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Como The Macallan se tornou uma marca de luxo

Destilaria escocesa transformou seus rótulos de uísque em itens de colecionador

The Macallan: marketing de guerrilha inovador (The Macallan/Divulgação)

The Macallan: marketing de guerrilha inovador (The Macallan/Divulgação)

Publicado em 23 de maio de 2026 às 11h05.

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Em 1824, o fazendeiro Alexander Reid provavelmente não tinha a menor ideia do império que teria fundado. Naquele ano, ele adquiriu duas licenças para destilar uísque em sua fazenda, às margens do rio Spey. A região se chamava Maghellan, nome que combinava “magh”, uma espécie de palavra gaélica para “terra fértil”, e “Ellan”, um monge que outrora vivera na igreja daquela propriedade rural.

Se eu fosse Reid, reconheceria a obra do destino e batizaria a empreitada de Maghellan. Mas não foi o que ele fez. Preferiu Elchies Distillery, em referência ao casarão em que residia. A Easter Elchies House, que até hoje exibe suas paredes brancas e janelinhas clássicas, contrastando com a belíssima e ultramoderna destilaria da The Macallan.

Reid faleceu em 1847, e a propriedade foi sucessivamente transferida até chegar a Robert Kemp. Este a expandiu e alterou o nome para Macallan-Glenlivet, sobrenome bem comum na época, sinalizando uma denominação de origem não oficial.

Até lá, entretanto, a Macallan, que ainda carecia do “The” antecedendo seu nome. E era apenas uma boa destilaria local, fornecendo malte para blends. O plot twist aconteceu mais de um século mais tarde, em 1980.

Com a queda do consumo de blended whisky, a destilaria mudou o foco para os single malts, uísques produzidos em um único lugar, em alambiques de cobre, somente com cevada maltada. Em outras palavras, deixou de ser ingrediente e passou a ser o resultado.

Concomitante à guinada estratégica, a The Macallan passou a utilizar ostensivamente barris de vinho jerez. Mas não quaisquer barris. Barricas criadas sob encomenda, com carvalho escolhido pela destilaria, principalmente europeu, e jerez selecionado para maturar ali apenas o suficiente para deixar suas propriedades sensoriais na madeira.

Em 2002, lançou a Fine & Rare Collection, com garrafas que exibiam, nos rótulos, o ano em que haviam sido destiladas. A ideia era se aproximar de um vinho safrado, demonstrando qualidade e artesania. A estratégia rendeu frutos. A The Macallan deixou de ser apenas um uísque para se beber e virou, em parte, item de colecionador.

Foi ali que ela entrou na esfera do investimento. Mas a virada explícita chegou mais tarde, ainda que não tenha demorado tanto. Em 2006, a destilaria lançou a série Six Pillars, com maltes ultramaturados, em decanters de cristal, cada um representando um dos pilares da marca. Aqui, a agora denominada The Macallan passou de líquido para objeto de luxo. Quase ato contínuo, a marca começou a aparecer na mídia. Suits e James Bond, para citar alguns.

Foi assim que a Macallan se tornou The Macallan. Com um marketing de guerrilha inovador, deixou de ser uma entre tantas para se apresentar como a definitiva. Com o The. Um uísque criado para quem entende, quem coleciona e quem precisa que o mundo saiba, discretamente, que bom gosto se compra sim, mas não é barato.

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