Petrobras: alta do petróleo recolocou no radar dos investidores as ações da estatal (Stephen McCarthy/Sportsfile for Web Summit Rio via Getty Images)
Repórter de Mercados
Publicado em 9 de março de 2026 às 12h42.
A escalada do conflito no Oriente Médio voltou a mexer com o mercado global de energia. O petróleo encostou em US$ 120 por barril nesta segunda-feira, atingindo o nível mais alto desde meados de 2022, em meio ao temor de interrupções no transporte marítimo após a paralisação do tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz.
O movimento recolocou no radar dos investidores as ações da Petrobras, uma das maiores produtoras de petróleo do mundo e uma das empresas de maior peso na bolsa brasileira. Quando o petróleo sobe, empresas que produzem e exportam a commodity tendem a ampliar suas margens e gerar mais caixa. No ano, as ações preferenciais de Petrobras (PETR4) já valorizaram mais de 40%. As ordinárias (PETR3), mais de 45%.
Em 2008, petróleo chegou a US$ 147 — e caiu 77% meses depois
Mas Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos, alerta: “A Petrobras ganha quando o mundo entra em crise energética, mas o investidor precisa separar oportunidade de euforia”.
Segundo ele, a escalada do conflito envolvendo o Irã recolocou no radar um dos pontos mais sensíveis da geopolítica global. “A região do Estreito de Ormuz sempre foi um dos maiores riscos para o mercado de petróleo. Sempre que há ameaça ali, o mercado adiciona um prêmio geopolítico ao barril porque existe risco real de interrupção da oferta.”
Nos últimos dias, o petróleo reagiu exatamente dessa forma. O Brent voltou a negociar acima de US$ 100, com forte volatilidade, refletindo o temor de que o conflito afete fluxos logísticos no Golfo Pérsico.
Quando isso acontece, empresas com grande produção, baixo custo e forte capacidade exportadora passam a gerar mais caixa.
A Petrobras reúne algumas características que fazem com que o impacto do petróleo mais caro seja relevante para seus resultados. Grande parte da produção da companhia vem do pré-sal, que possui um dos menores custos de extração do mundo. O investimento inicial é elevado, mas depois os custos operacionais ficam relativamente baixos.
Além disso, boa parte da produção é vendida com referência ao preço internacional do petróleo, e o Brasil se tornou exportador líquido da commodity nos últimos anos. Na prática, isso significa que um barril mais caro costuma ampliar as margens da empresa.
Ou seja, em cenários de petróleo elevado, a Petrobras tende a registrar geração de caixa mais robusta e maior capacidade de distribuir dividendos.
Analistas do Citi concordam que a empresa esteja se beneficiando da alta dos preços do petróleo, mas o potencial de valorização deve ser limitado. "Dadas as incertezas quanto à volatilidade dos preços, não acreditamos que a empresa deva tomar medidas relevantes para aumentá-los", afirmam em relatório.
O principal potencial de valorização, segundo analistas do banco, reside no volume líquido de exportação de petróleo (aproximadamente 0,9 milhão de barris por dia, de uma produção total de aproximadamente 2,5 milhões de barris por dia). "Acreditamos que a empresa poderá aumentar os preços dos combustíveis caso o risco de escassez no mercado interno aumente, devido à grande diferença entre os preços no mercado interno e os preços praticados pelos produtores independentes, mas ainda não consideramos esse risco relevante", finalizam.
Para Cecco, é justamente o risco político doméstico que diferencia a Petrobras das grandes petroleiras globais. "Em momentos de petróleo muito caro, cresce a pressão interna sobre combustíveis e isso pode limitar o repasse integral dos preços internacionais", explica.Esse tipo de interferência já ocorreu em outros momentos da história recente da empresa, quando governos optaram por segurar reajustes para conter a inflação. Por isso, mesmo com o petróleo em alta, investidores costumam monitorar de perto a política de preços da estatal.
Já Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, afirma achar muito provável que o preço seja repassado. "Ela tem algum benefício do spread do refino e também do valor da exportação, fora a correção na venda e de distribuição. No fim, essa situação é sim positiva não só para Petrobras, como para a PRIO também", diz.
Outro ponto de atenção é que a valorização recente da commodity está diretamente ligada ao choque geopolítico.
Segundo o especialista da Valor Investimentos, comprar ações logo após uma disparada provocada por conflito internacional exige cautela. “A oportunidade deve se concretizar em resultado se o conflito prolongar o prêmio de risco no barril. Mas este é um momento de muita volatilidade.”
O cenário ainda pode mudar rapidamente. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou recentemente que acredita que os preços do petróleo devem cair de forma rápida.
Além disso, países do G7 já indicaram que podem utilizar suas reservas estratégicas de petróleo para reduzir o choque de oferta caso o conflito se intensifique.
Se a tensão geopolítica diminuir, parte da alta recente do petróleo pode ser revertida.
Para investidores de longo prazo, a Petrobras continua sendo vista como uma das empresas mais expostas ao ciclo positivo de commodities e uma das maiores geradoras de caixa da bolsa brasileira. No curto prazo, porém, o momento exige cautela. Entrar no papel apenas reagindo ao salto do petróleo pode significar comprar a ação depois que parte do movimento já foi precificada pelo mercado.
A decisão, portanto, depende do cenário. Se o conflito no Oriente Médio prolongar o prêmio geopolítico no petróleo, a Petrobras tende a continuar se beneficiando. Se a crise arrefecer rapidamente, a commodity pode devolver parte da alta — e as ações da companhia podem acompanhar o movimento.
O Citi mantém sua recomendação para Petrobras como neutra. Na prática, isso indica que o banco recomenda manter a posição, e não comprar mais ações neste momento.