vive pressão em meio a mega-evento esportivo e performance fraca de economia (DAVE CHAN / AFP)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 29 de maio de 2026 às 11h39.

O Canadá receberá neste ano a Copa do Mundo da Fifa, juntamente com os Estados Unidos e o México. Em meio ao megaevento, no entanto, o país vive uma recessão econômica, com retração de 0,1% no Produto Interno Bruto (PIB) em base anualizada durante o primeiro trimestre de 2026, após queda revisada de 1% no trimestre anterior.

Os dados foram divulgados pelo Statistics Canada, a agência nacional que compila dados estatísticos macroeconômicos e demográficos, nesta sexta-feira, 29. Como este é o segundo trimestre consecutivo de queda anualizada, especialistas consideraram o fenômeno uma recessão técnica.

Vale notar, no entanto, que em base trimestral — outra forma de medir a variação do PIB, que compara o trimestre atual com o imediatamente anterior — o resultado foi estável, com crescimento de 0%. Isso significa que a economia canadense escapou por pouco de uma recessão técnica segundo esse critério.

No entanto, analistas consultados pela agência Reuters e pelo Banco do Canadá haviam projetado crescimento anualizado de 1,5% no período, o que não foi concretizado.

O Canadá tem atualmente o 16º maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, de acordo com relatório de 2023 divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O país já chegou a liderar o ranking por diversos anos nas décadas de 1990 e 2000, mas foi superado por países europeus nas últimas duas décadas.

Por que o PIB canadense diminui

O principal fator de pressão sobre o PIB no primeiro trimestre foi o aumento das importações, que cresceram 2,9% no período. Cerca de metade desse crescimento foi puxado por produtos intermediários de metal e sucata metálica, ambos impulsionados pela importação de ouro.

Excluindo essas duas categorias, as importações cresceram em ritmo mais moderado, de 1,2%, lideradas por automóveis e caminhões leves e equipamentos industriais, segundo o Statistics Canada.

As exportações, por outro lado, recuaram 0,1% no primeiro trimestre, após alta de 1,6% no quarto trimestre de 2025. A queda foi puxada pela redução nas exportações de automóveis e caminhões leves, afetadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Parte da perda foi compensada pelo aumento nas exportações de petróleo bruto, betume e gás natural.

Além dos fatores de balança comercial, o investimento empresarial caiu 0,7%  no país, quinta trimestral queda consecutiva. Isso ocorreu principalmente por um recuo de 4,6% em estruturas de engenharia.

O investimento do governo também recuou 2,5%, em grande parte por causa da desaceleração nos gastos com sistemas de armamentos em relação ao alto nível registrado no fim de 2025. O investimento residencial caiu 2%, com destaque para a baixa nas compras e vendas de imóveis "usados", que encolheram 9,9% no trimestre.

A economia canadense tem resistido aos impactos das tarifas comerciais por mais de um ano, mas os efeitos secundários das medidas já se fazem sentir no investimento, nas contratações, nos gastos e nos preços, segundo a CBC.

Aumento no desemprego

O mercado de trabalho também dá sinais de recessão. Em abril de 2026, a taxa de desemprego subiu 0,2 ponto percentual, chegando a 6,9%, segundo dados do Statistics Canada. O número de pessoas em busca de emprego cresceu 51 mil no mês.

A disponibilidade de postos emprego variou pouco em abril (-18 mil, ou -0,1%), mas nos primeiros quatro meses de 2026 o país acumula perda líquida de 112 mil postos de trabalho (-0,5%), concentrada em empregos de tempo integral, que caíram 111 mil no período.

O desemprego juvenil, entre pessoas de 15 a 24 anos, subiu 0,5 ponto percentual, chegando a 14,3% em abril, bem acima da média pré-pandemia de 10,8%. Entre homens em idade economicamente ativa (25 a 54 anos), a taxa subiu 0,3 ponto percentual, para 6,1%.

A proporção de desempregados que buscam trabalho há 27 semanas ou mais, considerado desemprego de longa duração, foi de 22,5% em abril, significativamente acima da média pré-pandemia de 17,1% registrada entre 2017 e 2019.

Inflação, apesar de estagnação econômica

Apesar do desempenho fraco da economia, os preços continuam subindo. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) canadense avançou 2,8% em base anual em abril, aceleração frente aos 2,4% registrados em março, segundo dados do Statistics Canada divulgados em maio.

O principal fator de alta foi a energia: os preços de gasolina dispararam 28,6% em termos anuais em abril, após alta de 5,9% em março.

A aceleração foi parcialmente explicada por um efeito de base. A remoção da taxa de carbono para consumidores em abril de 2025 havia causado queda nos preços naquele mês, o que agora pressiona para cima a comparação anual.

A isso se somaram incertezas de oferta ligadas ao conflito no Oriente Médio e a troca para o combustível de verão, mais caro. Combustíveis derivados de petróleo também subiram 41,3% em base anual.

Excluindo a gasolina, o CPI subiu 2,0% em abril, ritmo mais moderado que os 2,2% de março. A taxa de poupança das famílias caiu para 3,5% no primeiro trimestre, o menor nível desde o primeiro trimestre de 2024, à medida que o consumo cresceu mais rapidamente do que a renda disponível, segundo o Statistics Canada.

Acompanhe tudo sobre:EconomiaRecessãoCanadá

Mais de Mundo

Colômbia sediará escritório de aliança antidrogas de Trump, diz Espriella

Naufrágio de balsa na Guiana deixa ao menos 41 mortos

Após onda de protestos, Zelensky demite chefe do Exército

Guerra no Irã já custou US$ 37,5 bilhões aos EUA, diz Pentágono