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Deutsche Bank vê ano crítico para empresas de IA: 'lua de mel acabou'

Maior banco da Alemanha afirma que entusiasmo com tecnologia dará lugar a cobrança por resultados concretos

Deutsche Bank: "a lua de mel da IA chegou ao fim" (Kenneth Cheung/Getty Images)

Deutsche Bank: "a lua de mel da IA chegou ao fim" (Kenneth Cheung/Getty Images)

Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 11h27.

O Deutsche Bank acredita que a tese de inteligência artificial (IA) que deu suporte às bolsas nos últimos anos vai, sim, sobreviver. Mas será colocada a prova em 2026 e terá seu ano mais difícil até agora. O maior banco da Alemanha afirma que o setor entra em uma fase de maturação forçada, marcada por menos entusiasmo e mais cobrança por resultados concretos.

"A lua de mel da IA chegou ao fim", afirma a instituição em relatório publicado nesta segunda-feira, 20.

De acordo com os analistas Adrian Cox e Stefan Abrudan, o problema não é a continuidade da tecnologia, mas a necessidade de provar valor, escalar com eficiência e gerar retorno financeiro. Eles observam que a IA segue como um motor relevante do crescimento econômico global, mas "está mais exposta a correções e enfrenta limites físicos, financeiros, regulatórios e sociais".

Desilução com a IA

O novo momento, diz o Deutsche Bank, resulta da convergência de três 'd's': desilusão, deslocamento e desconfiança.

No eixo da desilusão, o banco destaca que a IA generativa será transformadora,"mas não neste momento". À medida que projetos-piloto avançam para a fase de produção, empresas se deparam com limitações estruturais, como problemas de precisão, dificuldade de aplicação em ambientes reais imprevisíveis e dúvidas sobre viabilidade econômica frente ao trabalho humano.

"Em muitas áreas, levará muito tempo, se é que algum dia acontecerá, até que ela se torne mais econômica do que o trabalho humano", afirma os analistas.

Embora a tecnologia evolua rapidamente em áreas como programação, seus benefícios permanecem concentrados no Vale do Silício e entre usuários mais sofisticados. Para a maioria dos executivos, segundo o banco, a IA ainda não se traduz em geração material de receita nem em correções operacionais sistêmicas.

O relatório compara o momento atual menos a uma revolução e mais a um ganho incremental. "Para a maioria das pessoas, isso parece menos uma mudança de cavalo para trator e mais uma atualização para uma sela mais confortável", destacam em um trecho do relatório.

"Mesmo que os benchmarks sugiram que as tarefas de trabalho estão basicamente resolvidas, as pessoas que lidam com a confusão do mundo real discordam. Por enquanto, é uma ferramenta que precisa de orientação e interpretação", complementam.

Eficiente, mas não em tudo

O Deutsche Bank também chama atenção para a chamada "fronteira irregular" da IA. Segundo o banco, essas são situações em que a tecnologia é eficiente em algumas tarefas e falha em outras.

A aplicação em escala nas empresas segue limitada, em parte porque muitas companhias não dispõem de dados de alta qualidade, capacidade de integração ou controles adequados para usos sensíveis, como em finanças e saúde. Por conta disso, a adesão de funcionários e clientes aparece como obstáculo adicional.

O banco reconhece, por outro lado, que o investimento em inteligência artificial tem sustentado boa parte do crescimento econômico recente, especialmente nos Estados Unidos.

Em 2025, o índice S&P 500, que reúne as 500 maiores empresas de capital aberto americanas, fechou com alta de 16%. Mas o desempenho positivo foi impulsionado por nomes de peso como a Nvidia, que subiu cerca de 40%, e a Alphabet, dona do Google, que avançou 65%.

Justamente por isso, porém, o relatório alerta para o risco de frustração das expectativas. O banco cita dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), que mdestaca que uma revisão negativa das projeções de produtividade associadas à IA "poderia levar a um declínio nos investimentos e desencadear uma correção abrupta no mercado financeiro".

Deslocamento e desconfiança

O segundo fator apontado é o deslocamento, associado aos gargalos da infraestrutura que sustenta a expansão da IA. A demanda por capacidade computacional segue forte, mas enfrenta limitações crescentes, como a escassez de memória de alta largura de banda, restrições de energia elétrica, uso intensivo de água para resfriamento de data centers e fragilidades na cadeia de suprimentos.

Segundo o banco, basta uma decisão regulatória, uma restrição de exportação ou um impasse geopolítico para comprometer implementações.

Esse cenário torna 2026 um ano crítico para empresas privadas de IA, mesmo com o volume recorde de financiamento.

"No último dia de 2025, a OpenAI recebeu mais US$ 22,5 bilhões da Softbank e, segundo relatos, estava em negociações com investidores para levantar fundos com uma avaliação de cerca de US$ 750 bilhões. Então, uma semana depois, a xAI anunciou que levantou US$ 20 bilhões em uma rodada de financiamento e a Anthropic assinou um termo de compromisso para uma rodada de financiamento de US$ 10 bilhões com uma avaliação de US$ 350 bilhões", lembram os analistas.

"No entanto, os investidores acabarão exigindo retornos. Este ano pode ser decisivo para os fabricantes independentes de modelos de IA. A OpenAI está particularmente estendida e pode estar em maior risco, pois parece ainda não ter encontrado um modelo de negócios viável para cobrir seu consumo de caixa relatado de US$ 9 bilhões no ano passado e provavelmente US$ 17 bilhões neste ano", afirmam.

O banco também aponta um aumento da desconfiança em torno da inteligência artificial. A "ansiedade social" tende a crescer, refletida em processos judiciais relacionados a direitos autorais, privacidade e uso indevido da tecnologia.

O relatório também menciona preocupações com impactos no emprego, ainda que reconheça que as evidências disponíveis sejam contraditórias e inconclusivas. Mesmo assim, a IA passa a ser cada vez mais responsabilizada por mudanças no mercado de trabalho.

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