Payroll surpreende negativamente: a economia do país fechou 92 mil empregos em fevereiro, de acordo com os dados divulgados pelo Departamento do Trabalho. O resultado veio na contramão das expectativas de analistas, que projetavam a criação de cerca de 50 mil vagas no período (Shannon Stapleton/Reuters)
Repórter
Publicado em 6 de março de 2026 às 11h57.
A divulgação do relatório de emprego dos Estados Unidos, conhecido como payroll, trouxe uma surpresa negativa para o mercado nesta sexta-feira, 6, e ampliou a aversão ao risco nos ativos globais.
Segundo analistas, os dados mostraram fechamento líquido de vagas em fevereiro, sinalizando enfraquecimento do mercado de trabalho americano e aumentando as incertezas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).
A economia do país fechou 92 mil empregos em fevereiro, de acordo com os dados divulgados pelo Departamento do Trabalho. O resultado veio na contramão das expectativas de analistas, que projetavam a criação de cerca de 50 mil vagas no período.
A taxa de desemprego também mostrou deterioração. O indicador subiu de 4,3% em janeiro para 4,4% em fevereiro, enquanto a estimativa do mercado apontava para estabilidade, em 4,3%.
Por outro lado, os salários continuaram avançando em ritmo relativamente forte. O salário médio por hora subiu 0,4% de janeiro para fevereiro, para US$ 37,32, acima da expectativa de alta de 0,3%. No acumulado de 12 meses, o indicador avançou 3,8%, também ligeiramente acima da projeção do mercado, de 3,7%.
A reação dos mercados foi negativa. No Brasil, o dólar mudou de direção após a divulgação dos dados. Depois de abrir em alta e recuar no início da manhã, a moeda americana voltou a subir. Por volta das 11h08, avançava 0,38% frente ao real, cotada a R$ 5,308.
Nos Estados Unidos, os futuros das bolsas também operavam em queda. Segundo Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, o movimento reflete tanto o dado mais fraco do mercado de trabalho quanto o aumento das tensões no Oriente Médio, que impulsionam o preço do petróleo.
"Quando a gente olha para a Bolsa, ela tem caído nessa abertura do mercado. Entre os principais fatores estão justamente a alta do preço do petróleo por causa do conflito no Oriente Médio e agora também esse dado de mercado de trabalho vindo bastante abaixo da expectativa", afirmou.
Os contratos futuros apontavam queda de mais de 1% do S&P 500, Dow Jones e Nasdaq após a divulgação do indicador.
O cenário também provocou movimentos na renda fixa americana. "Quando a gente olha para a renda fixa, a gente acompanha a curva de dois anos com leve queda nos yields, mostrando uma perspectiva de corte de juros do Fed ainda ao longo desse ano", disse Yamashita.
Segundo o especialista, antes da divulgação do payroll o mercado trabalhava com apenas um corte de juros em 2026, diante da pressão inflacionária associada ao petróleo. Com o dado mais fraco do emprego, a expectativa voltou a apontar para dois cortes, um em julho e outro em dezembro do próximo ano.
Apesar da fraqueza do mercado de trabalho, analistas avaliam que o cenário para a política monetária americana segue complexo.
Para Ellen Zentner, do Morgan Stanley, os dados colocam o Fed em uma posição delicada. "Números de hoje podem ter colocado o Fed numa situação difícil, dado o risco de que preços do petróleo elevados por tempo prolongado possam desencadear outra onda inflacionária. O Fed pode se sentir compelido a permanecer em compasso de espera", afirmou.
Na mesma linha, Ira Jersey, da Bloomberg Intelligence, avalia que choques de oferta ligados à energia devem continuar influenciando o comportamento das taxas de juros no mundo. "O receio de choques na oferta relacionados à energia pode continuar a influenciar os mercados de juros globalmente", disse.
Para Christopher Hodge, da Natixis, o dado reforça a visão de integrantes mais moderados do Fed. Segundo ele, o resultado "reforçará a posição dos mais moderados, principalmente Christopher Waller, de que os dados recentes mais fortes eram uma ilusão", afirmou.
Já Lindsay Rosner, do Goldman Sachs, vê o resultado como um alerta para o banco central americano. "Indícios de fragilidade no mercado de trabalho servem de alerta ao Fed de que pode haver um preço a pagar pelo adiamento dos cortes", afirmou. Ainda assim, ela avalia que o curto prazo da política monetária continua sendo influenciado pela geopolítica no Oriente Médio.
Rosner acrescenta que a expectativa é de que o Fed ainda realize dois cortes de juros no processo de normalização da política monetária, embora o momento exato permaneça incerto.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, que monitora as expectativas para as decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), indica que mais de 95% dos agentes financeiros apostam na manutenção da taxa de juros na próxima reunião, no intervalo entre 3,50% e 3,75%.
Já André Valério, economista sênior do Inter, avalia que o resultado reforça sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho americano e aumenta a probabilidade de cortes nos juros ao longo do ano. Mas a tarefa do Fed "continua difícil", segundo o especialista.
Ele aponta que os salários continuam crescendo a ritmo robusto. Além disso, o dado pior que o esperado do índice de preços ao produtor implica que o PCE virá mais alto que o esperado inicialmente. E o impacto da guerra no Irã também se torna um fator de preocupação, com o preço do petróleo se aproximando dos US$ 90, o que pode se tornar uma pressão de alta na inflação americana nos próximos meses, caso o conflite perdure além do esperado ou se intensifique
"Portanto, para a reunião de março ainda esperamos que o Fed opte por manter a taxa de juros inalterada devido à elevada incerteza, mas o dado de hoje aumenta a probabilidade de cortes nos juros ao longo do ano. Por ora, mantemos expectativa de que novo corte só deve ocorrer na reunião de junho", disse Valério.