Fed: Guerra deteriora os dois mandatos do BC americano, apontam analistas (Samuel Corum/Bloomberg)
Editor de Invest
Publicado em 16 de março de 2026 às 09h51.
A escalada do conflito no Irã continua mudando as expectativas do mercado financeiro para a política monetária dos Estados Unidos. O choque no preço do petróleo provocado pela guerra levou grandes bancos a reverem suas projeções para os próximos cortes de juros do Federal Reserve, e até mesmo a questionar se eles virão ainda este ano.
O Fed tem duplo mandato: manter a estabilidade de preços, com a inflação próxima à meta de 2%, e sustentar o máximo de emprego na economia americana. A guerra ameaça os dois lados dessa equação ao mesmo tempo.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, que acompanha os contratos futuros de juros (termômetro de sentimento do mercado em relação às taxas), deslocou a probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual de junho para dezembro, uma mudança que seria considerada improvável um mês atrás.
Entre as revisões mais significativas, destaca-se a do Goldman Sachs. O banco passou a esperar reduções de 0,25 ponto percentual em setembro e dezembro, citando os riscos crescentes de inflação ligados ao conflito. Antes da guerra, o Goldman projetava o início do ciclo de afrouxamento em junho, com outro corte em setembro.
O Barclays seguiu trajetória semelhante. O banco britânico também postergou sua projeção de primeiro corte para setembro, passando a esperar apenas uma redução ao longo de todo o ano — ante estimativas anteriores que contemplavam múltiplos cortes em 2026.
A visão do mercado como um todo ficou ainda mais pessimista. O economista-chefe da consultoria EY-Parthenon, Gregory Daco, revisou sua projeção para um único corte de 0,25 ponto percentual em 2026, provavelmente em dezembro, mas ressalvou ser "inteiramente plausível" que o Fed não entregue nenhum corte no ano.
No Morgan Stanley, o economista-chefe para os EUA, Michael Gapen, adota um tom mais cauteloso sobre o impacto direto do choque de energia. Segundo ele, o Fed deve provavelmente "ignorar" choques temporários de preços de energia, mas os riscos agora apontam para cortes que chegam mais tarde — e maiores — caso a atividade econômica se enfraqueça.
A lógica é que, se o conflito desacelerar a economia de forma mais intensa, o Banco Central terá mais espaço para afrouxar depois, ainda que a janela para agir logo se estreite.
Carl Weinberg, economista-chefe da High Frequency Economics, empresa independente de pesquisa econômica, defende que o Fed deveria considerar uma elevação de juros já na reunião desta semana, como forma de conter a inflação provocada pelo choque do petróleo — que, em sua projeção, pode chegar a 3,5% até o verão no hemisfério norte.
O impacto do conflito chega a uma economia que já exibia sinais de vulnerabilidade. O índice de preços ao consumidor avançou 2,4% em fevereiro ante o mesmo período do ano anterior — estável em relação a janeiro, mas ainda acima da meta do Fed. No mercado de trabalho, o payroll recuou 92 mil postos em fevereiro e a taxa de desemprego subiu para 4,4%.
O petróleo, por sua vez, opera em patamar que já compromete o bolso dos consumidores americanos. A média nacional da gasolina atingiu US$ 3,50 o galão, o nível mais alto desde 2024.
No mercado futuro, o barril de Brent é negociado acima dos US$ 100, acumulando alta de cerca de 40% em relação ao período anterior ao conflito, quando oscilava em torno de US$ 73. O WTI, referência americana, também oscila ao redor dos US$ 100 o barril, contra aproximadamente US$ 60 antes da guerra.
*com agências internacionais