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A nova queda de braço entre China e EUA: livre comércio ou guerra tarifária?

Uma semana depois da reunião em Pequim, EUA e China expõem divergências sobre tarifas, comércio livre e inteligência artificial na APEC

China e EUA: países entram em novo impasse após encontro entre Trump e Xi (Imagem gerada por IA/Exame)

China e EUA: países entram em novo impasse após encontro entre Trump e Xi (Imagem gerada por IA/Exame)

Publicado em 23 de maio de 2026 às 11h33.

Apenas uma semana após o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, os governos dos Estados Unidos e da China voltaram a demonstrar que enxergam o futuro da região Ásia-Pacífico por lentes profundamente diferentes.

Se na capital chinesa os dois líderes tentaram projetar uma imagem de aproximação, a 32ª Reunião Ministerial de Comércio da APEC, realizada em Suzhou, na China, trouxe o pragmatismo de volta à mesa.

Enquanto Pequim defendeu o livre comércio e a redução de tarifas, Washington concentrou seu discurso em competitividade, comércio equilibrado e na manutenção da liderança tecnológica americana.

O pragmatismo por trás dos acordos de Pequim

Apesar dos anúncios bilaterais recentes, os comunicados emitidos pelas duas potências revelaram interpretações distintas sobre o real alcance dos acordos:

  • Setor Aeroespacial: a Casa Branca celebrou o compromisso da China de comprar 200 aeronaves da Boeing — a primeira grande aquisição desde 2017. Pequim confirmou o interesse, mas condicionou o negócio a garantias americanas de fornecimento de motores e peças de reposição. O mercado financeiro reagiu com ceticismo, e as ações da Boeing fecharam em queda de 3,8% após o anúncio.
  • Agronegócio: os EUA afirmaram que a China se comprometeu a importar pelo menos US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas americanos até 2028. Já o lado chinês foi mais vago, mencionando apenas um plano para "melhorar o acesso ao mercado" e cobrando, em contrapartida, maior abertura dos EUA para laticínios, pescados e plantas de bonsai chinesas.

A guerra das tarifas e o peso do superávit chinês

Em Suzhou, a divergência de prioridades macroeconômicas ficou evidente no debate sobre a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (FTAAP).

Para a China — que concentra cerca de 28% da produção industrial global —, a consolidação desse bloco é um objetivo estratégico para garantir o fluxo de suas exportações.

O ministro do Comércio chinês, Wang Wentao, tentou emplacar a FTAAP como a principal entrega do fórum.

Contudo, demonstrando um claro sinal de desconforto político, Wang se ausentou da sessão inaugural do dia 22, sendo substituído pelo vice-ministro Li Chenggang sob a justificativa de "assuntos oficiais urgentes".

O ministro retornou apenas no sábado para a coletiva de encerramento, sem dar explicações sobre o sumiço.

Do lado americano, a postura em relação ao bloco foi de total cautela. Casey K. Mace, representante sênior dos EUA na APEC, minimizou a urgência do acordo.

"A FTAAP é mais uma agenda em construção do que um destino final", disse.

A prioridade de Washington continua sendo a imposição de padrões trabalhistas e o combate a desequilíbrios comerciais.

O argumento ganha força com os dados mais recentes: o superávit comercial da China com o resto do mundo atingiu quase US$ 1,2 trilhão em 2025.

O montante, classificado como "insustentável" por ministros das Finanças do G7, é a principal justificativa de Trump para manter e elevar tarifas.

Inteligência Artificial: a nova linha de frente

A disputa geopolítica oficializou sua transição do comércio de bens de consumo para a tecnologia de ponta.

Embora os ministros da APEC tenham assinado um consenso sobre cooperação em comércio digital e inteligência artificial (IA), a aplicação prática divide as potências.

A China foca em expandir suas plataformas de e-commerce e massificar o uso de IA nas trocas comerciais regionais.

O movimento coincide com uma ofensiva de empresas chinesas, que têm lançado modelos de IA altamente competitivos e gratuitos para contornar as severas restrições impostas por Washington ao acesso de Pequim a semicondutores e chips avançados.

Em contrapartida, os EUA usam a APEC como vitrine política.

O governo americano já prepara uma "semana digital" em Chengdu, em julho, com o objetivo explícito de posicionar suas Big Techs como as líderes tecnológicas incontestáveis da região.

Próximos capítulos

O fórum de Suzhou foi apenas o início de uma longa maratona diplomática. Como anfitriã da APEC, a China sediará cerca de 300 eventos ao longo do ano.

O ápice do calendário ocorrerá em novembro, na Reunião de Líderes Econômicos em Shenzhen, onde Xi e Trump devem se enfrentar novamente. Antes disso, um novo encontro bilateral está previsto para setembro, nos Estados Unidos.

Até lá, a tendência é que nenhum dos lados ceda em suas ferramentas de barganha.

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