Kevin Warsh: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira, 30, o nome de Warsh para substituir Jerome Powell
Repórter
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 13h23.
Última atualização em 30 de janeiro de 2026 às 15h24.
A indicação de Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) recoloca no centro do mercado global uma pergunta sensível: até que ponto a política monetária dos Estados Unidos seguirá guiada por dados, e não por pressões políticas.
Para o Brasil, a resposta passa menos por movimentos imediatos e mais pela credibilidade que o novo presidente do Fed, caso assim seja ratificado pelo Senado americano, conseguirá imprimir à instituição em um ambiente de elevada tensão política, segundo analistas consultados pela EXAME.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira, 30, o nome de Warsh para substituir Jerome Powell, após quase oito anos de Powell à frente do banco central do país. A indicação ainda precisa do aval do Senado, onde enfrenta resistência. O senador republicano Thom Tillis já declarou que pretende barrar qualquer nomeação até a conclusão de investigações envolvendo Powell.
A escolha ocorre em meio a um contexto de críticas públicas de Trump ao nível atual da taxa de juros, mantinda nesta semana no intervalo de 3,5% a 3,75% ao ano, e à condução da política monetária.
Esse pano de fundo explica por que o anúncio foi recebido com atenção redobrada pelos investidores: mais do que discutir cortes ou altas de juros, o mercado avalia se o Fed conseguirá preservar sua independência.
Warsh não chega como uma incógnita. Ex-membro do Conselho de Governadores do Fed entre 2006 e 2011, ele atravessou durante o mandato a crise financeira de 2008, que arrasou a economia mundial e exigiu uma intervenção sem precedentes dos poderes públicos para apagar o incêndio causado pelo colapso do mercado imobiliários nos EUA, provocado pela bolha das hipotecas, a chamada crise dos subprime.
Para Tomás Roque, analista de alocação e inteligência da Avenue, esse histórico ajuda a reduzir incertezas. "Ele já entende como funciona o Fed", afirma.
"Warsh também já foi considerado na lista de candidatos para liderar o Fed em 2017, então são quase 10 anos que ele já é um nome bem sondado. Ele também tem uma boa interlocução com o Wall Street, com o G20, e já deixou claro que não existe crescimento econômico sustentável com uma inflação descontrolada, e o mercado entende isso como um sinal positivo também", diz Roque.
Durante sua passagem pelo Fed, Warsh ficou conhecido por defender uma política monetária mais restritiva. Hoje, o discurso é mais pragmático.
Em conversas recentes, ele passou a defender juros mais baixos no curto prazo, citando sinais de desaceleração da economia americana e ganhos de produtividade que podem ajudar a conter a inflação, endossando os desejos de Trump em reduzir as taxas.
Ainda assim, Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, avalia que a escolha de Warsh reduz o risco de interferência política direta na política monetária americana. "Ele é visto como sóbrio, técnico e distante de um perfil ideológico, o que contribui para a independência do Fed", afirma
Os analistas também destacam que Warsh é crítico do tamanho do balanço da autoridade monetária e do prolongamento de políticas expansionistas, sendo um defensor do aperto quantitativo.
"É improvável que ele siga qualquer agenda de flexibilização monetária além do que os fundamentos sugerem", disse Mohit Kumar, economista-chefe da Jefferies, à Reuters.
Para Luiz Ormeneze, sócio da Manchester Investimentos, essa combinação pode se refletir na curva de juros americana. "Podemos ver um aumento da inclinação da curva, com a parte curta recuando e a longa abrindo", diz o especialista, apontando para uma expectativa de queda dos juros no curto prazo e alta nos juros de longo prazo nos Estados Unidos.
Já Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset Management, afirma que a indicação abre espaço para novas quedas nas taxas de juros dos EUA, mas em ritmo mais lento do que parte do mercado projeta. “A redução tende a ser gradual e de menor magnitude”, diz.
Para o Brasil, os efeitos são avaliados como moderados. Na leitura de Ormeneze, o impacto depende da percepção sobre a autonomia do Fed. "Se o mercado enxergar previsibilidade, mesmo com juros mais altos por mais tempo, o efeito tende a ser administrável. O Brasil continua oferecendo juros elevados e pode seguir atraindo capital", afirma.
O risco, segundo ele, surge se crescer a percepção de interferência política. Nesse cenário, a volatilidade aumenta, investidores ficam mais cautelosos com emergentes e a Bolsa brasileira tende a enfrentar um ambiente mais desafiador, especialmente para setores dependentes de capital externo. Exportadoras, por outro lado, podem se beneficiar do câmbio.
Cristiano Oliveira destaca que a redução do risco político no Fed pode desacelerar o ritmo de desvalorização global do dólar. "Não vemos uma interrupção da tendência de desvalorização do dólar, mas uma desaceleração no curto prazo", diz. Para ele, isso pode limitar o ritmo de valorização do real e do Ibovespa.
Tomás Roque ressalta, contudo, que a definição do nome traz alívio. "O mercado não gosta de incerteza. Saber quem será o próximo presidente do Fed pode aumentar o apetite ao risco globalmente, inclusive no Brasil", afirma.
Apesar da recepção inicial positiva, analistas concordam que o verdadeiro teste ainda está por vir. A independência do Fed será medida pelas primeiras decisões de Warsh e pela forma como ele reagirá às pressões por juros mais baixos.
"O mercado estava mais preocupado em garantir que as decisões fossem técnicas e não políticas", afirma Roque. "Com Warsh, a percepção é que esse equilíbrio tende a ser preservado".