Stark Bank: "O que mudou é que cripto deixou de ser nicho e virou demanda real de tesouraria das empresas, sendo utilizada para reserva de valor e pagamentos internacionais" (Jirapong Manustrong/Getty Images)
Repórter
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 11h22.
Criptomoedas deixaram de ser associadas apenas à especulação e começam a ganhar espaço como instrumento de gestão de caixa nas empresas. Essa é a leitura que sustenta a nova parceria entre o banco digital Stark Bank e a plataforma MB | Mercado Bitcoin, que passou a permitir a compra de criptoativos diretamente pela conta digital de clientes PJ.
A iniciativa reforça o posicionamento do banco brasileiro, apoiada pelo family office de Jeff Bezos, como um fornecedor bancário de referência para empresas que atuam com criptoativos e blockchain.
Antes mesmo de passar a oferecer criptoativos como produto financeiro, o Stark Bank já havia direcionado sua atuação ao atendimento de empresas do setor.
Desde o ano passado, a companhia trabalha com pelo menos 52 companhias desse segmento, entre elas Transfero e Binance, além do MB, que deixou de ser apenas um cliente para se tornar parceiro na oferta de compra de criptoativos integrada à conta digital das empresas.
"O que mudou é que cripto deixou de ser nicho e virou demanda real de tesouraria das empresas, sendo utilizada para reserva de valor e pagamentos internacionais. E, dentro do Stark, a gente chegou no ponto em que conseguia transformar essa complexidade em um produto simples, com governança e confiança", afirmou a fintech em nota.
Dentro desse contexto, o uso corporativo de cripto passa a ser tratado menos como aposta e mais como ferramenta financeira. Segundo o Stark, o movimento não nasce do interesse pelo ativo em si, mas da necessidade das empresas.
"Quando a gente começou a atender empresas cripto, não era sobre cripto. Era sobre resolver um problema: mover e guardar valor com controle e segurança", disse.
A solução, porém, ainda está em fase inicial de adoção. Lançado em versão beta no fim do ano passado e recentemente aberto para toda a base de clientes do banco, o produto ainda não permite traçar um perfil claro das empresas que devem utilizá-lo.
"Acreditamos nesse momento no uso de cripto como reserva de valor para as empresas, como uma forma de diversificar a alocação de caixa. Como é um produto muito novo, estamos com taxas super agressivas e muito mais interessantes que outras corretoras e bancos, o que beneficia diretamente nossos clientes", afirmou.
Na prática, a solução permite que empresas invistam em Bitcoin e dólar digital (USDT e USDC) a partir de R$ 1 mil, sem sair do ambiente bancário. A operação acontece dentro da mesma estrutura financeira já usada pela companhia, com as mesmas alçadas de aprovação, limites, trilhas de auditoria e visibilidade em tempo real.
A proposta, segundo o Stark, é evitar a criação de um "segundo financeiro" fora da conta principal, como ocorre quando a empresa precisa recorrer a corretoras ou plataformas externas.
Já a parceria com o MB | Mercado Bitcoin vai além da relação tradicional entre banco e cliente. O MB atua como parceiro de infraestrutura cripto, e esse é o primeiro produto lançado a partir dessa colaboração.
Na avaliação da fintech, o Brasil já figura entre os maiores mercados de cripto do mundo. Estimativas da Chainalysis indicam que o país recebeu US$ 318,8 bilhões em valor de cripto em 2024, liderando a América Latina.
Dados do Banco Central também mostram que as stablecoins concentram a maior parte desses fluxos — cerca de 90% —, impulsionadas principalmente por pagamentos e operações transfronteiriças, justamente onde surge a demanda corporativa de tesouraria, segundo o bamco.
Pelos dados da Receita Federal, mais de 90 mil CNPJs únicos aparecem mensalmente em operações com cripto reportadas ao Fisco, com volumes que somam dezenas de bilhões de reais por mês.
"Se você tem um mercado que movimenta dezenas de bilhões por mês, capturar uma fração com um produto bem integrado ao dia a dia da tesouraria já pode virar uma linha relevante", afirmou o Stark.
"A nossa ambição é crescer em etapas, começando por empresas que já pedem isso (principalmente casos de uso de tesouraria e operações internacionais), com governança e controles, e expandindo conforme a demanda e o arcabouço regulatório amadurecem".
O movimento, no entanto, ocorre em um momento de maior cautela no mercado de criptomoedas. O início de 2026 tem sido marcado por lateralidade e leves quedas de preços.
Dados da plataforma CoinGecko mostram que, entre 21 e 27 de janeiro, o bitcoin acumulou alta de apenas 1,5%, enquanto o ether subiu 3,3%. Entre as 20 maiores criptomoedas do mundo, nenhuma registrou valorização superior a 5% no período.
Diante desse cenário, o Stark afirma não ter como objetivo prever movimentos de preço. "Sobre o mercado de cripto em 2026, nossa leitura é pragmática. No curto prazo, o preço segue muito mais o macro e o apetite a risco global, então é natural ver correções e períodos de cautela", disse.
A premissa do produto, segundo o banco, é oferecer às empresas processos claros, controle e responsabilidade na operação com ativos digitais, mesmo em momentos de maior volatilidade.
Com essa etapa concluída, a empresa já tem planos para expandir o seu portfólio de produtos de ativos digitais para além da reserva de valor e liquidação de criptomoedas em um futuro próximo.
"Funcionalidades de câmbio e o uso de criptomoedas para o pagamento de contas através de transferências nacionais ou internacionais são opções que queremos dar suporte em breve", disse o Stark.
Fundado em 2018 e com sede em São Paulo, o Stark Bank a instituição oferece serviços como processamento de pagamentos, emissão de faturas e gestão de cartões corporativos, e reúne em sua base desde empresas do setor cripto até companhias como Wise, Americanas e diversas startups de tecnologia.
Em 2022, a fintech captou recursos durante uma rodada que incluiu o Ribbit Capital e o family office do fundador da Amazon, atingindo uma avaliação de US$ 250 milhões.