Dólar recua: a moeda americana fechou abaixo de R$ 5, com queda de 0,29%, cotada a R$ 4,997, o menor valor desde o dia 27 de março de 2024 (Money Still Life/Getty Images)
Repórter
Publicado em 14 de abril de 2026 às 05h00.
O dólar à vista voltou a romper um patamar simbólico nesta segunda-feira, 13. Pela primeira vez em mais de dois anos, a moeda americana fechou abaixo de R$ 5, com queda de 0,29%, cotada a R$ 4,997, o menor valor desde o dia 27 de março de 2024. Na mínima do dia, a moeda americana chegou a tocar os R$ 4,983.
O movimento reforça uma trajetória de enfraquecimento que vem desde o ano passado. Em 2025, a divisa encerrou com baixa de 11,18%, a R$ 5,489, após ter iniciado cotada acima dos R$6. E, em menos de quatro meses deste ano, já acumula desvalorização de 8,96% frente ao real. No acumulado de 12 meses, a queda se aproxima de 14,80%.
De acordo com os analistas, o atual patamar do câmbio é resultado de uma combinação de fatores globais e domésticos, e não de um único evento isolado.
"É válido lembrar que o dólar já se encontra em tendência de queda desde o ano passado", diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
O operador observa que, nos dois primeiros meses do ano, o real voltou a se valorizar, acumulando queda superior a 6%.
Mas houve uma interrupção desse movimento em março em função da escalada do conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel, que elevou a aversão ao risco global e fortaleceu o dólar como ativo de proteção. Ainda assim, a alta da moeda americana foi de apenas 0,87% no mês passado.
"Agora, em abril, o movimento de queda já se retoma, com recuo próximo de 3,8% e o dólar voltando a níveis próximos das mínimas em dois anos", afirma o operador. Na leitura de Shahini, há um pano de fundo estrutural favorecendo o real.
"A moeda tem se beneficiado de um processo global de realocação de capital, com fluxo direcionado para mercados emergentes, movimento que começou no ano passado e ganha continuidade em 2026. Esse fluxo tem sido consistente tanto para renda fixa quanto para a bolsa brasileira, que vem registrando recordes historicos", diz.
O Brasil também apresenta um dos maiores diferenciais de juros entre emergentes, com um Banco Central atuante e uma inflação que vinha em trajetória de convergência até o choque recente vindo do petróleo.
Mas o cenário externo também pesa, de acordo com Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research. "Os investidores começaram a ver uma deterioração marginal do excepcionalismo norte-americano e começaram a sair dos Estados Unidos e a buscar outros mercados", afirma Sung. Nesse contexto, países emergentes, como Brasil, México e Coreia do Sul, passaram a receber mais capital estrangeiro.
Mais recentemente, o preço elevado do petróleo também passou a influenciar no comportamento da moeda americana em relação ao real. "Como nós somos exportadores de commodities, principalmente de petróleo, isso favorece de uma forma positiva a nossa taxa de câmbio", diz o economista.
Apesar do movimento consistente de queda, não há consenso entre os analistas sobre uma nova tendência estrutural abaixo de R$ 5.
Shahini, por exemplo, diz que ainda há espaço adicional para valorização do real no curto prazo.
"Com a recente descompressão das tensões geopolíticas e a retomada do apetite por risco, ainda acho que existe espaço para o real se valorizar e o dólar negociar abaixo de R$ 5", diz. O especialista pondera, porém, que o cenário pode mudar com a aproximação do ciclo eleitoral, que tende a elevar a volatilidade no segundo semestre.
A visão de Sung, no entanto, é ainda mais cautelosa. Embora veja o câmbio mais comportado nos próximos meses, o economista da Suno não acredita em uma queda sustentada abaixo de R$ 5. "É difícil nós enxergarmos de uma forma sustentável um câmbio abaixo de R$ 5 por vários meses consecutivos", afirma, citando incertezas domésticas ainda não resolvidas.
"Vemos aum câmbio mais comportado e nossa expectativa é que ele continue assim, mas ficar abaixo de R$ 5 por muito tempo, é um pouco mais difícil", afirmou.
Já Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, vê a continuidade da apreciação do real no curto prazo, com a moeda operando abaixo dos R$ 5.
"O piso deve ser ainda no primeiro semestre, mas é muito difícil estimar qual é esse valor. Nossas simulações no final de março mostravam o intervalo R$ 4,85 a R$ 4,95 como o mais provável para o fim de junho", diz o banco.
Diante desse cenário, o patamar atual do dólar levanta dúvidas também para o investidor. Sung avalia que o nível próximo de R$ 5 pode ser uma oportunidade para diversificação. Ainda assim, ele ressalta que a decisão deve considerar objetivos e perfil de risco, mas reforça a importância de exposição internacional como forma de proteção.
“Antes de investir, o primeiro passo é definir seus objetivos de curto, médio e longo prazo. Se você tem uma necessidade no curto prazo, por exemplo, pode não fazer sentido investir em dólar, já que a renda fixa tende a oferecer mais segurança nesse horizonte. Tudo depende dos seus objetivos e do seu perfil de risco", conclui o economista-chefe.