Marketing

Como o medo de ficar de fora virou modelo de negócio

Rotinas padronizadas, trends replicadas e campanhas virais revelam um mesmo motor — o desejo de pertencimento e validação que hoje orienta decisões de consumidores, creators e marcas

Jingle criado por uma usuária do TikTok foi incorporado a um comercial de TV da Dr Pepper (Reprodução/YouTube)

Jingle criado por uma usuária do TikTok foi incorporado a um comercial de TV da Dr Pepper (Reprodução/YouTube)

Publicado em 19 de abril de 2026 às 16h38.

Tudo sobreCreator Economy
Saiba mais

Acordar cedo, passar água com gelo no rosto, tomar SuperCoffee, treinar (seja na academia ou na Velocity), meditar, organizar o Google Agenda lotado de compromissos, voltar para casa e encerrar o dia com a rotina de skincare. Em que momento esse roteiro se tornou padrão? Quando passamos a repetir os mesmos hábitos, circular pelos mesmos espaços e consumir as mesmas referências?

Não é coincidência, é efeito manada.

Seguimos padrões, não necessariamente por interesse ou pelas próprias crenças, mas porque parecem ser o caminho socialmente validado. Nosso cérebro economiza energia copiando o que parece funcionar para os outros e há gatilhos principais que podem alimentar isso: a cultura do pertencimento (“quero me sentir parte do grupo”) e a cultura da performance (“preciso provar que sou produtivo o tempo todo”).

Nesse processo, um observa o outro, imita o comportamento e publica como prova online.

O caso do jingle viral

Um exemplo recente movimentou as matérias de marketing nos Estados Unidos. No final do ano passado a creator Romeo (@romeosshow) publicou no TikTok a ideia de um jingle para a marca de bebidas Dr Pepper.

A marca não só aprovou a música, como transformou em campanha, veiculando em um horário estratégico: durante o intervalo de um dos jogos mais assistidos do país. O resultado: viralização.

O mais interessante não foi apenas a campanha, mas o comportamento desencadeado. Dezenas de creators passaram a publicar novos jingles no mesmo formato, tentando replicar o sucesso.

Mais de 35 marcas verificadas como Denny’s, Buffalo Wild Wings, Subway, Popeyes e Vita Coco comentaram pedindo versões personalizadas. Algumas transformaram as sugestões em campanhas que também viralizaram, como a Pepsi.

Criadores começaram a postar vídeos, não por estratégia planejada, mas pela expectativa de que alguma marca pudesse adotar a ideia e transformá-la em oportunidade.

A lógica do pertencimento

O mesmo padrão se repete em outras febres recentes: Labubu, morango do amor, Bobbie Goods. Nesses casos, a lógica não é performance ou resultado financeiro, mas pertencimento ou FOMO (fear of missing out) - o medo de ficar de fora.

Participar significa existir digitalmente. O curioso é que, no ambiente digital, o risco não é físico, mas sim reputacional. E a reputação é mensurada por likes, comentários, validação pública, que funcionam como pequenas provas de aceitação tribal.

Marcas criam tribos, não apenas clientes

Diante disso, as marcas entenderam que para atrair o público, é necessário ir além do produto/serviço e investir em mecânicas que construam uma comunidade.

Hoje, não basta vender: é necessário criar espaços onde as pessoas possam se conectar.

Isso fica evidente quando observamos que as empresas passaram a investir tanto em ações online quanto offline. A presença física, em especial, tornou-se uma estratégia de aproximação e fortalecimento de vínculos.

Em 2025, marcas de diferentes segmentos como vestuário, alimentação e wellness, passaram a explorar espaços voltados à convivência, promovendo experiências como pintura em cerâmica, aulas de yoga e clubes do livro.

Há também outro motor por trás dessa estratégia: o desejo de desacelerar o consumo digital e valorizar experiências no mundo analógico. Ainda assim, essa busca não anula o objetivo central que é a construção de comunidade. Pelo contrário, reforça a ideia de que conexão, hoje, é uma ação eficaz.

A comunidade no centro do planejamento

Tanto marcas quanto creators, ao estruturar seus planejamentos e planos táticos, precisam incorporar a construção de comunidade como parte central da estratégia.

Os criadores mais bem-sucedidos, inclusive, são aqueles que já cultivam um círculo fiel de seguidores: uma audiência que confia, interage e tende a acompanhar as recomendações de produtos e serviços compartilhadas com esse grupo.

No fim das contas, o desejo de pertencimento é genuíno: as pessoas querem fazer parte de uma tribo, estar no centro da conversa, sentir-se incluídas. E esse sentimento torna-se valioso tanto para quem cria quanto para quem consome.

Acompanhe tudo sobre:estrategias-de-marketingRedes sociais

Mais de Marketing

Crescer contratando mais gente era obrigatório. A IA revogou essa lei

Heineken lança linha Ultimate, com cerveja de 97 calorias e sem glúten

Exclusivo: Bacio di Latte lança sorvete zero e milkshake proteico

Neymarketing: o Brasil sobrevive sem ele?